A Esposa Rebelde III

A Esposa Rebelde III

por Isabela Santos

A Esposa Rebelde III

Autor: Isabela Santos

Capítulo 16 — O Silêncio da Verdade

O sol mal ousava despontar no horizonte de Angra dos Reis, tingindo o céu de um rosado melancólico, mas em Angélica, a tempestade já havia se instalado com fúria redobrada. O peso das palavras de Ricardo ainda ecoava em seus ouvidos, um veneno sutil que escorria pela alma, deixando-a inerte e desorientada. O homem que um dia jurou amor eterno, o pai de seus filhos, o pilar de sua existência, agora se erguia como um fantasma, um carrasco de sentimentos que ela julgava imutáveis.

“Você não pode me culpar por querer o melhor para nós, Angélica. Para nossos filhos”, as palavras dele, proferidas com uma frieza calculista, pareciam distantes, como se viessem de um abismo sem fundo. O “nós” dele soava oco, uma casca vazia de um significado que já não mais habitava seus corações. Ele falava de dinheiro, de poder, de um futuro seguro, mas o que ele oferecia era o sucateamento da própria alma, a venda de um legado que transcendia qualquer valor material.

Angélica revirou-se na cama, o lençol de seda fria grudando em sua pele suada. A mansão, que antes era um refúgio de paz e luxo, agora parecia uma jaula dourada, cheia de sombras e sussurros que a torturavam. Cada canto, cada obra de arte, cada móvel antigo contava uma história de cumplicidade e sonhos compartilhados, sonhos esses que Ricardo, em sua busca insaciável por mais, parecia ter decidido enterrar.

O peso sobre seu peito era insuportável. Ela sabia, com a clareza dolorosa de quem se olha no espelho e não se reconhece, que a proposta de Ricardo era a antítese de tudo o que ela representava. Vender a Fazenda Boa Vista, a terra que pertencia à sua família há gerações, o santuário onde seus avós a ensinaram sobre a vida, a natureza e a importância de honrar as raízes, era como arrancar um pedaço de si mesma. Era renunciar à sua história, à sua identidade.

“Ele não entende”, murmurou para o travesseiro úmido de lágrimas. “Ele nunca entendeu o que realmente importa.” E a dor era ainda maior por saber que Ricardo, o homem que ela escolheu para compartilhar a vida, o homem que jurou admirar sua força e sua paixão pelos valores que defendia, agora a confrontava com uma oferta desleal, uma proposta que a colocava contra a própria essência.

O som de passos no corredor a fez sobressaltar. Seu coração disparou, um tambor desgovernado anunciando a aproximação de algo que ela temia e, ao mesmo tempo, ansiava. A porta se abriu lentamente, revelando a figura imponente de Ricardo, o semblante carregado, os olhos que antes brilhavam com admiração agora pareciam duros, impenetráveis.

Ele se aproximou da cama, sentando-se na beirada, o colchão afundando sob seu peso. O silêncio pairava entre eles, carregado de mágoas não ditas e de uma distância que se estendia como um oceano. Angélica o observava, procurando um vislumbre do homem que amava, mas encontrou apenas o reflexo de suas próprias decepções.

“Você não dormiu”, ele disse, a voz rouca, desprovida de qualquer emoção.

Angélica apenas assentiu, incapaz de articular uma palavra. A garganta parecia fechada, sufocada pela angústia.

“Angélica, precisamos conversar.” Ele suspirou, um som pesado que ressoou na quietude do quarto. “Sei que você está chateada. Mas não há outra saída. A empresa está em uma situação delicada. Precisamos desse investimento. Precisamos da Boa Vista para garantir nosso futuro.”

O “nosso futuro” dele era o pesadelo dela. Ela finalmente conseguiu encontrar sua voz, um fio de esperança que teimava em não se romper. “Nosso futuro, Ricardo? E o que seria desse futuro sem a nossa história? Sem o que nos torna quem somos?”

Ele a olhou com uma impaciência mal disfarçada. “História não paga contas, Angélica. E tampouco garante segurança para os nossos filhos.”

“E o que adianta ter segurança se a alma está em pedaços?”, ela rebateu, a voz ganhando força, a revolta borbulhando em suas veias. “Você está disposto a vender a alma da nossa família por uma margem de lucro? A nos despojar de tudo o que tem valor real, apenas para acumular mais? Mais dinheiro? Mais poder?”

Ricardo se levantou, passando as mãos pelos cabelos em um gesto de frustração. “Você não entende nada de negócios, Angélica! Não sabe a pressão que estou sofrendo. Os credores estão em cima de mim. Se eu não conseguir esse aporte, tudo pode desmoronar.”

“E desmoronar seria o fim do mundo, não é?”, ela ironizou, a dor transformada em um sarcasmo cortante. “Mas você não pensa que desmoronar os nossos valores, a nossa integridade, seria um fim ainda maior? Um fim que nos deixaria vazios, sem nada que realmente valha a pena ser lembrado?”

Ele a encarou, os olhos faiscando de raiva contida. “Você fala como se estivesse vivendo em um conto de fadas, Angélica. O mundo real é cruel. E eu estou lutando para proteger a nossa família dele.”

“Proteger ou aprisionar?”, ela questionou, levantando-se também, a altura dela agora equiparada à dele, em um duelo silencioso de vontades. “Você quer nos proteger, mas está nos condenando a viver em um mundo onde o dinheiro é o único deus. E eu não posso, Ricardo. Eu não posso compactuar com isso.”

Ele se aproximou, o rosto a centímetros do dela, a respiração ofegante. “Você vai ter que aceitar, Angélica. É o único jeito.”

O olhar dela era um desafio, uma declaração de guerra. “Não, Ricardo. O único jeito é você entender que há coisas mais valiosas do que o seu império. E eu, Angélica Monteiro, não serei cúmplice na destruição do legado da minha família.”

Ela se afastou, o corpo tremendo de uma emoção avassaladora. O confronto era inevitável. O silêncio que se instalou depois de suas palavras era mais ensurdecedor do que qualquer grito. Ricardo a olhava, a expressão indecifrável, um misto de incredulidade e fúria. E Angélica, naquele instante, sentiu a solidão mais profunda de sua vida, sabendo que o homem ao seu lado, o homem que ela amava, havia se tornado um estranho, um inimigo de seus valores mais sagrados. O sol, finalmente, rompeu as nuvens, mas para Angélica, a luz parecia distante, obscurecida pela escuridão que se instalara em seu coração. A verdade, nua e crua, havia se revelado, e o preço a ser pago por ela seria alto.

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