Promessas Quebradas III
Capítulo 12 — O Eco das Velhas Canções
por Valentina Oliveira
Capítulo 12 — O Eco das Velhas Canções
A noite de estreia fora um sucesso estrondoso, mas para Ana, o aplauso que ecoava em seus ouvidos parecia distante, abafado pela presença perturbadora de Rodrigo. Ela interpretara seu papel com uma paixão que beirava o desespero, cada gesto, cada palavra, carregada de uma emoção crua que parecia vir de seu próprio peito. A plateia se derretia em admiração, mas nos bastidores, Ana mal conseguia respirar. Ele estava lá, no fundo da plateia, um ponto escuro na penumbra, observando-a com uma intensidade que a deixava exposta, vulnerável.
Quando as luzes se acenderam e a multidão começou a se dispersar, Ana sentiu um aperto no peito. Ela precisava sair dali, precisava de ar, de silêncio. Mas antes que pudesse se esquivar, ele estava ao seu lado, sua presença imponente quebrando a bolha de alívio que ela tanto buscava.
"Ana", ele disse, a voz baixa, carregada de uma emoção que ela temia reconhecer. "Você foi… espetacular."
Ela se virou para ele, os olhos faiscando. "Obrigada. Mas, por favor, Rodrigo, vá embora. Eu não sei o que você quer aqui, mas você não faz parte deste meu mundo."
"Eu sei que te magoei. Mais do que você pode imaginar", Rodrigo admitiu, seu olhar fixo no dela, buscando alguma brecha na armadura que ela teimava em usar. "Mas eu não vim te perturbar. Eu só… eu precisava te ver. Precisava saber que você estava bem."
"Bem? Você acha que eu estou bem depois de tudo?", a voz de Ana tremeu, a mágoa transbordando. "Você sumiu, Rodrigo. Sumiu sem explicação, me deixou para trás. E agora você aparece como se nada tivesse acontecido, com esse seu jeito de… de querer consertar tudo com palavras bonitas."
"Não são palavras bonitas, Ana. São a verdade. E eu não quero consertar tudo como se nada tivesse acontecido. Eu quero consertar o que eu fiz. Eu sei que isso não é fácil, e eu não espero que você me perdoe da noite para o dia. Mas eu te amo, Ana. Eu sempre te amei. E o que eu fiz… foi o maior erro da minha vida."
O "eu te amo" ecoou em sua mente como um golpe. Era a mesma frase que ele dissera anos atrás, pouco antes de desaparecer, deixando-a com as ruínas de seus sonhos. Ana fechou os olhos por um instante, tentando controlar a avalanche de sentimentos que o invadia. Saudade, raiva, confusão, e uma pontada de esperança que ela lutava desesperadamente para sufocar.
"Você me ama?", ela repetiu, a voz áspera. "Amor não some assim, Rodrigo. Amor não abandona. Amor não quebra promessas."
"Nem sempre é tão simples, Ana. Há… há coisas que você não sabe. Coisas que me forçaram a tomar uma decisão dolorosa." Ele hesitou, olhando ao redor, como se estivesse com medo de ser ouvido. "Eu tive que proteger você. E proteger a mim mesmo."
"Proteger? Você me deixou à mercê de tudo e de todos! Quem te deu o direito de tomar decisões por mim? De decidir meu destino sem o meu consentimento?", Ana exclamou, a voz embargada pela emoção reprimida. Ela sentiu as lágrimas quentes rolarem pelo rosto, e não fez nenhum esforço para contê-las.
Rodrigo deu um passo à frente, a preocupação estampada em seu rosto. Ele estendeu a mão, como se quisesse tocar seu rosto, mas parou a centímetros de distância, respeitando a barreira que ela havia erguido. "Eu sinto muito, Ana. Sinto muito por cada lágrima que você derramou por minha causa. Sinto muito por ter sido covarde."
Ana respirou fundo, tentando encontrar forças em sua própria fragilidade. "Covardia é uma palavra leve para o que você fez, Rodrigo. Você me destruiu."
"Eu sei. E eu carrego essa culpa comigo todos os dias", ele disse, a voz embargada. "Mas eu voltei. E eu não vou embora de novo. Não até que você me ouça. Não até que você saiba toda a verdade."
Um vulto surgiu na escuridão. Era Clara, com seu olhar perspicaz, que vinha recolher o material do palco. Ela parou, percebendo a cena. "Ana? Está tudo bem? Você está chorando."
Ana limpou as lágrimas rapidamente, tentando recompor a compostura. "Está tudo bem, Clara. Só um pouco emocionada com a estreia."
Clara lançou um olhar desconfiado para Rodrigo, mas não insistiu. "Ótimo. Vamos recolher tudo antes que comece a chover. A noite está linda, mas o tempo aqui em São Paulo é traiçoeiro."
Enquanto Clara se distraía com as caixas e adereços, Rodrigo se aproximou de Ana novamente. "Eu vou te esperar. Na cafeteria em frente ao teatro. Me dê dez minutos. Por favor."
Ele se afastou antes que ela pudesse responder, deixando-a sozinha com o turbilhão de emoções. Ela olhou para a porta do teatro, onde ele desaparecera, e sentiu um aperto no peito. Dez minutos. Dez minutos para decidir se o passado valia a pena ser confrontado, se as promessas quebradas poderiam, de alguma forma, ser reescritas.
Ana sabia que ir até aquela cafeteria era como abrir uma porta que ela jurara manter fechada para sempre. Mas algo em seu interior, uma faísca de esperança ou talvez apenas a necessidade de um encerramento, a impelia. Ela caminhou lentamente para fora do teatro, o ar frio da noite beijando seu rosto.
Ao cruzar a rua, viu Rodrigo sentado a uma mesa na cafeteria, a luz fraca projetando sua silhueta contra o vidro. Ele levantou o olhar assim que ela se aproximou, e um lampejo de alívio cruzou seu rosto. Ana hesitou por um instante na entrada, o coração batendo descompassado. Então, respirou fundo e entrou.
Ele se levantou quando ela se aproximou da mesa. "Obrigado por vir."
Ana sentou-se, o olhar fixo em suas mãos entrelaçadas sobre a mesa. "Eu não prometi nada, Rodrigo."
"Eu sei. Mas você veio. E isso já é alguma coisa." Ele pediu um café para ela, e o silêncio que se instalou entre eles era pesado, carregado de anos de ausência e de palavras não ditas.
Finalmente, Rodrigo quebrou o silêncio. "Eu sei que você está com raiva. E você tem todo o direito. Mas eu preciso que você me ouça. Eu preciso te contar o que aconteceu. A verdade sobre o porquê de eu ter partido."
Ana ergueu os olhos, o olhar avaliador. Havia algo em sua voz, uma sinceridade dolorosa, que a impelia a dar-lhe uma chance. Talvez fosse o tempo, talvez fosse a própria dor, mas uma parte dela queria acreditar que ele não era o monstro que ela criara em sua mente. "Eu não sei se estou pronta para ouvir, Rodrigo."
"Eu sei que não é fácil. Mas eu não posso mais viver com esse segredo. E eu não posso mais viver sem você", ele disse, a voz embargada. "Me dê essa chance, Ana. Me dê a chance de te explicar. De te contar a minha história."
Ana olhou para a janela, para a rua movimentada e indiferente lá fora. O eco das velhas canções, as melodias de amor e de dor que embalaram seu passado, pareciam ressoar em sua alma. Ela sabia que se o ouvisse, o passado poderia voltar com força total, ameaçando destruir a vida que ela lutara tanto para reconstruir. Mas a verdade, por mais dolorosa que fosse, era sempre um caminho a ser trilhado.
"Tudo bem, Rodrigo", ela sussurrou, a voz mal audível. "Me conte. Mas esteja preparado. Porque eu não sou mais a mesma Ana que você deixou para trás."
Ele assentiu, o alívio em seus olhos misturado com uma apreensão profunda. A noite, que começara com o brilho das estrelas no céu de lona, agora se aprofundava em uma escuridão repleta de ecos e de promessas que precisavam ser desvendadas. O palco estava montado para mais um capítulo de suas vidas, e desta vez, o drama seria real, cru e, quem sabe, redentor.