Promessas Quebradas III

Capítulo 15 — O Fantasma de uma Dívida Antiga

por Valentina Oliveira

Capítulo 15 — O Fantasma de uma Dívida Antiga

A vida em São Paulo, para Ana, havia retomado um ritmo de relativa normalidade após a chocante confissão de Rodrigo. Ele se tornara uma presença constante, mas discreta, em sua vida. Não pressionava, não exigia, apenas esperava, um farol de esperança em seu horizonte. Ele a acompanhava em suas apresentações, observava-a de longe com um carinho que a desarmava, e em momentos fortuitos, trocavam olhares que diziam mais do que palavras. O amor que ele dizia sentir, a dor que ele alegava ter suportado, começavam a infiltrar-se em suas defesas, erguendo um muro de incertezas e de um desejo reprimido de acreditar.

No entanto, a sombra do passado de Rodrigo, a história de negócios escusos e de ameaças, pairava como uma nuvem escura sobre suas esperanças. Ela sabia que a verdade completa ainda não havia sido revelada. Havia um véu, uma névoa que Rodrigo se recusava a dissipar completamente, e Ana sentia, com uma intuição afiada, que o que ele não contava era tão importante quanto o que ele revelava.

Uma tarde, enquanto Ana ensaiava no galpão da companhia de teatro, Clara, a diretora, a chamou para conversar. O semblante de Clara estava sério, e uma inquietação velada em seus olhos chamou a atenção de Ana.

"Ana, preciso falar com você sobre algo que me preocupa", Clara começou, sentando-se em uma das caixas de adereços. "Tenho sentido que há algo mais acontecendo com você. Algo relacionado a esse homem, Rodrigo. Ele parece… assombrado."

Ana sentiu um aperto no peito. Ela não esperava que seus conflitos internos fossem tão transparentes. "Eu estou bem, Clara. É só… um reencontro do passado."

"Um reencontro que te consome, Ana. E eu me preocupo. Principalmente porque, de vez em quando, vejo homens que não me parecem 'amigos do passado', mas sim… algo mais sinistro, observando você de longe. Perto do teatro, perto da sua casa." Clara fez uma pausa, buscando as palavras certas. "Eu já passei por muitas coisas na vida, Ana. Reconheço o cheiro do perigo quando ele está por perto."

O sangue de Ana gelou. "Homens observando? Você tem certeza, Clara?"

"Tenho. Pessoas que não parecem fazer parte do seu círculo de amigos, nem do de Rodrigo. Pessoas que parecem estar… esperando. Por algo." Clara a olhou diretamente nos olhos. "Eu sei que Rodrigo te contou uma versão da história. Mas eu tenho a sensação de que há mais. Algo sobre dívidas, sobre promessas não cumpridas que vão além do que ele te disse."

Dívidas? Promessas não cumpridas? As palavras de Clara ecoaram os receios de Ana. Rodrigo havia falado sobre ameaças, sobre proteger sua vida. Mas nunca sobre dívidas. Era como se um novo fantasma tivesse surgido das sombras, um fantasma que se agarrava ao passado de Rodrigo e que agora parecia ameaçar o presente dela.

"Dívidas?", Ana repetiu, a voz trêmula. "Que tipo de dívidas?"

"Não sei os detalhes", Clara admitiu. "Mas o meu pai… ele teve negócios com o pai de Rodrigo. E a história que se contava era de que havia muitas pendências, muitas dívidas não pagas. E pessoas que não perdoam quem lhes deve."

Ana sentiu o chão sumir sob seus pés. A história de Rodrigo, por mais convincente que fosse, parecia incompleta. A ideia de que ele estivesse sendo perseguido por dívidas antigas, e que essas dívidas pudessem colocar sua vida em risco, era um pesadelo. Ela se lembrou dos olhares furtivos que vira em algumas ocasiões, e que atribuíra à curiosidade. Agora, tudo fazia sentido.

"Rodrigo nunca me falou sobre dívidas", Ana murmurou, a preocupação crescendo em seu peito.

"É por isso que me preocupo, Ana. Se ele está escondendo algo tão importante, o que mais ele estaria omitindo? E se essas pessoas estiverem atrás dele, e agora, por associação, atrás de você…", Clara deixou a frase morrer no ar, a implicitação cruel.

Ana sentiu um frio na espinha. A imagem de Rodrigo, o homem que ela estava começando a permitir que entrasse novamente em sua vida, agora se misturava com a imagem de um homem endividado, envolvido em negócios perigosos que poderiam colocá-la em risco. Ela sentiu a tentação de fugir novamente, de se fechar em sua concha, mas algo a impedia. Ela precisava saber. Precisava da verdade completa.

Mais tarde naquela noite, Ana foi ao encontro de Rodrigo em um parque tranquilo, a luz das estrelas filtrando-se por entre as árvores. Ele a esperava em um banco, o rosto iluminado pela lua, um misto de esperança e apreensão em seu olhar.

"Ana. Você veio", ele disse, um sorriso discreto surgindo em seus lábios.

Ana sentou-se ao lado dele, o silêncio se estendendo entre eles por alguns momentos. Ela o observou, buscando a verdade em seus olhos, a sinceridade em sua postura. "Rodrigo, eu preciso que você seja completamente honesto comigo. De verdade."

Ele a olhou, a apreensão crescendo em seu olhar. "Eu sou. Eu te contei tudo o que importa."

"Não, Rodrigo. Não contou", Ana disse, a voz firme, mas com uma pontada de tristeza. "Clara me disse que há dívidas. Dívidas antigas. Dívidas que você não me contou."

O rosto de Rodrigo endureceu, e um véu de resignação caiu sobre seus olhos. Ele sabia que aquele momento havia chegado. A verdade, finalmente, precisava vir à tona, completa e crua.

"Ela está certa", Rodrigo admitiu, a voz baixa. "Há uma dívida. Uma dívida que meu pai me deixou. E pessoas que não esquecem o que lhes é devido."

Ele respirou fundo, o corpo tenso. "Eu esperava conseguir resolver isso antes de te envolver novamente. Mas parece que o destino tem outros planos."

"Que dívidas, Rodrigo? E quem são essas pessoas?", Ana insistiu, a voz embargada.

"Meu pai… ele era um homem de muitos acordos. Alguns, no mínimo, questionáveis. Ele devia favores, dinheiro… a gente perigosa. E quando ele morreu, essa dívida passou para mim. Pessoas que não são pacientes. E que não se importam com quem está no caminho delas."

"E você acha que essas pessoas estão te observando agora? Que estão me observando?", Ana perguntou, o medo real em sua voz.

Rodrigo a pegou pelas mãos, seus olhos fixos nos dela. "Eu não sei, Ana. Mas eu não posso arriscar. Eu voltei para o Brasil para tentar resolver essa situação. Para me livrar desse fardo de uma vez por todas. E eu não queria que você se tornasse um peão nesse jogo perigoso."

"Mas eu já sou um peão, Rodrigo! Você escondeu a verdade, e agora, sem saber, eu me tornei um alvo! Eu preciso saber tudo. Eu preciso entender o que está acontecendo!", Ana exclamou, a frustração misturada ao medo.

Rodrigo apertou suas mãos. "Eu sei que eu errei. Errei em te esconder. Mas tudo o que eu fiz, foi para te proteger. Sempre foi você, Ana. Você sempre foi a minha razão. A minha esperança."

Ele a olhou nos olhos, a sinceridade dolorosa em seu olhar. "Essas dívidas… elas são com pessoas que não hesitam em usar a violência. E se elas perceberem que você é a minha fraqueza… elas podem usá-la contra mim. Por isso eu preciso que você confie em mim. Que me deixe resolver isso."

Ana sentiu as lágrimas brotarem novamente. A história de Rodrigo era de tirar o fôlego, um drama digno de uma novela. Mas a realidade era cruel e perigosa. Ela estava envolvida, quer quisesse, quer não. A promessa de amor de Rodrigo, agora tingida pela sombra de dívidas antigas e de perigos iminentes, a colocava em uma encruzilhada ainda mais difícil.

"Eu não posso mais viver com segredos, Rodrigo", Ana disse, a voz embargada. "Eu preciso da verdade. Toda a verdade. E eu preciso saber que você está realmente tentando me proteger. Que não está me colocando em perigo por causa de um passado que você não consegue deixar para trás."

Rodrigo a puxou para um abraço apertado, o corpo tremendo levemente. "Você tem toda a razão, Ana. E eu prometo. Vou te contar tudo. Vou enfrentar o que for preciso para que possamos ter um futuro. Um futuro sem sombras, sem dívidas. Um futuro nosso."

Ana se aconchegou em seus braços, sentindo o calor de seu corpo. A chuva havia parado, e as estrelas, antes escondidas pelas nuvens, agora brilhavam intensamente no céu. Ela sabia que a jornada seria longa, repleta de perigos e incertezas. Mas, pela primeira vez desde o reencontro, ela sentiu uma pequena chama de esperança. A verdade era assustadora, mas a união diante dela era, talvez, a única forma de sobreviver. As promessas quebradas poderiam ser reescritas, mas para isso, era preciso desvendar todos os seus segredos, todas as suas dívidas, e enfrentar os fantasmas que assombravam o passado de Rodrigo, e agora, o futuro dela.

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