A Esposa Rebelde II
Capítulo 22 — A Proposta Irrecusável e o Dilema de Helena
por Isabela Santos
Capítulo 22 — A Proposta Irrecusável e o Dilema de Helena
A sala de Leonardo, antes um espaço de tensão e conflito, agora parecia carregada de uma eletricidade diferente, uma promessa de reconciliação que pairava no ar como perfume. Helena sentia o coração martelar no peito, uma mistura vertiginosa de esperança e receio. As mãos de Leonardo, firmes em seu rosto, transmitiam uma ternura há muito esquecida, um afeto que despertava nela emoções adormecidas.
"Eu não sei se posso, Leo", sussurrou ela, a voz embargada pela emoção. As palavras dele, "Eu te amo", ecoavam em sua mente, um bálsamo e ao mesmo tempo um veneno. Ela havia se preparado para essa conversa, imaginado cenários, construído escudos. Mas nada a preparara para a intensidade do momento, para a forma como ele a olhava, como se ela fosse o único ponto de luz em seu mundo.
Leonardo apertou levemente o rosto dela, os polegares acariciando suas maçãs do rosto. "Por quê, Helena? Por que você não pode? Me diga o que te impede. Eu preciso saber." Seus olhos castanhos, tão profundos quanto o oceano, buscavam os dela, implorando por uma resposta, por uma brecha em suas defesas.
"Você não entende", Helena respondeu, afastando-se sutilmente, apenas o suficiente para recuperar um pouco do seu espaço. Ela se sentou novamente na poltrona, o corpo tenso, as mãos entrelaçadas no colo. "Você me machucou profundamente. Você me fez sentir… pequena. Como se o meu valor estivesse atrelado a acordos e convenções que eu não escolhi."
"Eu sei", Leonardo disse, sua voz grave e cheia de remorso. Ele se aproximou, parando a uma distância respeitosa, mas ainda assim íntima. "Eu fui um idiota, Helena. Um arrogante. Eu achava que sabia o que era melhor para nós, mas estava cego. Cego pelo orgulho, pela necessidade de controlar tudo. Mas você me mostrou o meu erro. A sua ausência me fez ver o quanto eu te amo, o quanto a minha vida é vazia sem você."
Ele pegou a pasta novamente, abrindo-a sobre a mesa de mogno. Os olhos dele, que momentos antes transbordavam emoção, agora adquiriam um brilho pragmático, o do empresário calculista. Mas havia algo diferente, uma hesitação que não estava ali antes.
"Este projeto, Helena… ele é o maior empreendimento que a minha construtora já considerou. A parceria com a família Mattos é crucial. O nome do seu pai, a história dele no mercado carioca, é um selo de garantia que nós não temos em São Paulo. Mas, para que isso aconteça, precisamos de mais do que apenas a aprovação formal. Precisamos da sua aprovação. Da sua participação."
Helena o encarou, o coração apertando. Era o que ela temia. A proposta de negócios como um pretexto para a reconciliação. "Você está me oferecendo um acordo, Leonardo? Um retorno para o Rio em troca da minha assinatura?"
Leonardo balançou a cabeça veementemente. "Não! De forma alguma. Você sabe que não é isso. Eu preciso do seu apoio, sim, mas não como um mero formalismo. Eu preciso da sua visão, Helena. Você tem um faro para arte e design que eu admiro imensamente. A arquitetura desse empreendimento, a identidade visual… eu quero que você esteja envolvida nisso. Como parceira, como consultora de estilo. Quero que a sua marca, o seu nome, esteja associado a isso."
Ele tirou um projeto arquitetônico da pasta, um conjunto de plantas e maquetes digitais que brilhavam na tela do computador. "Será um complexo residencial e comercial de luxo na Zona Sul do Rio. Um marco. Algo que vai redefinir a paisagem urbana. E eu quero que você me ajude a criar a alma desse lugar."
Helena observou as imagens, a beleza futurista do projeto, a forma como ele se integrava à paisagem carioca. Era, sem dúvida, um trabalho de tirar o fôlego. A oportunidade de aplicar seus conhecimentos, de deixar a sua marca em algo tão grandioso, era tentadora.
"E se eu disser que não me interesso por negócios, Leonardo?", ela perguntou, a voz firme, mas com um toque de vulnerabilidade.
"Eu não estou te pedindo para desistir da sua vida em São Paulo", ele respondeu, aproximando-se novamente. "Estou te oferecendo a chance de voltar para casa, para o lugar onde você cresceu, onde a sua família está. E, ao mesmo tempo, te ofereço uma oportunidade profissional que você não encontra em qualquer lugar. Uma chance de trabalhar ao meu lado, em algo que eu sei que você vai amar. E, talvez, uma chance para nós… para nós tentarmos de novo."
A palavra "tentarmos" pairou no ar, carregada de significado. Helena sentiu um nó na garganta. Ela sabia que Leonardo era um homem de palavra. Se ele estava fazendo aquela proposta, era porque realmente acreditava nela. Mas o medo de se decepcionar novamente era paralisante.
"E quanto à minha vida aqui em São Paulo?", ela questionou. "Eu construí algo aqui. Tenho o meu trabalho, os meus amigos."
"Eu entendo", Leonardo disse, a voz suave. "E eu jamais pediria para você abandonar tudo. Mas talvez seja possível encontrar um equilíbrio. Você pode continuar com a sua galeria, com os seus projetos em São Paulo, e vir ao Rio com frequência para supervisionar o desenvolvimento do empreendimento. Nós podemos… nós podemos nos adaptar."
Ele fez uma pausa, seus olhos buscando os dela. "Helena, eu não quero te pressionar. Mas este projeto… ele é a minha chance de provar para mim mesmo, e para você, que eu posso ser o homem que você merece. Que eu posso construir um futuro com você, um futuro sólido e promissor. Por favor, me diga o que você precisa para confiar em mim novamente."
Helena permaneceu em silêncio, a mente em turbilhão. A proposta de Leonardo era tentadora em muitos níveis. O projeto era fascinante, a chance de trabalhar com ele novamente era… perturbadora. Ela sentia a atração, a conexão profunda que sempre existiu entre eles, mas a dor do passado era uma cicatriz que demoraria a sarar.
"Eu preciso pensar, Leonardo", ela finalmente disse, a voz baixa. "É muita coisa para absorver."
Leonardo assentiu, compreensivo. "Claro. Eu entendo. Tentei apresentar o projeto da melhor forma possível, mas a decisão é sua. Eu estarei aqui. Em São Paulo. Ou no Rio. Onde você quiser. Mas, por favor, Helena… não me diga não sem antes considerar todas as possibilidades."
Ele estendeu a mão para ela, não para tocá-la, mas como um gesto de convite. "Vamos jantar hoje à noite? Podemos falar sobre o projeto, sobre… sobre nós. Sem compromisso. Apenas uma conversa."
Helena olhou para a mão estendida, para o homem que a amava e a machucara na mesma medida. A decisão era complexa, pesada. Era uma encruzilhada em seu caminho, onde o passado e o futuro se encontravam, e onde a sombra de um amor antigo lutava contra a promessa de um novo começo. Ela sabia que, qualquer que fosse a sua escolha, ela mudaria o curso de sua vida para sempre. A proposta de Leonardo era irrecusável em sua grandiosidade, mas o dilema em seu coração era igualmente monumental.