O Ladrão do meu Coração III

Capítulo 2 — A Sombra de Um Passado Que Não Morre

por Isabela Santos

Capítulo 2 — A Sombra de Um Passado Que Não Morre

O cheiro de café fresco e pão de queijo assando enchia a cozinha da pousada, um aroma reconfortante que contrastava com a tempestade que se formava no coração de Helena. Dona Florinda, com suas mãos ágeis e um sorriso que irradiava calor, virava as rodelas de queijo na chapa, seus cabelos brancos presos em um coque apertado.

“Bom dia, minha flor! Dormiu bem?”, perguntou Dona Florinda, sem desviar os olhos do fogão.

Helena forçou um sorriso. “Bom dia, Florinda. Dormi… mais ou menos.”

“Ah, esse homem novo que chegou ontem… fez você perder o sono, é?”, brincou Dona Florinda, lançando um olhar astuto por cima do ombro.

Helena corou levemente. “Nada disso, Florinda. Só… o trabalho.”

“Trabalho, sim… e um hóspede com um olhar desses, que parece que te vê a alma, faz qualquer mulher perder o sono. Ele é bonito, não é?”

“Ele é… um hóspede”, respondeu Helena, pegando uma xícara de café. O gosto amargo da bebida parecia espelhar o amargor que a presença de Victor Montenegro despertava nela.

“Um hóspede muito interessante. Notei a forma como ele te olhava, Helena. Com uma curiosidade… e um interesse que vai além do de um simples cliente.” Dona Florinda finalmente se virou, o rosto marcado por rugas de sabedoria e compaixão. “Você precisa se abrir para a vida, minha filha. Esse luto que você carrega é pesado demais. Cinco anos não são pouca coisa, mas o tempo… o tempo cura, sim, mas não pode te aprisionar para sempre.”

Helena suspirou, sentando-se à mesa. “Eu sei, Florinda. Mas é difícil. O Rafael… ele marcou a minha vida de uma forma que eu nunca pensei ser possível.”

“Eu sei, meu amor. Sei que o amor de vocês foi intenso, avassalador. Mas Rafael se foi. E o mundo continua. Talvez esse Victor Montenegro seja apenas um… um empurrãozinho que o destino te deu.”

Um empurrãozinho? Helena discordou mentalmente. Aquela presença era mais do que um empurrão. Era um furacão. Ela não conseguia tirar os olhos dele desde que o vira. O modo como ele se movia, a forma como falava, a intensidade do seu olhar… tudo nele a desarmava. Era como se ele fosse um espelho, refletindo não apenas a dor que ela tentava esconder, mas também uma parte de si mesma que ela pensava ter perdido para sempre. A parte que se permitia sentir, desejar, amar.

Mais tarde, enquanto arrumava os quartos, ouviu a voz grave de Victor vindo da sala de estar. Ele conversava ao telefone, e apesar de tentar se concentrar em seu trabalho, as palavras dele pareciam flutuar até ela.

“…sim, o lugar é exatamente como você descreveu. Tranquilo, isolado… perfeito para o que precisamos. A mulher que administra a pousada é… interessante. Tem uma beleza discreta, mas um olhar que esconde muito.” Ele fez uma pausa, e Helena sentiu o rosto esquentar, imaginando-o falando dela. “Não, ainda não revelei o meu propósito. Quero me instalar primeiro, observar. Tenho a impressão de que ela sabe mais do que aparenta.”

Helena se afastou da porta, o coração acelerado. Revelar o seu propósito? O que ele queria dizer com isso? Ele estava ali por algum motivo específico? E por que ele achava que ela sabia mais do que aparentava?

Ela tentou se concentrar em suas tarefas, mas a mente divagava. Victor Montenegro era um mistério envolto em um enigma. Ele parecia saber ler as pessoas, sentir suas emoções, desvendar seus segredos. E isso a assustava e a fascinava ao mesmo tempo.

Naquele dia, durante o almoço, Victor apareceu na área comum da pousada, onde alguns hóspedes se reuniam. Ele se sentou em uma mesa afastada, pedindo um peixe fresco grelhado. Helena sentiu seu olhar sobre ela, e por um instante, sentiu-se como se estivesse em um palco, sob os holofotes.

Enquanto servia o prato, ela arriscou um olhar. Ele estava admirando a vista, o mar calmo e azul. Mas quando seus olhares se cruzaram, ele sorriu. Um sorriso genuíno dessa vez, que alcançou seus olhos.

“O cheiro está divino, Helena”, disse ele, a voz clara e agradável.

“Obrigada. É um dos pratos favoritos dos nossos hóspedes.”

“Imagino o porquê.” Ele pegou o garfo e a faca, e começou a comer. “Você tem um dom para as coisas bonitas, não é? O casarão, os jardins… e a comida.”

Helena sentiu um rubor subir em seu rosto. “Eu amo este lugar. É tudo o que me resta de… de um tempo passado.”

Victor parou de comer, seus olhos fixos nos dela. Havia uma profundidade ali, uma compreensão que a fez sentir um nó na garganta.

“Um tempo passado que te roubou algo precioso, não foi?”, disse ele, com a mesma sutileza de antes. “Algo que você não tem coragem de recuperar?”

Helena engoliu em seco. Era demais. Aquela insistência, aquela invasão em sua dor mais íntima. “Eu não sei do que você está falando. Se me der licença, preciso voltar ao trabalho.”

Ela se afastou rapidamente, sentindo o olhar dele queimando em suas costas. Precisava de ar. Saiu pela porta dos fundos, caminhando em direção à praia. O sol da tarde, mais suave agora, aquecia sua pele. Sentou-se na areia morna, observando as ondas.

De repente, sentiu uma presença ao seu lado. Era Victor. Ele se sentou a uma distância respeitosa, sem dizer uma palavra. O silêncio entre eles era diferente do silêncio de antes. Era um silêncio cúmplice, pesado de significados não ditos.

“Você fala de um passado que te roubou algo”, disse ele finalmente, sua voz baixa e pensativa. “Eu também tenho um passado que me roubou. E eu… eu não desisti de recuperá-lo.”

Helena virou-se para ele, curiosa apesar de si mesma. Havia uma melancolia em seu tom que ressoava com a sua própria. “E o que te roubaram?”, perguntou ela, num sussurro.

Victor olhou para o horizonte, seus olhos perdidos em alguma memória distante. “O meu nome. A minha honra. Uma vida que me foi tirada à força.” Ele fez uma pausa, e Helena sentiu um arrepio. “E agora, eu busco justiça.”

Justiça. A palavra ecoou em sua mente. O que ele queria dizer com isso? Estava ali para buscar justiça? E por que ele a envolvia em suas palavras, em suas intenções?

“Eu… eu sinto muito”, disse Helena, genuinamente. Havia uma dor em seus olhos que ela não soube esconder.

Victor a olhou, um brilho diferente em seu olhar. Era como se, naquele instante, ele a visse não como uma estranha, mas como alguém que entendia a dor da perda.

“Não sinta, Helena”, disse ele, suavemente. “Apenas… viva. Não deixe que o passado te defina. Não deixe que ele te roube o presente, e o futuro.”

Ele se levantou, a sombra do seu corpo se estendendo sobre a areia. “Preciso ir. Tenho coisas a resolver.”

Helena ficou ali, observando-o se afastar. A conversa com Victor a deixara ainda mais confusa. Ele era um homem de muitos mistérios, com um passado sombrio e um futuro incerto. Mas havia algo nele que a atraía irresistivelmente. Talvez fosse a intensidade com que ele vivia, a forma como ele enfrentava seus demônios. Ou talvez, apenas talvez, fosse a esperança que ele, sem saber, despertava nela. A esperança de que, assim como ele buscava sua justiça, ela também pudesse encontrar um caminho para curar suas feridas e reconstruir sua vida.

No entanto, uma dúvida persistia em sua mente: por que ele estava em Paraty? E por que ele parecia tão interessado em sua história? A sombra de um passado que ela tentava enterrar parecia estar voltando à vida, e ela não sabia se estava pronta para enfrentá-la novamente.

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