A Esposa do Magnata II
Capítulo 12 — O Jantar Sombrio e a Sombra do Passado
por Valentina Oliveira
Capítulo 12 — O Jantar Sombrio e a Sombra do Passado
O sol da manhã, com sua habitual ousadia, tentava perfurar as pesadas cortinas da suíte presidencial. Mas para Helena, a luz parecia não ter o poder de dissipar a escuridão que se instalara em sua alma. A noite anterior fora um turbilhão de revelações dolorosas, um dilúvio de verdades que a deixaram à deriva em um mar de incertezas. A carta de Sofia, a semelhança perturbadora, o olhar distante de Ricardo… tudo pesava em seu coração como uma âncora de chumbo.
Ela se olhou no espelho, o reflexo uma imagem pálida e abatida. Os olhos, antes vibrantes de esperança, agora ostentavam olheiras profundas e um brilho de tristeza contida. Tentou um sorriso, mas os lábios tremeram, traindo a fragilidade que ela lutava para disfarçar. Como poderia encarar Ricardo hoje, sabendo o que sabia? Como poderia fingir que nada havia acontecido, que o amor que ele lhe dedicava era genuíno e direcionado a ela, Helena, e não a uma memória idealizada?
O café da manhã, servido no quarto, parecia uma afronta à sua angústia. O cheiro das frutas frescas, do pão quente, da essência do café, normalmente um prazer, agora lhe causava náuseas. Ela mal tocou na comida, cada garfada um esforço monumental. Ricardo não estava ali. Ele saíra cedo, como de costume, deixando apenas uma nota fria sobre a mesa: "Tenho uma reunião importante. Nos vemos mais tarde."
Mais tarde. A expressão soava carregada de ironia. Mais tarde, ela teria que encará-lo, com o peso de suas descobertas em seus ombros. Mais tarde, teria que decifrar os sinais em seus olhos, nas entrelinhas de suas palavras, em busca de uma verdade que parecia cada vez mais esquiva.
O dia se arrastou em uma lentidão torturante. Helena tentou se ocupar, mas sua mente voltava incessantemente para a noite anterior. Revivia cada detalhe, cada palavra, cada olhar. O colar em forma de estrela, o presente dele para ela, o mesmo que Sofia usava em uma foto antiga. A carta da falecida esposa, que falava de um ciclo, de uma promessa, de uma semelhança. Era avassalador.
Ela se pegou observando cada objeto no apartamento, procurando por indícios, por vestígios do passado que Ricardo tentava manter oculto. A galeria de arte, que antes a encantava, agora parecia um mausoléu de memórias não ditas. As obras de arte, cuidadosamente selecionadas, pareciam representar um mundo que ela não pertencia inteiramente.
No final da tarde, a ansiedade atingiu seu ápice. Uma reunião de negócios especial havia sido marcada para aquela noite. Um jantar, na verdade, com investidores importantes e os sócios da empresa de Ricardo. Ela sabia que precisaria estar presente, a "esposa do magnata", sorrindo e representando a imagem de sucesso e harmonia que Ricardo projetava. A ironia de ter que desempenhar um papel, quando sua própria vida era um palco de desilusão, a oprimia.
Ao se preparar para o jantar, Helena se sentiu como uma atriz se preparando para uma peça. Escolheu um vestido azul escuro, elegante e discreto, na esperança de não atrair muita atenção. Ao se olhar no espelho, notou que o colar que Ricardo lhe dera, o de estrela, estava ali, adornando seu pescoço. Uma pontada de dor a atingiu. Era um símbolo de amor para ele? Ou um lembrete constante de Sofia?
Quando Ricardo chegou para buscá-la, Helena sentiu o coração disparar. Ele estava impecável em seu terno escuro, o cabelo penteado com perfeição. A beleza dele, que antes a desarmava, agora a deixava apreensiva. Havia uma frieza em seus olhos que ela não notara antes, ou talvez estivesse apenas mais atenta agora.
"Pronta?", perguntou ele, com um sorriso que não alcançava os olhos.
Helena assentiu, a voz embargada. "Pronta."
O caminho até o restaurante foi silencioso. O luxo do carro, o burburinho da cidade passando pela janela, tudo parecia um cenário surreal. Ela evitava o olhar dele, concentrando-se na paisagem urbana, tentando reunir coragem para confrontá-lo. Mas as palavras se recusavam a sair. O medo de destruir o que restava, ou de se decepcionar ainda mais, a paralisava.
O restaurante era um templo de requinte e exclusividade. Velas, música suave, o aroma sofisticado de comida refinada. Ricardo a apresentou aos convidados com um profissionalismo impecável. Ela sorriu, acenou, proferiu frases banais sobre o clima e a cidade. Por fora, a esposa perfeita. Por dentro, um vulcão em erupção.
Enquanto o jantar progredia, Helena observava Ricardo. Ele era um anfitrião carismático, articulado, um mestre em seu domínio. Seus olhos percorriam a sala, fixando-se em cada convidado, transmitindo confiança e poder. Mas de vez em quando, seu olhar se desviava, pousando por um breve instante em Helena, com uma expressão indecifrável.
Ela percebeu que ele a observava, sim, mas não com o mesmo ardor de antes. Havia uma distância, uma sutileza em seu olhar que a fazia se sentir como um objeto de posse, e não como uma parceira. Foi então que ela notou algo mais. Em uma conversa com um dos investidores, o Sr. Almeida, um homem de meia-idade com um sorriso afável, Ricardo mencionou casualmente o passado.
"Sofia sempre amou este lugar", disse Ricardo, um leve sorriso melancólico nos lábios. "Fomos a muitos jantares importantes aqui. Ela tinha um talento especial para criar a atmosfera certa."
Helena sentiu o sangue gelar. Sofia. De novo. Ele parecia se deliciar em mencionar o nome dela, em evocar memórias que ela, Helena, nunca compartilharia. O Sr. Almeida, percebendo o desconforto no ar, tentou mudar de assunto, mas a semente da dúvida já fora plantada.
Mais tarde, durante uma pausa, Helena se afastou da mesa, buscando um momento de alívio. Encontrou um pequeno jardim interno, decorado com orquídeas exuberantes. Precisava de ar. Precisava de um momento para si.
Foi quando ouviu vozes. Vinham de uma varanda próxima. Ela se aproximou com cautela, o coração acelerado. Eram Ricardo e o Sr. Almeida.
"Não tenho certeza se ela é a escolha certa, Ricardo", disse o Sr. Almeida, com um tom preocupado. "Ela parece… diferente. Não tem a mesma presença de Sofia. Sofia era uma força da natureza, uma parceira à sua altura. Essa moça… ela parece tão… frágil."
Helena sentiu as pernas fraquejarem. Frágil? Ela? A mulher que havia lutado para reconstruir sua vida após a perda de seu primeiro amor? A mulher que se casara com o magnata em busca de força e estabilidade?
"Helena é diferente, Almeida", respondeu Ricardo, com uma voz tensa. "Ela tem suas próprias qualidades. E, francamente, o passado já me causou dor suficiente. Preciso seguir em frente."
"Seguir em frente, ou se esconder em uma nova embalagem?", retrucou o Sr. Almeida, a voz dura. "Sofia era uma mulher de aço, Ricardo. Você a amava por isso. Essa moça… ela é apenas um eco. Um reflexo pálido."
As palavras do Sr. Almeida atingiram Helena como um golpe físico. Um eco. Um reflexo pálido. Era exatamente o que ela temia. A confirmação de seus pesadelos mais sombrios.
"Não diga isso", disse Ricardo, a voz carregada de uma fúria contida. "Helena é quem eu escolhi. Ela é minha esposa."
"Escolheu para quê, Ricardo? Para preencher um vazio? Para reviver o que perdeu? Sofia te conhecia por completo. Ela sabia seus segredos, seus medos. Essa moça… ela sabe quem você realmente é?"
Helena não aguentou ouvir mais. Recuou lentamente, o corpo tremendo. Sentiu uma náusea avassaladora. A imagem de Ricardo, o homem que ela amava, se desfazia diante de seus olhos, substituída por um estranho egoísta, preso a um passado que o consumia.
Ela voltou para a mesa, tentando disfarçar o estado de choque. O jantar continuou, mas para Helena, tudo se tornou um borrão. As conversas, os risos, a comida, tudo parecia distante, irreal. Ela se sentia como um fantasma, observando um mundo que não lhe pertencia.
Ricardo a olhava com frequência, com uma expressão de preocupação que Helena agora interpretava como culpa. Ele sabia que ela ouvira. Ele sabia que suas palavras tinham sido ouvidas.
Ao final da noite, ao voltarem para o apartamento, o silêncio no carro era ensurdecedor. Helena se sentia esgotada, a alma em frangalhos.
"Você está bem?", perguntou Ricardo, a voz baixa, quase um sussurro.
Helena o olhou, os olhos marejados. A verdade, por mais dolorosa que fosse, precisava ser dita. "Não, Ricardo. Eu não estou bem."
Ele parou o carro em frente ao prédio, a expressão confusa. "O que aconteceu? Você ouviu alguma coisa?"
"Eu ouvi o suficiente", disse Helena, a voz firme, apesar do tremor que a dominava. "Eu ouvi você dizer que eu sou um eco. Um reflexo pálido de Sofia. Eu ouvi você admitir que não me escolheu para seguir em frente, mas para me esconder em uma nova embalagem."
Ricardo ficou em silêncio, o rosto pálido. Ele sabia que não podia negar.
"Eu não sou Sofia, Ricardo", continuou Helena, as lágrimas rolando livremente por seu rosto. "Eu sou Helena. E eu mereço um amor que seja meu, não um substituto para um amor que já se foi."
Ela abriu a porta do carro e saiu, sem olhar para trás. A porta do apartamento se fechou com um clique suave, mas para Helena, o som ecoou como um trovão. Ela estava sozinha novamente, mas desta vez, com a amarga certeza de que o amor que ela buscara era uma ilusão. Uma ilusão construída sobre as ruínas de um amor passado, e que ela, Helena, não estava mais disposta a sustentar.