Amor em Silêncio II
Amor em Silêncio II
por Ana Clara Ferreira
Amor em Silêncio II
Capítulo 21 — A Correnteza da Desconfiança
O ar na mansão dos Montenegro pesava, denso com as palavras não ditas e os olhares carregados de insinuação. Ana Clara, com o coração disparado como um tambor desgovernado, sentia a teia que Ricardo tecera envolver seus pensamentos. A revelação de que ele sabia do segredo que ela guardava, daquele fantasma que assombrava suas noites, a deixara desnorteada. Como ele descobrira? E, mais importante, por quê?
Ela observava Ricardo do outro lado da sala de estar, o corpo esguio escorado na porta de vidro que dava para o jardim orvalhado. A luz do crepúsculo pintava seu rosto em tons de sombra e ouro, acentuando a mandíbula firme e o olhar penetrante que, por vezes, parecia despir sua alma. Havia uma frieza calculista em seus gestos, uma aura de controle que a intimidava e, paradoxalmente, a atraía.
“Você parece distante, Ana Clara”, a voz dele, um sussurro grave, cortou o silêncio. Ele se aproximou, o som dos seus passos ecoando suavemente no tapete persa. “Algum problema em aceitar a nossa parceria?”
Ana Clara ergueu o queixo, buscando a força que sentia esvair-se. “Parceria? Ou chantagem, Ricardo?” A pergunta escapou antes que pudesse contê-la, carregada de uma raiva contida.
Ele deu um leve sorriso, um movimento quase imperceptível dos lábios. “Palavras fortes, querida. Não acha que está exagerando um pouco?” Ele estendeu a mão, os dedos roçando a seda do vestido dela. Um toque leve, quase inocente, mas que enviou um arrepio pela espinha de Ana Clara. Ela recuou instintivamente.
“Exagerando? Você me chantageia com o meu passado, com algo que me machuca profundamente. Isso não é exagero, é manipulação.” Seus olhos encontraram os dele, e ela viu um brilho perigoso neles.
“Eu apenas estou sendo prático, Ana Clara. Você precisa de mim. E eu… eu tenho um interesse particular no seu sucesso. E na sua proteção.” A última palavra soou com uma ênfase sutil, quase ameaçadora.
“Proteção? Ou controle?” Ela sentiu as lágrimas arderem nos cantos dos olhos, mas as reprimiu com determinação. Não daria a ele o prazer de vê-la fragilizada. “Você não me conhece o suficiente para falar de proteção. Não sabe o que eu passei, o que eu sou capaz de fazer.”
Ricardo inclinou a cabeça, como um predador avaliando sua presa. “Oh, mas eu acho que sei. E talvez saiba mais do que você mesma.” Ele a cercou, os ombros roçando os dela, o perfume amadeirado dele invadindo seus sentidos. “Você é uma mulher forte, Ana Clara. Mas até as mulheres mais fortes têm seus pontos fracos. E o seu… é um segredo que poderia destruir tudo o que você construiu.”
A respiração de Ana Clara ficou suspensa. A verdade nas palavras dele era como um golpe. Era a prova de que ele sabia, de que ele entendia a fragilidade por trás de sua fachada de autoconfiança. “E por que você se importa tanto com isso, Ricardo?” a voz dela era um sussurro rouco. “Qual o seu jogo?”
Ele parou, a centímetros dela, o olhar fixo em seus lábios. “Meu jogo, Ana Clara, é complexo. E você é uma peça fundamental nele. Uma peça que eu não quero ver danificada.” Ele afastou-se lentamente, deixando-a em um turbilhão de emoções. “Pense bem na minha proposta. Amanhã, quero uma resposta. E lembre-se, o silêncio pode ser muito revelador.”
Ana Clara permaneceu imóvel por longos minutos depois que ele saiu, o eco de seus passos se perdendo pelo corredor. A correnteza da desconfiança a arrastava para águas profundas e desconhecidas. Ricardo era um enigma, um lobo disfarçado de cordeiro, e ela sentia que estava presa em sua teia de sedução e perigo.
Enquanto isso, em outra parte da cidade, em um apartamento modesto, mas acolhedor, Sofia arrumava as últimas peças de um quebra-cabeça que parecia não ter fim. Ela acariciava a foto de seu irmão, a tristeza estampada em seu rosto jovem e marcado. As lembranças do passado, fragmentadas e dolorosas, a assombravam como espectros insistentes.
“Eu preciso saber, Pedro”, ela murmurou para a foto. “Preciso entender por que você fez o que fez. E quem está por trás de tudo isso.”
Ela ligou para um contato antigo, um hacker habilidoso que devia um favor a ela. “Leo? Sofia. Preciso de uma coisa. Algo… complicado. Envolve dados de acesso restrito, movimentações financeiras de anos atrás. É urgente.”
A voz de Leo, rouca de sono, veio do outro lado. “Sofia, é madrugada. Que raios você quer agora? E como você conseguiu meu número?”
“Não importa como, Leo. O que importa é que você me deve. E essa é a sua chance de pagar. Quero rastrear um nome. Um nome que pode estar ligado a mentiras e destruição.” Sofia hesitou, o nome ecoando em sua mente, carregado de uma dualidade perturbadora. “O nome é Ricardo Montenegro.”
Um silêncio pairou na linha. “Ricardo Montenegro? Esse nome me soa familiar. Você tem certeza?”
“Tenho. Preciso saber tudo o que você puder encontrar sobre ele. Dinheiro, conexões, negócios… tudo.” Sofia sentiu um arrepio. A ideia de estar mexendo com alguém tão poderoso e perigoso a apavorava, mas a necessidade de justiça, de desvendar a verdade por trás da morte de Pedro, era mais forte.
Leo suspirou. “Ok, Sofia. Você me arranjou um problema. Mas… é por uma boa causa, certo?”
“É pela verdade, Leo. E pela memória do meu irmão.”
Enquanto as peças começavam a se mover em diferentes direções, Ana Clara se sentia cada vez mais encurralada. A oferta de Ricardo não era apenas uma oportunidade de negócios, era um convite para um jogo perigoso, cujas regras ela ainda não compreendia. E a cada passo que dava, sentia o passado se aproximando, com suas garras afiadas prontas para dilacerar seu presente. A desconfiança era uma semente plantada em seu coração, e ela sabia que, em breve, germinaria em uma floresta de incertezas.