A Esposa Rebelde II

A Esposa Rebelde II

por Isabela Santos

A Esposa Rebelde II

Por Isabela Santos

Capítulo 21 — A Sombra do Passado em São Paulo

A brisa fria de São Paulo, um contraponto à habitual umidade carioca, parecia trazer consigo um ar de melancolia, de decisões que pairavam no ar como névoa. Helena apertou o casaco em volta de si, sentindo os olhso de Leonardo fixos em sua nuca. Ele a observava com uma intensidade que a desarmava, uma mistura de preocupação e anseio que, ela admitia a si mesma, ainda mexia com ela.

Haviam se passado seis meses desde que ela deixara o Rio, seis meses de um silêncio calculado, de uma distância que se tornara um abismo. A vida em São Paulo, com a agitação vertiginosa e o anonimato que a metrópole oferecia, fora um bálsamo temporário. Ela se dedicara ao trabalho na galeria de arte, encontrando refúgio na beleza das telas e na frenesi das exposições. Mas a sombra de Leonardo, ou melhor, a ausência dele, era uma presença constante.

"Você parece distante hoje, Helena", a voz de Leonardo, baixa e rouca, quebrou o silêncio que se instalara entre eles no carro. Ele dirigia com a habilidade que ela conhecia bem, os dedos firmes no volante.

Helena desviou o olhar para a janela, observando os arranha-céus que riscavam o céu cinzento. "Só estou pensando, Leo. Muita coisa na cabeça." Era uma resposta evasiva, mas a melhor que conseguia oferecer naquele momento.

Ele suspirou, um som quase inaudível. "Você ainda não me contou tudo sobre a sua partida. O que aconteceu naquela noite?"

A pergunta pairou no ar, pesada e carregada de anos de mal-entendidos. Helena fechou os olhos por um instante, revivendo a noite em que tudo desmoronou. A discussão acalorada, as palavras duras ditas no calor do momento, a sensação de que ele não a entendia, ou pior, não queria entender. A humilhação de se sentir refém de um acordo que ela não via mais sentido em cumprir.

"Não há mais nada a ser dito, Leonardo. Eu precisava de ar. Precisava de mim mesma." A voz dela saiu mais firme do que esperava.

Leonardo estacionou o carro em frente ao prédio imponente onde ficava a sede da construtora dele. O silêncio voltou a reinar, agora ainda mais denso, carregado de tudo o que não era dito.

"Você sabe que eu não concordo com isso, Helena. Você sabe que… que eu sinto sua falta." A confissão saiu em um sussurro, quase um pedido de desculpas.

Helena desceu do carro, o coração disparado. Aquele era o motivo daquela reunião inesperada em São Paulo. Leonardo a convocara, alegando "assuntos urgentes da empresa", mas ambos sabiam que a urgência era outra. Era a urgência de resolver um passado que insistia em se manifestar.

Ao entrarem no hall luxuoso, os olhares curiosos dos funcionários os acompanharam. Helena se sentia desconfortável com a atenção, com a percepção de que o mundo os via como um casal, apesar de tudo.

"Vamos para a minha sala", disse Leonardo, a voz recuperando a firmeza profissional. "Temos muita coisa para discutir."

A sala de Leonardo era um espelho de seu sucesso: ampla, com janelas que ofereciam uma vista panorâmica da cidade, e decorada com um bom gosto sóbrio. A mesa de mogno, impecavelmente organizada, contrastava com a desordem que parecia reinar em suas vidas.

Ele se sentou na cadeira giratória, gesticulando para que Helena ocupasse a poltrona à sua frente. A formalidade era uma armadura que ele usava com maestria.

"Recebi uma proposta para um grande empreendimento no Rio", começou ele, pegando uma pasta que estava sobre a mesa. "Uma parceria com a empresa do seu pai."

Helena arqueou uma sobrancelha. A empresa do pai, a antiga fortaleza familiar que ela havia deixado para trás. "E o que isso tem a ver comigo?"

"Tem tudo a ver com você, Helena. O acordo inicial entre nossas famílias envolvia essa união. Se você está aqui, é porque você ainda é uma parte importante desse acordo."

A frieza na voz dele a atingiu como um golpe. Era assim que ele a via? Como uma peça em um tabuleiro de negócios? A antiga mágoa borbulhou em seu peito.

"Você está dizendo que eu voltei para o Rio para assinar um contrato?", ela perguntou, a voz carregada de sarcasmo.

Leonardo suspirou, passando a mão pelos cabelos. "Não é só isso, Helena. Você sabe que não é. O projeto é grande, estratégico. O envolvimento da sua família é fundamental para a nossa credibilidade no mercado carioca. E… eu precisava de você perto."

A última frase saiu quase como um tropeço, uma confissão involuntária que quebrou a fachada de frieza. Helena o encarou, seus olhos buscando a verdade por trás das palavras.

"Precisava de mim perto?", ela repetiu, o coração batendo mais forte. "Ou precisava me controlar? Me ter sob seu domínio de novo?"

Ele se levantou, caminhando até a janela. A silhueta dele contra a luz da cidade era a de um homem que carregava o peso de um império.

"Eu não quero te controlar, Helena. Eu te amo. Amo você mais do que a qualquer coisa nesse mundo. E a sua ausência me consumiu." A voz dele era baixa, embargada. "Eu cometi erros. Fui orgulhoso, te pressionei demais. Eu sei disso. Mas eu nunca quis te machucar."

Helena sentiu as lágrimas brotarem, mas as segurou com determinação. Não podia ceder agora. Precisava entender as verdadeiras intenções dele.

"Você me machucou, Leonardo. Você me fez sentir como uma posse, como um objeto que podia ser negociado. Eu não sou assim."

"Eu sei que não é", ele respondeu, voltando-se para ela. Havia uma vulnerabilidade em seus olhos que ela não via há muito tempo. "Eu aprendi isso da maneira mais difícil. Mas eu ainda acredito que podemos reconstruir algo. Juntos."

Ele se aproximou dela, a distância entre eles diminuindo a cada passo. O aroma amadeirado de seu perfume, um cheiro que ela conhecia tão bem, a envolveu. Ela podia sentir o calor que emanava dele.

"Eu sei que você não confia em mim agora", ele continuou, a voz um sussurro rouco perto de seu ouvido. "Mas me dê uma chance, Helena. Uma chance para provar que eu mudei. Uma chance para consertar o que quebramos."

Ele estendeu a mão, os dedos roçando levemente o rosto dela. Helena sentiu um arrepio percorrer seu corpo. O toque dele era elétrico, familiar, perigoso.

"O que você quer, Leonardo?", ela perguntou, a voz trêmula. "Você quer que eu volte para o Rio e finja que nada aconteceu? Que volte para aquela casa, para aquela vida?"

"Eu quero você de volta", ele disse, olhando-a nos olhos. "Com você, eu sou um homem melhor. Com você, a minha vida faz sentido. Eu não quero fazer esse empreendimento sem você. Não quero construir nada sem você ao meu lado."

Ele segurou o rosto dela entre as mãos, o olhar fixo no dela. "Eu te amo, Helena. Mais do que a minha própria vida. Diga-me o que você quer. Diga-me como posso te reconquistar."

Helena olhou para ele, para o homem que um dia fora o centro do seu universo, e sentiu a resistência que construíra com tanto esforço começar a desmoronar. A paixão antiga, a chama que ela acreditava ter apagado, reacendia-se em seu peito. Mas o medo, o medo de se entregar novamente e ser quebrada, ainda a assombrava. A sombra do passado pairava sobre eles, pesada e ameaçadora, mas, pela primeira vez em muito tempo, a luz de uma nova possibilidade parecia iluminar o caminho.

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