Promessas Quebradas III
Capítulo 2 — As Cicatrizes Que a Noite Revela
por Valentina Oliveira
Capítulo 2 — As Cicatrizes Que a Noite Revela
A noite caiu sobre o Rio de Janeiro como um manto escuro e perfumado, pontilhado pelo brilho cintilante das luzes da cidade. Isadora dirigia seu carro antigo, um Fusca que era mais um companheiro fiel do que um mero veículo, pelas ruas movimentadas da Zona Sul. Cada semáforo vermelho era uma oportunidade para a mente vagar, para revisitar fragmentos do encontro com Daniel. A imagem de Helena, tão confiante e pertencente ao lado dele, era um punhal gelado em seu peito.
Ela não esperava vê-lo. Jamais. Cinco anos foram longos o suficiente para que a esperança, aquela velha conhecida traiçoeira, se dissolvesse completamente. O que ela sentiu não foi apenas a dor da traição passada, mas também a humilhação de ser exposta, de ter seu passado revelado de forma tão crua para alguém que agora representava o presente dele.
Ao chegar ao seu pequeno apartamento em Copacabana, o silêncio a acolheu como um abraço familiar, mas ao mesmo tempo opressor. O cheiro de café fresco pairava no ar, um resquício de sua tentativa frustrada de encontrar conforto naquela tarde. Ela tirou os sapatos, sentindo o cansaço se infiltrar em seus ossos. O trabalho como designer gráfica em uma agência de publicidade era exigente, e as noites em claro, pensando em tudo e em nada, não ajudavam.
No espelho do banheiro, Isadora viu o reflexo de uma mulher que lutava para se manter inteira. As olheiras profundas denunciavam as noites de insônia, e as linhas finas ao redor dos olhos, antes de riso, agora pareciam marcas de preocupação. Ela se despiu lentamente, cada movimento carregado de uma resignação silenciosa. A água quente do chuveiro caiu sobre sua pele, um alívio momentâneo para o aperto em seu peito.
Enquanto a água escorria, imagens começaram a surgir em sua mente, como flashes de um filme antigo. O verão em Búzios, o cheiro de protetor solar misturado com o perfume dela, a risada dele ecoando na praia. Daniel, com os cabelos molhados colados na testa, sorrindo para ela com uma intensidade que a fazia sentir como a única mulher no mundo. As mãos deles entrelaçadas, a promessa de um futuro que parecia tão real, tão palpável.
Ela se lembrou da noite em que ele lhe pediu em casamento, sob o céu estrelado da Lagoa Rodrigo de Freitas. Ele tinha um anel simples, de prata, comprado em uma loja de artesanato. Não era caro, mas era lindo, porque veio do coração dele. "Para sempre, Izzy," ele sussurrou em seu ouvido, a voz rouca de emoção. E ela acreditou. Acreditou cegamente.
O que aconteceu depois, ela tentava apagar, mas era impossível. A proposta de trabalho em outra cidade, as desculpas esfarrapadas, a distância que se tornou um abismo intransponível. Ele disse que precisava focar na carreira, que era uma oportunidade única, que voltaria. Mas ele nunca voltou. Ou melhor, voltou, mas para outra vida.
Isadora desligou o chuveiro, o corpo tremendo levemente. Ela se enrolou em uma toalha macia, sentindo o frio da noite invadir o banheiro. Precisava se distrair. Precisava de algo que a tirasse daquele turbilhão de memórias. Ela se lembrou de um livro que havia comprado há semanas, um suspense psicológico que prometia reviravoltas surpreendentes. Talvez fosse a distração perfeita.
Enquanto se vestia com um pijama confortável, seu celular vibrou na mesinha de cabeceira. Um número desconhecido. Ela hesitou, mas a curiosidade, ou talvez um instinto de autopreservação, a levou a atender.
"Alô?" sua voz soou mais fraca do que ela esperava.
"Isadora? Aqui é a Mariana, da agência."
Mariana era uma colega de trabalho, com quem ela tinha uma relação amigável, mas não íntima. "Oi, Mariana. Tudo bem?"
"Tudo bem, sim. Desculpa ligar tão tarde, mas eu não sabia a quem mais recorrer. Aconteceu um imprevisto com o projeto do cliente novo, o da joalheria. Lembra que você comentou que tinha um contato que podia nos ajudar com a campanha publicitária? Aquele que entende de joias de luxo e… coisas assim?"
Isadora franze a testa. Ela não se lembrava de ter mencionado um contato específico com essa descrição. "Joalheria? Mariana, acho que você se enganou. Eu não conheço ninguém nesse ramo."
"Não? Que estranho… O chefe disse que você mencionou isso na reunião de ontem. Ele está desesperado, e como você é a única que tem um bom relacionamento com ele…"
Um calafrio percorreu Isadora. Ela não esteve na reunião de ontem. Ela havia tirado o dia para resolver questões pessoais, algo que ela raramente fazia. "Mariana, eu não estive na reunião de ontem. E eu realmente não me lembro de ter falado sobre um contato para joalherias."
Houve um silêncio do outro lado da linha. "Ah… Que esquisito. Então quem teria dito isso? O chefe estava tão certo. Ele está com a cabeça a prêmio, sabe? Se não conseguirmos esse contato…"
Isadora sentiu um incômodo crescente. Era como se algo estivesse se alinhando de uma forma estranha e perturbadora. A aparição de Daniel, a menção de Helena, e agora essa ligação sobre um contato misterioso para uma joalheria.
"Mariana," Isadora disse, tentando soar o mais calma possível. "Você tem certeza que fui eu? Talvez você tenha confundido com outra pessoa. Tente falar com o chefe novamente, explique a situação. Quem sabe ele se lembra de quem realmente deu a informação."
"É, talvez. Desculpa te incomodar, Izzy. Eu estou meio desesperada."
"Tudo bem, Mariana. Espero que você resolva isso."
Após desligar, Isadora ficou pensativa. Havia algo de muito estranho acontecendo. Ela se levantou e foi até a cozinha pegar um copo d'água. Enquanto esperava a água encher, seus olhos caíram sobre a pequena caixa de madeira que guardava suas joias mais preciosas. Eram poucas, mas carregavam um valor sentimental imenso. Um colar que sua avó lhe deu, um par de brincos que Daniel comprou para ela em uma viagem, e um anel com uma pequena pedra azul, um presente de aniversário que ela adorava.
Ela abriu a caixa, pegando o anel com a pedra azul. Era lindo, delicado. Ela se lembrou do dia em que Daniel o comprou. Estavam em uma pequena feira de artesanato em Paraty, e ela se encantou com a pedra. Ele insistiu em comprar para ela, dizendo que a pedra azul lembrava a cor dos olhos dela em dias de sol. Era um daqueles pequenos gestos que faziam o amor parecer tão puro e verdadeiro.
De repente, uma ideia, um pensamento quase absurdo, surgiu em sua mente. Joalheria. O contato misterioso. A campanha publicitária. E Daniel, aquele que agora parecia ter todo o sucesso do mundo, com uma esposa elegante e um futuro brilhante. Será que… seria possível?
Ela fechou os olhos, tentando afastar a especulação. Não. Não podia ser. Era loucura. Mas a possibilidade, por mais remota que fosse, a fez sentir um arrepio. Ela se lembrou do olhar de Daniel ao vê-la, um olhar que parecia carregar mais do que um simples reconhecimento.
Isadora decidiu que precisava de mais informações. Ela pegou seu notebook, abrindo o navegador. Digitou o nome da joalheria que Mariana mencionou. A página principal se abriu, mostrando fotos deslumbrantes de colares, anéis e brincos. Ela navegou pelas coleções, sentindo uma pontada de admiração pela beleza das peças.
Então, ela clicou na seção "Sobre Nós". Ali, uma foto de equipe. E entre os rostos sorridentes, um se destacou. Daniel. Ele estava no centro, com um sorriso confiante, vestindo um terno escuro. O título abaixo de sua foto dizia: "Daniel Almeida – Diretor de Marketing e Comunicação".
O ar escapou de seus pulmões. Era ele. O contato misterioso. O homem que estava no comando da campanha para uma joalheria de luxo. As peças se encaixavam de forma cruel e dolorosa. Daniel, o homem que um dia a fez acreditar em "para sempre", agora era a razão pela qual ela, inadvertidamente, poderia ter ajudado a promover o sucesso de um negócio onde ele era uma peça chave.
As cicatrizes em sua alma se reabriram com uma ferocidade renovada. A decepção, a raiva, a tristeza – tudo veio à tona com uma força avassaladora. Ela sentiu as lágrimas vindo, mas desta vez, não eram lágrimas de resignação. Eram lágrimas de fúria, de uma dor que a lembrava que, mesmo depois de cinco anos, a vida ainda tinha o poder de manipulá-la, de jogá-la de volta em um passado que ela tentava desesperadamente deixar para trás.
Isadora fechou o notebook com um baque. A noite, antes um momento de paz, agora estava impregnada da escuridão de sua própria desilusão. Ela se sentou na cama, a cabeça entre as mãos, o som da sua própria respiração ofegante preenchendo o silêncio do apartamento. A promessa quebrada de Daniel não era apenas uma memória distante; era uma sombra que ainda pairava sobre sua vida, e que, de alguma forma retorcida, parecia determinar o seu presente.