Promessas Quebradas III
Capítulo 4 — A Oferta Irrecusável de Um Passado Reescrito
por Valentina Oliveira
Capítulo 4 — A Oferta Irrecusável de Um Passado Reescrito
O som do despertador cortou o silêncio da manhã como um grito de guerra. Isadora se levantou com a sensação de que não havia dormido um minuto sequer. A noite anterior tinha sido longa e repleta de pensamentos inquietantes. Os encontros com Daniel, a presença de Helena, a ligação sobre a joalheria – tudo se misturava em um emaranhado de emoções confusas. Ela sabia que não podia mais se esconder. Precisava de respostas, ou, pelo menos, de um fechamento.
No trabalho, a tensão era palpável. O chefe, Sr. Vasconcelos, um homem de meia-idade com uma barba grisalha e um temperamento volátil, estava mais agitado do que o normal. Ele chamou Isadora em sua sala logo no início do expediente.
"Isadora, preciso falar com você sobre a campanha da joalheria 'Aurea'," ele disse, gesticulando para que ela se sentasse.
Isadora sentiu um nó no estômago. "Claro, Sr. Vasconcelos."
"Aquele contato que você disse que tinha… você tem certeza que não pode nos ajudar? A campanha deles é crucial para nós. Se perdermos esse cliente…" Ele suspirou, passando a mão pela testa. "Eu sei que você não esteve na reunião de ontem, mas a Mariana jurou que você mencionou isso."
Isadora respirou fundo. Era hora de ser direta. "Sr. Vasconcelos, eu realmente não me lembro de ter mencionado um contato para a 'Aurea Joias'. E, para ser sincera, minha conexão com a joalheria é… complicada." Ela hesitou, ponderando o quanto podia revelar. "Digamos que eu tenho um conhecimento prévio do diretor de marketing deles."
Sr. Vasconcelos a encarou, seus olhos curiosos. "Conhecimento prévio? O que isso significa?"
"Significa que o diretor de marketing da 'Aurea Joias' é alguém do meu passado. Alguém com quem eu tive um relacionamento. E esse passado… não foi fácil. Portanto, eu não me sinto confortável em mediar essa comunicação." Ela escolheu as palavras com cuidado.
O Sr. Vasconcelos ficou em silêncio por um momento, processando a informação. Um lampejo de compreensão passou por seus olhos. "Ah… entendo. Um ex-namorado, talvez?"
Isadora apenas assentiu.
"Bom, isso explica a relutância," ele disse, mais para si mesmo. "Mas, veja bem, Isadora, você é nossa melhor designer. E se esse seu ex… ainda tem algum sentimento por você, ou, sei lá, um pingo de responsabilidade, talvez ele estivesse mais aberto a ouvir você do que a Mariana ou eu."
"Sr. Vasconcelos, eu não acho que seja uma boa ideia. Tentar usar um passado pessoal para benefício profissional pode ser… arriscado."
"Arriscado, mas potencialmente muito recompensador," ele retrucou. "Pense nisso. Se você conseguir fechar esse contrato, o bônus será generoso. E talvez seja uma boa oportunidade para você ter um fechamento com esse seu ex."
Isadora se levantou, a mente girando. Um fechamento? Ou uma armadilha? A ideia de confrontar Daniel, de falar com ele depois de tantos anos, a assustava e, paradoxalmente, a atraía. A oferta era tentadora, tanto financeiramente quanto emocionalmente.
Naquela tarde, depois do trabalho, Isadora decidiu ir até a sede da "Aurea Joias". Ela precisava ver com os próprios olhos a empresa que Daniel construiu. O prédio era moderno e imponente, com uma fachada de vidro reluzente no coração do centro financeiro. A recepcionista, impecável em seu uniforme, a direcionou para o andar executivo.
Ao sair do elevador, Isadora se viu em um saguão luxuoso, com obras de arte contemporâneas nas paredes e um ar de sofisticação que a fez sentir ainda mais deslocada. Um homem em um terno impecável a abordou.
"Posso ajudá-la?"
"Sim, eu gostaria de falar com o Sr. Daniel Almeida, por favor. Meu nome é Isadora Mendes."
O recepcionista fez uma pausa, olhando-a atentamente. "O Sr. Almeida está em uma reunião. Você tem hora marcada?"
"Não. Mas é um assunto pessoal. É urgente."
Após alguns minutos de espera, o recepcionista retornou. "O Sr. Almeida pode te receber por dez minutos. Por favor, siga-me."
Isadora seguiu o homem por um corredor espaçoso até uma porta dupla imponente. Ela respirou fundo antes de entrar.
A sala de Daniel era espaçosa e elegantemente decorada, com uma vista panorâmica deslumbrante da cidade. Daniel estava sentado em sua mesa, o notebook aberto, concentrado. Ao vê-la, ele ergueu os olhos, a surpresa estampada em seu rosto. A expressão que ela havia visto na praia, e depois no jardim, retornou.
"Isadora," ele disse, a voz rouca. "O que você está fazendo aqui?"
"Eu precisava falar com você, Daniel."
Ele se levantou, caminhando em sua direção. A proximidade dele a fez sentir um frio na barriga, uma mistura de ansiedade e uma saudade reprimida. "Eu não esperava isso. Você está bem?"
"Estou sobrevivendo," ela respondeu, um leve sarcasmo em sua voz. "Mas não vim aqui para falar de mim. Vim porque meu chefe me disse que eu era a responsável por te trazer para a campanha da sua joalheria."
Daniel franziu a testa. "O que? Isso é… confuso."
"É mesmo. Parece que você me usou como contato. Ou que alguém na sua equipe me usou como desculpa."
Daniel suspirou, passando a mão pelos cabelos. "Isadora, eu não sabia que você trabalhava naquela agência. O Sr. Vasconcelos é um cliente antigo. Eu sugeri que ele pudesse nos ajudar, e ele deve ter… interpretado mal. Não foi minha intenção te envolver nisso."
"Mas você está aqui, Daniel. Liderando a campanha. E a 'Aurea Joias' é uma empresa de luxo. Um lugar onde você parece ter encontrado o seu sucesso."
Houve um momento de silêncio, onde apenas o barulho distante do trânsito preenchia o espaço.
"Eu construí isso, Isadora," ele disse, a voz firme. "Com muito trabalho. Depois que… depois que nós nos separamos, eu precisei recomeçar. E eu fiz isso."
"E a Helena?", Isadora perguntou, a pergunta escapando antes que ela pudesse contê-la.
O olhar de Daniel ficou sombrio por um instante. "Helena é minha esposa. Ela é uma pessoa maravilhosa."
"Eu percebi." A amargura em sua voz era inconfundível.
Daniel se aproximou um pouco mais. "Isadora, eu sei que o que aconteceu entre nós não foi justo. Eu cometi erros. Erros graves. Mas eu não me arrependo de tudo. Eu me arrependo da forma como acabou."
"O que você quer dizer com isso, Daniel?"
Ele a olhou nos olhos, a intensidade habitual de volta. "Eu quero dizer que talvez essa seja uma oportunidade. Para nós. Para você. A agência do Sr. Vasconcelos precisa desse contrato. E eu preciso de alguém que entenda a essência da beleza, da arte. Alguém com o seu talento." Ele fez uma pausa, como se reunisse coragem. "Eu quero te oferecer um trabalho. Diretamente com a 'Aurea Joias'. Como consultora de arte e design. Um contrato de seis meses, com um salário que você nunca imaginou. Um salário que pode te dar a estabilidade que você merece."
Isadora ficou chocada. A oferta era irrecusável. Um salário astronômico, a oportunidade de trabalhar em algo que ela amava, e, o mais intrigante, a chance de trabalhar com Daniel, de estar perto dele novamente. Mas era uma armadilha? Era uma forma dele tentar consertar o passado, ou apenas um jogo perigoso?
"Por que eu, Daniel? Por que agora?", ela perguntou, desconfiada.
"Porque você é a melhor. E porque… eu sinto sua falta, Isadora. Sinto sua falta como profissional, e, sim, como a pessoa que você é."
A confissão o pegou de surpresa. Ela sabia que ele estava mentindo sobre algo. Havia mais na oferta dele do que apenas negócios. Mas o que era?
"Eu preciso pensar, Daniel," ela disse, a voz trêmula.
"Claro. Mas pense com carinho. Esta é uma oferta que pode mudar sua vida. E, quem sabe, talvez nos permita reescrever um pouco da nossa história."
Ao sair do prédio da "Aurea Joias", Isadora se sentiu em um turbilhão. A oferta era tentadora, irrecusável. Mas a presença de Helena pairava como uma nuvem escura sobre a proposta. Ela estava sendo convidada a entrar no mundo de Daniel, mas como? Como uma colega, uma amante secreta, ou apenas uma peça em seu jogo de poder? A verdade, ela sabia, era mais complexa do que qualquer um deles estava disposto a admitir.