Promessas Quebradas III
Capítulo 18 — A Busca por Sofia
por Valentina Oliveira
Capítulo 18 — A Busca por Sofia
A decisão estava tomada. Helena não podia mais se dar ao luxo de ficar parada, esperando que os fantasmas do passado se dissipassem. A verdade sobre Sofia, a mãe de Gabriel, e sobre a dívida que a aprisionou, era um chamado irrecusável. De volta ao Brasil, com a revelação de Dona Lúcia ecoando em seus ouvidos, ela sentiu que o caminho para a salvação de Gabriel passava inevitavelmente por encontrar Sofia.
"Dona Lúcia, você tem alguma ideia de onde ela possa estar?", Helena perguntou, a voz carregada de urgência. "Qualquer pista, qualquer nome?"
A governanta franziu a testa, pensativa. "O senhor Antônio era muito discreto sobre o assunto. Mas me lembro de ele mencionar uma certa fazenda, isolada, no interior de Minas Gerais. Um lugar onde ninguém o procuraria. Ele dizia que era para 'garantir a segurança dela'."
Minas Gerais. Um estado vasto, com paisagens deslumbrantes e cantos esquecidos. A ideia de uma fazenda isolada era promissora, mas também desafiadora. "Preciso ir para lá", Helena declarou, sem hesitar.
"Senhorita Helena, é perigoso", Dona Lúcia a advertiu, seus olhos cheios de preocupação genuína. "Se o senhor Antônio a escondeu, é porque há quem não queira que ela seja encontrada. E o tal Arauto… ele não desiste fácil."
"Eu sei dos riscos, Dona Lúcia", Helena respondeu, segurando a mão enrugada da governanta. "Mas Gabriel… ele precisa saber. E eu preciso entender. Não posso viver com essa dúvida, com essa sensação de que tudo o que vivemos foi construído sobre uma mentira."
Com o endereço vago em mãos – uma região específica no interior de Minas, sem um nome de fazenda –, Helena partiu. Ela sabia que seria uma jornada solitária e árdua. A busca por Sofia era mais do que uma simples investigação; era uma corrida contra o tempo, contra as forças obscuras que se alimentavam das dívidas e dos segredos da família de Gabriel.
A viagem de carro pelas estradas sinuosas de Minas Gerais foi uma imersão em um Brasil profundo e esquecido. Montanhas imponentes, vales verdes e vilarejos pitorescos compunham a paisagem, mas a mente de Helena estava focada em seu objetivo. Ela parava em pequenas cidades, perguntava sobre fazendas isoladas, sobre mulheres que haviam chegado misteriosamente anos atrás. As respostas eram escassas, as pessoas desconfiadas. A reputação do "Arauto" parecia ter se espalhado de forma silenciosa, instilando um medo palpável na região.
Após dias de busca infrutífera, Helena se sentiu desanimada. Estava prestes a desistir quando, em um pequeno posto de gasolina à beira de uma estrada de terra batida, um senhor de idade, com o rosto marcado pelo sol, lhe deu uma pista.
"Fazenda… mulher reclusa… sim, já ouvi falar. Fica lá para o lado da Serra da Mantiqueira. Chamam de 'Recanto da Paz', mas a dona vive reclusa, ninguém se aproxima."
Recanto da Paz. O nome soava irônico, considerando as circunstâncias. Helena agradeceu ao homem e seguiu pela estrada de terra, com o coração disparado. Quanto mais se aproximava, mais a vegetação se adensava, o silêncio se tornava mais profundo. A sensação de estar sendo observada era constante, mas não havia vultos, nem sinais de perseguição. O perigo, ela sabia, era sutil, disfarçado.
Finalmente, avistou a entrada. Um portão de ferro rústico, coberto por hera, com uma placa desbotada que, com esforço, se podia ler: "Recanto da Paz". A alameda que levava à casa principal era ladeada por árvores centenárias, criando um túnel natural. Ao chegar na frente da sede da fazenda, uma construção antiga, mas bem conservada, Helena sentiu um misto de esperança e apreensão.
Ela desceu do carro e caminhou em direção à porta principal. A casa parecia silenciosa, um eco do silêncio que se espalhava pela fazenda. Antes que pudesse bater, a porta se abriu lentamente.
Uma mulher surgiu na soleira. Seus cabelos, antes negros como a noite, agora eram salpicados de prata. Seu rosto, marcado pelo tempo e pela dor, carregava um olhar distante, mas ainda assim, reconhecível. Era Sofia.
Helena ficou sem palavras. A mulher à sua frente era a imagem viva da tragédia, do exílio forçado, da dor de uma mãe separada de seu filho.
"Quem é você?", Sofia perguntou, a voz frágil, mas firme.
"Eu… eu sou Helena", ela respondeu, lutando para controlar a emoção. "Eu vim do Rio. Eu conheci Gabriel."
Ao ouvir o nome de seu filho, os olhos de Sofia se encheram de lágrimas. Um véu de tristeza profunda cobriu seu rosto. "Gabriel… meu filho. Ele está bem?"
"Ele está… ele está sofrendo, senhora Sofia. E ele não sabe que a senhora está viva. Seu pai, o senhor Antônio, disse a ele que a senhora havia morrido."
Sofia levou as mãos à boca, um soluço escapando de seus lábios. A dor da mentira, da separação, a atingiu com força renovada. "Antônio… ele nunca me perdoou por ter escolhido o amor de Gabriel acima de tudo. Ele usou as dívidas para me afastar. Ele queria que eu desaparecesse, para que Gabriel se tornasse o herdeiro perfeito para os seus negócios."
Helena entrou na casa, um refúgio de paz aparente, mas que exalava a solidão de décadas. A mobília era antiga, mas bem cuidada. Havia um piano em um canto, coberto por um pano branco, e nas paredes, fotografias antigas, algumas emolduradas, outras ainda em caixas, esperando para serem redescobertas.
Sentadas em poltronas confortáveis, Helena contou a Sofia tudo o que sabia: sobre o amor de Gabriel, sobre o sacrifício dele para manter o nome da família, sobre a promessa quebrada que os separava. E sobre a ameaça, o fantasma do "Arauto" que parecia assombrar a todos eles.
Sofia ouvia atentamente, as lágrimas rolando pelo seu rosto. "Eu sempre soube que Antônio estava envolvido com pessoas perigosas. Ele sempre teve um lado sombrio, mas eu o amava. E amava Gabriel mais do que a minha própria vida. Tive que aceitar aquele exílio para protegê-lo. Mas o preço foi alto demais."
"Precisamos pensar em um plano", Helena disse, a urgência retornando. "O Arauto sabe que o pai de Gabriel está em dificuldades. Ele está pressionando. E eu acredito que ele sabe que eu estou investigando. A tentativa de atropelamento em Amsterdã não foi coincidência."
Sofia olhou para Helena, uma nova determinação em seus olhos cansados. "Meu filho precisa saber a verdade. E eu… eu tenho guardado algo. Algo que Antônio me deu antes de me forçar a ir embora. Uma caixa. Com documentos que provam toda a extensão das dívidas e quem são os credores. Antônio acreditava que era a única forma de garantir que eu não o traísse. Ele não sabia que, na verdade, essa caixa poderia ser a nossa salvação."
Uma caixa. Documentos. A peça que faltava para desvendar o mistério da dívida e, talvez, libertar Gabriel das garras de seu passado. A busca por Sofia havia terminado, mas a verdadeira batalha estava apenas começando.