Entre Sombras II
Capítulo 8 — O Jogo de Espelhos em Nova York
por Valentina Oliveira
Capítulo 8 — O Jogo de Espelhos em Nova York
Enquanto Isabella em São Paulo tecia sua teia de vingança, Leonardo Bastos se movia nas sombras de Nova York. O caos do incêndio, a fuga apressada, tudo se resumia agora a um plano desesperado para se salvar. Ele havia previsto a destruição, mas não a velocidade com que as consequências o alcançariam. Sabia que Isabella, com sua pureza e seu senso de justiça, seria a maior ameaça.
Ele se instalou em um luxuoso apartamento alugado em Manhattan, sob um nome falso, cada passo calculado para evitar ser rastreado. A cidade, com sua vastidão e anonimato, oferecia o esconderijo perfeito. Mas a solidão era um fardo pesado. A culpa o corroía, misturada ao medo. Ele tinha perdido Isabella, a única luz que havia iluminado a escuridão de sua vida. E agora, ele a havia afastado ainda mais, forçado a se tornar o monstro que ela temia.
Leonardo observava as notícias do Brasil através de seu laptop, cada reportagem sobre o incêndio e a busca por ele, um lembrete constante de sua queda. Ele via a determinação no rosto de Isabella nas poucas aparições públicas que ela fez, e sentia uma mistura de orgulho e desespero. Ela era forte. Mais forte do que ele jamais imaginara.
Uma noite, enquanto o céu de Nova York se tingia de tons alaranjados e roxos, Leonardo recebeu uma ligação de um número desconhecido.
“Bastante show de fogos de artifício, não é, Leonardo?”, a voz do outro lado era fria e calculista. Era Carlos Eduardo Montenegro, seu antigo sócio e agora seu maior rival.
Leonardo sentiu um calafrio. “O que você quer, Montenegro?”
“Apenas verificar se você está bem. Ouvi dizer que você anda tendo alguns… problemas. Parece que a casa pegou fogo.”
A ironia na voz de Montenegro era insuportável. “Você sabe que fui eu quem causou o incêndio, não é?”
“Ora, Leonardo, você me subestima. Eu não preciso de fogo para destruir um homem. Mas confesso que fiquei impressionado com a sua audácia. Você se livrou de todas as provas? Que esperto.”
“Eu não quero problemas com você, Montenegro.”
“Ah, mas você já está em problemas, meu caro. Você acha que pode fugir de mim? Você acha que pode simplesmente desaparecer com o que é meu?”
“O que é seu? Tudo isso é resultado do meu trabalho! Do meu suor!” Leonardo rosnou, a raiva borbulhando em seu peito.
“Seu trabalho? Você acha mesmo? Você construiu tudo em cima das minhas ideias, das minhas oportunidades. E agora, você pensa em desaparecer com uma parte daquele dinheiro que você deveria ter me dado? Aquele dinheiro que estava guardado no depósito?”
O coração de Leonardo gelou. Montenegro sabia. Sabia sobre o dinheiro. O dinheiro que ele havia separado para desaparecer, para recomeçar longe de tudo.
“Eu não tenho nada seu”, Leonardo mentiu, a voz tremendo.
“Não me faça rir, Leonardo. Eu sei que você retirou o dinheiro. Eu sei que você o escondeu. E eu quero de volta. Agora.”
“Você não pode fazer nada contra mim.”
“Ah, mas eu posso. Você sabe que eu tenho contatos. Eu sei onde você está. E eu não sou tão paciente quanto você. Eu tenho uma oferta para você. Me entregue o dinheiro, e eu te deixo em paz. Ou… você pode tentar fugir de novo. Mas desta vez, não haverá para onde correr.”
Leonardo fechou os olhos, a voz de Montenegro ecoando em sua mente. Ele estava encurralado. O homem que ele havia traído estava agora o caçando. Ele se lembrou do aviso que deu a Isabella. O perigo era real.
“E se eu não quiser te dar nada?”, Leonardo perguntou, desafiador.
“Então… teremos que ter uma conversa mais longa. E você pode descobrir que a morte é um alívio comparada ao que posso fazer com você. Pense bem, Leonardo. Você tem 24 horas. Depois disso, as regras mudam.” A ligação foi encerrada.
Leonardo jogou o telefone na parede, o aparelho se estraçalhando em pedaços. Ele estava em um jogo de espelhos, onde cada reflexo revelava um perigo maior. Ele havia fugido de seu passado no Brasil, apenas para encontrar seu pior pesadelo em Nova York.
O dinheiro. Ele precisava do dinheiro. Era sua única chance de sobreviver. Mas onde ele o havia escondido? A paranoia começou a se instalar. Ele revirava as memórias, tentando se lembrar do local exato. Ele havia sido tão descuidado?
Ele se lembrou de uma caixa de segurança em uma agência bancária no centro de Nova York. Ele havia a aberto sob um nome falso, é claro. Era a única esperança.
Leonardo se vestiu, pegou um chapéu e óculos escuros, tentando se misturar à multidão. Ele sabia que Montenegro estaria observando. Cada passo na rua era um risco. Ele sentia olhares sobre si, a paranoia o consumindo.
Ao chegar à agência bancária, ele sentiu um arrepio. Dois homens, vestidos de terno escuro, estavam parados do lado de fora, olhando para a entrada com uma frieza calculista. Eram capangas de Montenegro.
Leonardo recuou. Ele não podia entrar ali. A caixa de segurança era uma armadilha.
Ele se virou, tentando manter a calma, e se misturou à multidão. Caminhou rapidamente, virando em becos e ruas secundárias, o coração batendo descontroladamente. Ele estava sendo caçado.
Ele se refugiou em um café, pedindo um café forte, tentando organizar seus pensamentos. Ele precisava de um plano. Ele não podia simplesmente entregar o dinheiro. Era tudo o que lhe restava.
De repente, seu celular vibrou. Era uma mensagem de texto de um número desconhecido.
“Você acha que pode se esconder de mim, Leonardo?”
O sangue de Leonardo gelou. Montenegro o estava rastreando. Ele estava jogando com ele.
Ele pegou uma caneta e um guardanapo. Precisava de um lugar seguro, um lugar onde Montenegro não o encontrasse. Ele pensou em Isabella. A imagem dela, forte e determinada, o fez sentir uma pontada de dor e um desejo de redenção.
Ele não podia mais fugir. Ele precisava enfrentar Montenegro. Mas como? Ele estava sozinho, sem recursos, e sendo caçado.
Ele olhou para o celular, a tela acesa com a mensagem ameaçadora. Ele sabia que o tempo estava se esgotando. Ele estava em um jogo de xadrez perigoso, onde um movimento errado significava a derrota.
Ele pegou o guardanapo e escreveu algumas palavras. Um pedido de ajuda. Um pedido de perdão. Um pedido para que ela o entendesse. Ele não sabia se ela o ajudaria, mas era a única coisa que ele podia fazer. Ele enviou a mensagem para o número de Isabella, sabendo que era um risco imenso.
A noite caía sobre Nova York, e Leonardo sentia o peso da escuridão. Ele havia destruído seu próprio futuro, e agora, estava lutando pela sobrevivência. A vingança de Montenegro era implacável, e ele sabia que, a menos que fizesse algo drástico, seu destino estava selado. O jogo de espelhos havia revelado sua pior realidade: ele estava preso em sua própria teia de traição e desespero.