Meu Captor, Meu Amor

Meu Captor, Meu Amor

por Isabela Santos

Meu Captor, Meu Amor

Por Isabela Santos

Capítulo 16 — O Refúgio e o Eco da Traição

O silêncio daquela casa na serra era um bálsamo para a alma de Helena. Após a tempestade que varreu o Rio de Janeiro, a fuga para o refúgio de paisagem bucólica, herdado de uma tia-avó distante, parecia o único caminho possível. Cada raio de sol que filtrava pelas janelas rústicas trazia consigo um quê de esperança, um convite para respirar fundo e, quem sabe, começar a cicatrização das feridas. Ao seu lado, a presença firme de Ricardo era um porto seguro. Ele, que sempre se mostrara um homem de ações calculadas e uma frieza que por vezes a assustava, agora revelava uma faceta de ternura e proteção que a desarmava por completo.

“Você está bem, meu amor?”, perguntou Ricardo, a voz baixa e rouca, enquanto observava Helena debruçada na sacada, o olhar perdido na vastidão verde. O aroma de café fresco pairava no ar, um contraste bem-vindo à tensão que pairava nas últimas semanas.

Helena se virou, um sorriso melancólico nos lábios. “Estou tentando, Ricardo. Cada manhã aqui é um pequeno milagre. Longe de tudo aquilo… daquele inferno.” Ela se aproximou dele, buscando o calor do abraço. A lembrança do confronto com seu pai, da revelação sombria de Daniel, ainda a assombrava como um fantasma persistente. A traição, em suas múltiplas formas, deixara cicatrizes profundas em sua confiança.

“Eu sei que não é fácil”, ele a apertou contra si. “Mas você não está sozinha. Eu estou aqui. E essa casa, por mais simples que seja, nos dará o espaço que precisamos para curar.” Ele beijou o topo de sua cabeça, sentindo a fragilidade dela, mas também a força latente que ele tanto admirava.

Naquela tarde, enquanto Ricardo cuidava de resolver algumas pendências com os advogados que agora representavam seus interesses, Helena se aventurou pela pequena propriedade. Descobriu um jardim descuidado, com roseiras antigas e ervas aromáticas que ainda guardavam o perfume de tempos passados. Sentada sob a sombra de uma mangueira frondosa, folheou um álbum de fotografias empoeirado que encontrou em um baú antigo. Eram imagens de sua tia-avó, uma mulher de sorriso doce e olhar penetrante, que sempre pareceu um enigma para a família. Havia retratos dela jovem, em bailes elegantes, ao lado de homens que ela não reconhecia. Em uma das fotos, porém, o seu coração deu um salto. Era a sua tia-avó, mais velha, sentada à mesa de um café em Paris, e ao seu lado… um jovem Ricardo.

A imagem a desnorteou. Como era possível? Ricardo nunca mencionara ter conhecido sua tia-avó. A lembrança de sua evasiva quando ela perguntara sobre seu passado, sobre sua família, agora ganhava um contorno sombrio. Uma nuvem de desconfiança começou a se formar em seu peito, um pressentimento incômodo de que havia mais segredos escondidos sob a superfície aparentemente sólida daquele homem que ela amava.

Mais tarde, Ricardo a encontrou sentada na sala, o álbum aberto em seu colo, o rosto pálido.

“O que houve, Helena?”, ele perguntou, a preocupação genuína em seus olhos.

Ela ergueu o álbum, os dedos tremendo ao apontar para a fotografia. “Quem é essa mulher, Ricardo? E por que você está com ela em Paris, em uma foto que parece ter sido tirada há anos?”

Ricardo franziu a testa, a princípio parecendo confuso, mas um lampejo de reconhecimento passou por seus olhos. Ele se aproximou, pegou o álbum e observou a imagem com atenção. Um suspiro escapou de seus lábios.

“Essa… essa é Dona Elvira”, ele disse, a voz baixa. “Sua tia-avó. Eu a conheci há muitos anos, quando eu era apenas um garoto. Ela foi muito gentil comigo em um momento difícil da minha vida. Tivemos uma amizade platônica, mas profunda. Eu nunca… nunca pensei que fosse importante mencionar.”

A explicação, embora plausível, não dissipou totalmente a apreensão de Helena. A maneira como ele se esquivara de perguntas sobre seu passado, a revelação tardia de que conhecia sua tia-avó, tudo se somava a um padrão de omissão que a incomodava.

“Você nunca mencionou, Ricardo. Por quê? Por que esconder algo tão importante? E por que eu não sabia que ela era sua amiga?” A voz de Helena carregava uma ponta de acusação, um eco da dor da traição que ainda a atormentava. Ela se sentia cada vez mais em um labirinto de verdades parciais, de segredos enterrados, e a ideia de que Ricardo também pudesse ter uma camada oculta a assustava.

Ricardo suspirou, passando a mão pelo cabelo. A serenidade que ele projetava parecia se esvair. “Helena, meu passado é… complicado. Há muitas coisas que eu preferia esquecer, e que eu também não queria que te afetassem. A nossa relação… o que construímos juntos, é o mais importante para mim. E eu temi que o meu passado pudesse lançar uma sombra sobre isso.” Ele se aproximou, tentando segurar as mãos dela, mas ela as afastou instintivamente.

“Uma sombra? Ricardo, você me manteve em cativeiro por meses! Você mentiu sobre quem era, sobre suas intenções. E agora, descobrimos que você conhecia minha tia-avó e nunca disse nada? Que tipo de amor é esse que se constrói sobre tantas omissões?” As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Helena, não apenas de tristeza, mas de uma raiva crescente. A sensação de ser enganada, mesmo que de forma sutil, era insuportável.

Ricardo a encarou, o olhar fixo nos olhos dela, uma mistura de dor e frustração estampada em seu rosto. “Helena, eu te amo. Mais do que minha própria vida. As minhas ações foram motivadas pelo desespero, pela necessidade de te proteger, de te ter perto. E sim, eu errei. Errei em te esconder certas coisas, em não confiar em você para compartilhar todo o meu fardo. Mas cada escolha que fiz foi, no fundo, para garantir o nosso futuro.”

“Nosso futuro? Que futuro, Ricardo? Um futuro onde eu descubra mais mentiras? Onde eu me sinta sempre como a última a saber de tudo sobre a pessoa que eu amo?” Ela se levantou abruptamente, o coração batendo descompassado. Aquele refúgio idílico agora parecia um cenário de mais uma armadilha. A tranquilidade que buscava parecia cada vez mais distante, ofuscada pela sombra persistente da desconfiança.

Ela caminhou até a janela, observando a paisagem serena, mas sentindo-se aprisionada em sua própria mente. A traição dos Sampaio, a mentira de Daniel, e agora, as omissões de Ricardo. Parecia que o fio da confiança se desfazia em suas mãos, deixando-a vulnerável e desamparada.

Ricardo a seguiu, parando a uma distância respeitosa. “Helena, por favor, me dê uma chance de explicar. De verdade. Sem rodeios. Tudo o que eu fiz, tudo o que eu escondi, tem uma razão. E você merece saber.” Ele a observou, esperando por uma resposta, mas Helena permaneceu de costas, absorvida em sua própria tempestade interior. O silêncio na casa da serra agora não era mais um bálsamo, mas um prenúncio de uma nova tempestade, uma tempestade que prometia abalar os alicerces de tudo o que ela pensava ter encontrado.

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