A Esposa do Magnata II
Capítulo 17 — O Refúgio Criativo e a Sombra da Dúvida
por Valentina Oliveira
Capítulo 17 — O Refúgio Criativo e a Sombra da Dúvida
O cheiro de tinta a óleo e tela recém-preparada invadia as narinas de Clara, um aroma que, em outra vida, ela associava à paz e à inspiração. Agora, em sua nova rotina na galeria de Helena, o cheiro parecia carregar um peso diferente, um lembrete constante do que ela havia perdido e do que precisava reconstruir. A galeria, um espaço amplo e luminoso no coração de Mayfair, era um oásis de beleza e sofisticação, um refúgio que Helena havia habilmente construído com seu talento e determinação.
“E aí, Clara? Consegue sentir a magia?”, Helena perguntou, com um brilho nos olhos enquanto arrumava um vaso com lírios brancos em uma mesa de centro de mármore polido. A galeria estava se preparando para uma nova exposição, e a energia nos bastidores era palpável.
Clara sorriu, um sorriso mais genuíno do que os que ela vinha oferecendo ultimamente. “Consigo, Helena. É… é um lugar incrível.” Ela passou os dedos suavemente por uma tela abstrata, suas cores vibrantes explodindo em um turbilhão de emoções. “Você realmente tem um dom para isso.”
“E você também”, Helena respondeu, com uma seriedade que desarmou Clara. “Você tem um olhar apurado, Clara. Sabe identificar o que emociona, o que cativa. Lembra daquela peça que você escolheu para a exposição de artistas emergentes? Foi um sucesso estrondoso. Você tem talento para curadoria, sabia?”
Clara sentiu um leve rubor subir por suas bochechas. Ela havia se esquecido de que, antes de ser a “esposa do magnata”, ela era uma mulher com paixões e aptidões próprias. A curadoria de arte, um campo que sempre a fascinou, havia ficado adormecido sob as camadas de luxo e drama de sua vida anterior.
“Eu… eu não penso nisso há muito tempo”, Clara admitiu, desviando o olhar para a janela, onde a chuva fina e persistente caía sobre a cidade. A sombra da dúvida pairava, pesada e fria. Seria mesmo capaz de recomeçar? De encontrar seu lugar em um mundo tão diferente, sem o amparo financeiro e a segurança que Rodrigo, ironicamente, havia lhe proporcionado?
“Mas o talento não desaparece, Clara”, Helena insistiu, aproximando-se dela. “Ele apenas espera o momento certo para aflorar novamente. E eu acho que esse momento é agora. Pense nisso. Você pode me ajudar a organizar a próxima exposição. Você pode usar sua inteligência, seu bom gosto. E, quem sabe, descobrir um novo caminho para si mesma.”
A proposta de Helena era tentadora. Clara sentia uma necessidade profunda de se sentir útil, de contribuir, de se reconectar com uma parte de si que parecia ter se perdido. A galeria oferecia um ambiente protegido, longe dos holofotes e das lembranças dolorosas. E, acima de tudo, lhe daria algo para se concentrar, algo que não fosse o medo constante de ser descoberta.
Enquanto conversavam, a porta da galeria se abriu com um tilintar suave, anunciando a chegada de um cliente. Um homem alto, com ombros largos e um porte que exalava confiança, entrou no espaço, sacudindo a água da chuva do seu sobretudo escuro. Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele porte, aquele movimento… por um instante fugaz, ela pensou ter visto Rodrigo.
Seu coração disparou, e o ar pareceu rarear em seus pulmões. Ela se virou instintivamente, pronta para se esconder atrás de uma das esculturas imponentes. Mas, ao ver o rosto do homem, a tensão se dissipou, substituída por uma leve confusão. Ele não era Rodrigo. Era um estranho. Um estranho de olhos azuis penetrantes e um sorriso cativante, que parecia familiar de alguma forma, mas que ela não conseguia situar.
“Helena, querida!”, o homem exclamou, com um sotaque britânico levemente melodioso. “Espero não estar atrapalhando. Vim ver se já tem alguma novidade daquele artista que você me falou.”
Helena sorriu calorosamente. “Arthur! Que surpresa agradável. E nunca atrapalha. Sempre um prazer te receber. Esta é Clara, uma amiga que está me dando uma força. Clara, este é Arthur Pendelton, um dos nossos colecionadores mais fiéis e, posso dizer, um dos homens mais charmosos de Londres.”
Arthur Pendelton. O nome soou em sua mente, e de repente, as peças se encaixaram. Arthur Pendelton, o renomado advogado de negócios, conhecido por sua discrição e por lidar com casos de alto perfil. Um homem que, em certo ponto, havia representado a empresa de Rodrigo em algumas negociações. Ela o havia visto em fotos de jornais, em eventos sociais. Ele era um dos homens do círculo de Rodrigo, mas de uma forma mais discreta, mais nos bastidores.
Ele se virou para Clara, seus olhos azuis encontrando os dela. Um leve brilho de reconhecimento passou por seu olhar, como se ele a visse pela primeira vez, mas sentisse que já a conhecia. “É um prazer, Clara. Helena fala maravilhas de você.”
Clara sentiu um nó na garganta. Aquele encontro inesperado a desestabilizou profundamente. Arthur Pendelton, apesar de não ser Rodrigo, representava um elo com seu passado, com o mundo que ela havia tentado deixar para trás. O medo, que ela pensara ter domado, voltou a sussurrar em seu ouvido. Será que ela estava realmente segura? Será que Rodrigo não tinha informantes em todos os cantos?
“O prazer é meu, senhor Pendelton”, ela respondeu, tentando manter a voz firme. Ela notou que ele a observava com uma curiosidade gentil, sem a intensidade calculista que ela tanto temia em Rodrigo.
Helena, percebendo a leve tensão de Clara, interveio rapidamente. “Arthur, venha. Deixe-me mostrar as últimas aquisições. Clara, você pode me ajudar com as etiquetas dos novos quadros?”
“Claro, Helena”, Clara respondeu, aliviada com a distração.
Enquanto Helena e Arthur se afastavam, Clara se permitiu respirar. A presença de Arthur Pendelton, embora perturbadora, também a fez perceber algo importante: ela não estava sozinha naquele mundo. Tinha Helena, tinha a galeria, e agora, talvez, um contato inesperado que poderia, quem sabe, ser uma ponte para um futuro mais seguro. Mas a dúvida persistia, um grão de areia em seu sapato, lembrando-a constantemente da fragilidade de sua nova vida. A sombra do passado, mesmo disfarçada de um rosto amigável, era uma presença constante, um lembrete de que a paz era um luxo que ela ainda precisava conquistar.