Promessas Quebradas III

Promessas Quebradas III

por Valentina Oliveira

Promessas Quebradas III

Por Valentina Oliveira

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Capítulo 16 — A Névoa de Amsterdã

O ar de Amsterdã, úmido e perfumado pela brisa salgada do Mar do Norte, parecia abraçar Helena com uma melancolia familiar. Meses haviam se passado desde que deixara o Brasil, e a cidade dos canais, com sua arquitetura pitoresca e a sinfonia constante de bicicletas, tornou-se seu refúgio, seu exílio voluntário. Nova York, com suas promessas dilaceradas e o fantasma de Gabriel, ainda a assombrava, mas aqui, entre pontes sinuosas e casas estreitas inclinadas como se quisessem sussurrar segredos ao rio, ela tentava encontrar um pouco de paz.

Ela caminhava sem rumo, o cachecol de lã puxado até o queixo, enquanto o crepúsculo tingia o céu de tons lilás e laranja. As luzes das casas começavam a se acender, refletindo-se nas águas escuras dos canais, criando um espetáculo etéreo que por vezes a fazia esquecer a dor. Mas a paz era efêmera, um sopro de vento que logo se dissipava, deixando-a à mercê de suas próprias tormentas.

Gabriel. O nome era um eco constante em sua alma. A confissão sob a chuva de setembro, a promessa quebrada que ressoava em cada canto de sua memória, o fantasma de uma dívida antiga que ela não conseguia desvendar completamente. Ela sabia que ele a amava, sentira isso em cada toque, em cada olhar, em cada palavra dita com a intensidade que só ele possuía. Mas havia algo mais, um abismo que os separava, algo que ele não ousava ou não podia revelar.

A dívida. Aquela dívida que pairava sobre a família dele, sobre o nome dele, que o aprisionava de uma forma que ela ainda não compreendia. Teria sido por isso que ele a deixara? Para protegê-la de algo que ele não podia enfrentar? As perguntas se emaranhavam em sua mente como os próprios canais da cidade, complexas e labirínticas.

Ela parou em uma ponte, observando um barco turístico deslizar suavemente pela água. As pessoas a bordo riam, tiravam fotos, alheias à sua solidão. Helena sentiu uma pontada de inveja. Queria poder ser como eles, livre das amarras do passado, capaz de desfrutar da beleza do presente sem o peso das promessas quebradas.

Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho. Uma moto se aproximava em alta velocidade pela rua estreita. Helena não teve tempo de reagir. O impacto a arremessou para trás, o corpo batendo violentamente contra o parapeito da ponte. A dor a atingiu como um raio, e tudo se tornou um borrão escuro.

Quando abriu os olhos, a luz artificial de um hospital a cegou. O cheiro de desinfetante pairava no ar. Tentou se mover, mas um gemido de dor escapou de seus lábios.

"Calma, senhora. Você está segura."

Uma enfermeira de cabelos grisalhos e olhar gentil a observava. Helena engoliu em seco, tentando assimilar o que havia acontecido. A moto. A queda.

"Onde estou?", sua voz saiu rouca.

"No Hospital Sint Maarten, em Amsterdã. Você sofreu um acidente. Fraturou o braço direito e teve algumas escoriações. Nada muito grave, mas precisará de repouso."

O repouso era a última coisa que Helena desejava. Ela precisava de respostas, precisava entender o que estava acontecendo. E havia algo mais… a sensação incômoda de que aquele acidente não fora tão acidental quanto parecia. O detalhe de a moto ter se aproximado em alta velocidade, a forma como o condutor desaparecera na escuridão logo após o impacto… tudo soava muito conveniente para ser coincidência.

Nos dias que se seguiram, enquanto seu braço se curava lentamente, a mente de Helena trabalhava febrilmente. Ela tentava reviver os momentos antes do acidente, buscando qualquer pista, qualquer detalhe que pudesse ter escapado. A figura do motociclista era vaga, apenas um vulto na penumbra. Mas a velocidade… a intenção parecia clara. Alguém não queria que ela estivesse ali. Alguém não queria que ela descobrisse a verdade.

Ela pediu para que procurassem por informações sobre o acidente, mas a polícia local parecia ter arquivado o caso como um simples atropelamento acidental, sem testemunhas e com o suspeito em fuga. Helena sabia que era mentira. Sentia isso na pele. Alguém a estava vigiando, alguém estava agindo nas sombras para mantê-la silenciada.

Uma tarde, enquanto folheava um livro de arte em seu quarto de hospital, um envelope discreto apareceu sob a porta. Sem remetente, apenas um pequeno selo com um símbolo que ela não reconheceu. Com o braço dolorido, ela o pegou. Dentro, havia um único pedaço de papel, dobrado em três.

Ao abri-lo, seus olhos se arregalaram. Era uma fotografia. Uma foto antiga, desbotada pelo tempo, mostrando um homem e uma mulher sorrindo, abraçados. A mulher era jovem, com cabelos escuros e um olhar vibrante. O homem… o homem era inconfundivelmente o pai de Gabriel. E a mulher… Helena reconheceu-a de imediato. Era Sofia, a mãe de Gabriel, que ela pensava ter morrido anos antes.

Mas o que a chocou ainda mais foram as informações escritas no verso da foto, com uma caligrafia elegante e desconhecida:

"O passado nunca morre, Helena. E as dívidas, quando não pagas, cobram juros altos. Eles te querem longe. E você está se aproximando demais."

O sangue gelou em suas veias. Aquela foto, aquela mensagem… ela a conectava diretamente ao passado de Gabriel, à tal dívida antiga. E agora, ela tinha a certeza: o acidente não foi um acidente. Alguém a queria impedida de descobrir a verdade. A verdade sobre Sofia. A verdade sobre a dívida. A verdade sobre Gabriel. A névoa de Amsterdã, que antes trazia um certo conforto, agora parecia densa e ameaçadora, escondendo segredos que ela precisava desvendar, mesmo que isso a colocasse em perigo.

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