A Esposa do Magnata II

A Esposa do Magnata II

por Valentina Oliveira

A Esposa do Magnata II

Capítulo 11 — O Sussurro da Verdade na Madrugada

O sono, para Helena, tornara-se um luxo distante. Cada noite era uma batalha contra as sombras que a perseguiam, sombras tecidas com os fios da desconfiança e do medo. O apartamento luxuoso, outrora um refúgio de paz, agora ecoava com os fantasmas de suas próprias incertezas. A madrugada avançava fria e implacável, o silêncio apenas pontuado pelo ronronar distante do tráfego da cidade e pelo tic-tac insistente do relógio na sala de estar. Helena apertou o edredom de seda contra o corpo, mas o arrepio que a percorreu não era apenas pelo frio. Era a sensação latente de que algo, ou alguém, a observava.

Ela fechou os olhos com força, tentando afastar a imagem perturbadora que a assombrava desde o jantar com os Montenegro: o olhar gélido de Ricardo, a maneira como ele dissera o nome de sua falecida esposa, a frieza em suas palavras quando mencionara o passado. Não era ciúmes, Helena tentava se convencer. Era um instinto. Algo em sua alma, uma sensibilidade aguçada pela dor que já vivera, gritava que havia mais. Muito mais.

Levantou-se da cama com um gemido baixo, o corpo pesado de cansaço e preocupação. O mármore frio do piso sob seus pés descalços a fez estremecer. Caminhou até a janela da sala, a silhueta da cidade iluminada contra o céu escuro. A lua, um crescente pálido, parecia tão solitária quanto ela.

"Ricardo…" sussurrou para o vazio, o nome dele soando quase como uma prece. Onde ele estaria agora? A que horas ele voltava? As noites em que ele trabalhava até tarde eram as piores. A casa ficava imensa, o silêncio insuportável. Ela tentava se distrair com livros, filmes, mas a mente de Helena era um labirinto de perguntas sem respostas.

Ela se lembrava do começo. Do romance arrebatador, da paixão avassaladora que a fez esquecer o passado, a dor da perda de seu primeiro amor. Ricardo fora seu porto seguro, seu cavaleiro de armadura brilhante, o homem que a resgatara das ruínas de sua vida anterior. Mas agora, as rachaduras começavam a aparecer na fachada perfeita. Ou seria ela, a fragilidade em seu próprio coração, que impedia que visse a verdade?

Seus olhos pousaram em uma prateleira de livros na sala. Havia ali um álbum de fotos antigo, com a capa desgastada pelo tempo. Um presente de Ricardo, ele dissera. "Para guardarmos nossas memórias", ele dissera, com um sorriso que a fez suspirar de amor. Mas, naquele momento, a ideia de abrir aquele álbum a encheu de um receio peculiar. E se houvesse fotos dela… e de outra mulher?

Com um tremor nas mãos, Helena pegou o álbum. O peso era familiar, mas a sensação era de carregar um segredo. Sentou-se no sofá macio, a luz fraca do abajur iluminando o ambiente. O coração batia descompassado contra as costelas. Ela abriu a primeira página.

Fotos dela e de Ricardo em momentos felizes. Viagens, jantares, risadas. Eram momentos genuínos, ela sabia disso. Cada sorriso, cada abraço, era real. Ou assim ela acreditava. O medo, porém, era um parasita insidioso.

Ela folheou as páginas, a cada virada uma nova apreensão. E então, ela chegou a uma seção onde as fotos pareciam mais antigas. O cabelo de Ricardo estava diferente, mais comprido. E ao lado dele… uma mulher. Linda, com um sorriso radiante, os olhos brilhando de felicidade. Era Sofia. A esposa falecida.

Helena sentiu um nó se formar na garganta. As fotos eram de uma época em que Ricardo parecia profundamente apaixonado. Casamento, lua de mel, momentos de intimidade que ela, Helena, nunca compartilharia. Uma pontada de dor, diferente de tudo que já sentira, atravessou seu peito. Não era ciúmes, era… uma perda. Uma perda do tempo que não viveu com ele, de uma história que ele construíra antes dela.

Ela se concentrou nas fotos de Sofia. A beleza dela era inegável. E a alegria nos olhos dela, ao lado de Ricardo, era palpável. Helena sentiu uma estranha familiaridade. Havia algo no formato do rosto, no modo como ela inclinava a cabeça ao sorrir. Era como se, em algum lugar profundo de sua memória, ela conhecesse aquela mulher.

Então, em uma das últimas páginas dedicadas a Sofia, Helena viu uma foto em particular. Sofia e Ricardo estavam em uma festa, rodeados de amigos. Sofia usava um vestido azul, longo e elegante. E em seu pescoço, um colar delicado com um pingente em forma de… estrela. Um colar idêntico ao que Ricardo lhe dera no Natal.

O ar fugiu de seus pulmões. O mundo de Helena começou a girar. O pingente. Ela se lembrava perfeitamente do dia em que Ricardo lhe dera o colar. Ele dissera que era um presente especial, que a estrela representava a luz que ela trouxe para sua vida. Mas agora, vendo Sofia usando o mesmo colar…

Um arrepio percorreu sua espinha. Ela se lembrou de uma conversa com Ricardo, semanas atrás. Ele falava sobre Sofia, sobre a dor de perdê-la. E em um momento de fragilidade, ele mencionara algo sobre um "presente especial" que Sofia sempre amou. Helena havia descartado como um detalhe romântico. Agora, tudo fazia um sentido terrível.

O colar. A semelhança. O olhar assombrado de Ricardo ao falar de Sofia. Helena fechou o álbum abruptamente, as mãos tremendo incontrolavelmente. As peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar, formando uma imagem sombria e aterradora. Seria possível que Ricardo… que ele a estivesse comparando? Que ele estivesse revivendo o passado através dela?

Um soluço escapou de seus lábios, baixo e desesperado. A solidão da madrugada a engolia. Ela olhou para a porta do quarto de Ricardo, fechada e impenetrável. O homem com quem ela compartilhava sua vida, seu leito, parecia agora um estranho. Um enigma envolto em mistério.

Ela precisava de respostas. Não podia mais viver nesse limbo de incertezas. A noite, que antes parecia apenas solitária, agora se tornara um campo de batalha, e Helena sentia que estava prestes a travar a mais importante delas: a batalha pela sua própria verdade.

O vento lá fora uivou, como um prenúncio de tempestade. Helena se levantou, a determinação substituindo o medo que a paralisara. Ela sabia o que precisava fazer. Precisava vasculhar. Precisava encontrar qualquer pista, qualquer vestígio que pudesse iluminar as sombras que pairavam sobre seu relacionamento.

Caminhou de volta para o quarto, o coração acelerado. A ideia de invadir a privacidade de Ricardo a incomodava, mas o instinto de autopreservação falava mais alto. Ela precisava saber se o amor que sentia por ela era real, ou apenas um eco distorcido de um amor passado.

Abriu a porta do quarto de Ricardo com cuidado. O cheiro dele ainda pairava no ar, um aroma amadeirado e familiar. A cama estava desfeita, sinal de que ele realmente não dormira ali. Seus olhos percorreram o quarto, buscando algo. A mesa de cabeceira. O guarda-roupa.

Ela se aproximou da mesa de cabeceira. Havia alguns livros, um carregador de celular, e uma pequena caixa de madeira escura. Helena hesitou por um momento, a culpa a corroendo. Mas a necessidade de saber era mais forte.

Abriu a caixa. Dentro, havia algumas fotografias antigas e uma pequena carta dobrada. As fotos eram de Ricardo e Sofia, em momentos íntimos e felizes. Uma em particular a fez prender a respiração: Ricardo e Sofia se beijando apaixonadamente. O mesmo Ricardo que agora a beijava, que a abraçava.

Com mãos trêmulas, Helena pegou a carta. Estava endereçada a Ricardo, em uma caligrafia elegante e feminina. Era de Sofia.

"Meu amor, Ricardo," começava a carta. "Se você está lendo isso, significa que algo aconteceu. Uma parte de mim sempre temeu esse dia. Mas quero que saiba, antes de tudo, que meu amor por você é eterno. Nosso tempo juntos foi um presente de Deus, e cada momento ao seu lado foi um tesouro que guardarei para sempre em meu coração."

Helena continuou lendo, o coração apertado. A carta falava de amor, de planos para o futuro, de uma vida que nunca seria vivida. E então, no final, algo que a fez congelar.

"E quanto a essa 'nova luz' que você mencionou em nossa última conversa, a moça que você conheceu… cuide bem dela, Ricardo. Se ela é um presente do destino, como você disse, então proteja-a. E se ela se parecer comigo, talvez… talvez seja um sinal. Um sinal de que o amor pode realmente transcender o tempo e o espaço. Mas, por favor, nunca a use como um substituto. Nosso amor é único, e deve ser honrado. Não a prenda a um fantasma. Deixe-a viver sua própria história ao seu lado. E se por acaso ela carregar um colar em forma de estrela… saiba que isso também faz parte de um ciclo, de uma promessa antiga que fizemos. Uma promessa de amor eterno."

Helena largou a carta como se ela queimasse suas mãos. O colar. A promessa antiga. O ciclo. A carta de Sofia confirmava seus piores medos. Ricardo não a via apenas como Helena. Ele a via como um reflexo de Sofia. E o mais terrível era que Sofia, de alguma forma, parecia ter previsto isso.

Um choro mudo irrompeu de seu peito. Ela se sentou no chão frio, abraçando os joelhos, o corpo sacudindo com soluços contidos. A verdade era cruel. Mais cruel do que ela jamais imaginara. Ela não era a nova luz na vida de Ricardo. Era apenas uma sombra, um eco de um amor perdido.

A madrugada, antes fria, agora parecia sufocante. Helena sentiu-se completamente sozinha, presa em um labirinto de mentiras e ilusões. O homem que ela amava, o homem que a prometera um futuro, a aprisionava em um passado que não era seu. E a pergunta que ecoava em sua mente, mais dolorosa que qualquer outra, era: o que fazer agora? Como encontrar um caminho de volta para si mesma, quando tudo que a cercava era uma fantasma de um amor que não a pertencia?

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