A Esposa do Magnata II
Capítulo 18 — O Jogo de Sombras e o Preço da Verdade
por Valentina Oliveira
Capítulo 18 — O Jogo de Sombras e o Preço da Verdade
A chuva em Londres parecia ter uma qualidade melancólica que espelhava a alma de Clara. Noites de insônia se tornavam a norma, pontuadas por pesadelos vívidos onde os olhos frios de Rodrigo a fitavam de todos os cantos. A galeria de Helena, antes um refúgio, agora se tornava um palco de um jogo de sombras e de um medo crescente. Arthur Pendelton, o advogado de negócios que um dia cruzara o caminho de Rodrigo, tornara-se uma presença frequente.
Ele vinha à galeria com uma frequência incomum, sempre buscando o conselho de Helena, mas seus olhos frequentemente buscavam Clara. Havia uma gentileza em seu olhar, uma curiosidade quase acadêmica, mas Clara não conseguia se livrar da sensação de estar sendo observada, analisada. Seria apenas sua paranoia aguçada pela experiência traumática, ou haveria algo mais?
“Ele parece realmente interessado no seu trabalho, Clara”, Helena comentou um dia, enquanto observavam Arthur admirar uma escultura de bronze. “Você deveria conversar mais com ele. Ele é um homem influente, e sabe de muita coisa sobre o mundo dos negócios. Talvez ele possa te dar alguma orientação.”
Clara balançou a cabeça, a ansiedade crescendo em seu peito. “Eu não sei, Helena. Sinto que ele sabe quem eu sou. Ou melhor, quem eu fui. A forma como ele me olha… é como se ele estivesse tentando decifrar um enigma.”
“E você é um enigma para ele, Clara. Uma mulher que surgiu do nada, casada com um dos homens mais poderosos do Brasil, e agora desapareceu com o filho. É natural que ele sinta curiosidade.” Helena suspirou, seus olhos pousando em Clara com uma preocupação genuína. “Mas você precisa ter cuidado. Não se deixe levar pela sua imaginação. Arthur é um bom homem, mas ele também é um homem de negócios. E no mundo de Rodrigo, a linha entre amigo e inimigo é muito tênue.”
Naquela tarde, Arthur aproximou-se de Clara enquanto ela organizava alguns cartões de visita. Ele segurava uma taça de vinho tinto, o líquido escuro reluzindo sob a luz suave da galeria.
“Clara”, ele começou, sua voz um murmúrio baixo e seguro. “Posso ser um pouco… direto?”
Clara sentiu seu estômago revirar. “Depende do quê, senhor Pendelton.”
Ele sorriu levemente, um sorriso que não chegava aos olhos. “Rodrigo te procura?”
A pergunta pairou no ar, carregada de um peso invisível. Clara ficou paralisada por um momento, seu coração martelando contra as costelas. Ela o encarou, tentando decifrar a expressão em seu rosto. Não havia hostilidade, nem julgamento, apenas uma calma calculista.
“Por que você pergunta isso, senhor Pendelton?”, ela conseguiu responder, sua voz embargada.
“Porque sei como Rodrigo opera. Ele não deixa pontas soltas. E você, Clara, é uma ponta solta que o incomoda.” Arthur deu um pequeno gole em seu vinho. “Ele está com raiva. Não apenas por você ter partido, mas pela forma como você o fez. Ele se sente humilhado. E a humilhação, para Rodrigo, é algo que ele não tolera.”
O medo que Clara sentia se transformou em uma onda de adrenalina. As palavras de Arthur confirmavam seus piores receios. Rodrigo não desistiria. Ele a caçaria, implacavelmente.
“Eu… eu não sei do que você está falando”, Clara mentiu, sua voz tremendo levemente.
Arthur a observou por um momento, seus olhos azuis penetrantes parecendo ver através de sua fachada. “Clara, eu não sou seu inimigo. Mas também não sou seu aliado cego. Rodrigo é meu cliente há muitos anos. Eu admiro a inteligência dele, sua capacidade de construir impérios. Mas também conheço a crueldade que se esconde por trás daquele verniz de sucesso.” Ele fez uma pausa, como se pesasse cada palavra. “Ele enviou pessoas para te procurar. Não apenas no Brasil. Aqui em Londres também.”
Aquilo foi o golpe final. A terra sob seus pés pareceu ceder. Ela estava em perigo. Um perigo real e iminente.
“Ele… ele quer o Léo?”, Clara perguntou, a voz embargada pela emoção. A ideia de perder seu filho era algo que ela não conseguia sequer conceber.
Arthur hesitou por um instante, e essa hesitação foi mais reveladora do que qualquer palavra. “Ele quer controle, Clara. E Léo é a chave para isso. Ele teme que você fuja para sempre, que o prive de ter um herdeiro legítimo. Ele não pode permitir isso.”
Lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Clara. O refúgio que ela buscava em Londres, a esperança de um recomeço seguro, tudo parecia desmoronar. Arthur, com sua franqueza brutal, a havia jogado de volta na realidade.
“O que eu faço, Arthur?”, Clara implorou, a voz embargada. “Eu não posso perdê-lo. Léo é tudo para mim.”
Arthur colocou a taça de vinho na mesa. Ele se aproximou dela, seu olhar suavizando um pouco. “Eu não posso te ajudar diretamente, Clara. Meu código profissional me impede. Mas posso te dar um conselho. Rodrigo joga um jogo de poder. Ele usa a informação como arma. Se você quer se proteger, precisa jogar o jogo dele.”
“Como?”, Clara perguntou, desesperada.
“Entenda o que ele quer. Entenda suas fraquezas. E, acima de tudo, não deixe que ele te desestabilize. Ele se alimenta do seu medo. Se você mostrar força, se você for imprevisível, ele terá mais dificuldade em te alcançar.” Arthur deu um passo para trás, sua expressão voltando a ser mais reservada. “Há informações que Rodrigo não quer que venham à tona. Informações que poderiam abalar seu império. Se você puder usar isso a seu favor…”
Clara o encarou, a mente girando. Informações que Rodrigo não queria que viessem à tona? O que ele quis dizer com isso? Ela lembrou-se de uma conversa que ouvira entre Rodrigo e seu advogado, algo sobre uma antiga dívida, um negócio obscuro que ele tentava manter enterrado. Seria isso?
“Eu… eu preciso pensar”, Clara murmurou, ainda em choque.
“Pense rápido, Clara”, Arthur disse, sua voz voltando a ter aquele tom de alerta. “O tempo está correndo. E Rodrigo não é um homem paciente.” Ele se virou e caminhou em direção à saída, deixando Clara sozinha em meio à vastidão da galeria, com o peso da verdade e a sombra da dúvida pairando sobre ela como um sudário. O jogo de sombras havia começado, e Clara sabia que precisaria de toda a sua coragem e inteligência para sobreviver a ele.