A Esposa Rebelde III

Capítulo 18 — As Cicatrizes do Passado

por Isabela Santos

Capítulo 18 — As Cicatrizes do Passado

O ambiente na mansão Monteiro tornou-se gélido, um reflexo do distanciamento crescente entre Angélica e Ricardo. As conversas eram escassas e tensas, repletas de subentendidos e de uma tristeza profunda que pairava no ar como uma névoa persistente. Cada olhar trocado era um lembrete da distância que se instalara entre eles, um abismo cavado pela ambição de um e pela integridade do outro. Angélica sentia um aperto no peito, a dor de ver o homem que amava se afastar cada vez mais de seus valores, e consequentemente, dela.

Ricardo, por outro lado, mergulhava em seu próprio labirinto de pressões e frustrações. A resistência de Angélica, que ele esperava ser passageira, tornara-se um muro intransponível. Ele a via como uma pedra no sapato, uma idealista ingênua que não compreendia a dura realidade do mundo dos negócios. A impaciência o consumia, e em sua mente, a única saída parecia ser contornar sua esposa, minar sua força e forçar a aprovação da venda da Fazenda Boa Vista.

Ele decidiu que era hora de jogar suas últimas cartas, aquelas que poderiam abalar Angélica até a medula. Ele sabia que a história familiar era um ponto fraco, um gatilho emocional que ele poderia usar para manipulá-la. E, em particular, havia uma cicatriz do passado, uma ferida antiga que ele acreditava poder reabrir para desestabilizá-la.

Naquela noite, a lua cheia banhava os jardins da mansão em uma luz prateada e fantasmagórica. Angélica estava sentada na varanda, olhando para o mar, a brisa noturna acariciando seus cabelos. A solidão a envolvia, um manto frio que a impedia de encontrar o sono. Foi então que Ricardo apareceu, o semblante sombrio, os olhos fixos nela como se procurasse algo além de sua resistência.

“Podemos conversar, Angélica?”, ele disse, a voz um sussurro rouco que parecia carregar o peso de anos de ressentimento.

Angélica apenas assentiu, o coração antecipando a tormenta que estava por vir. Ela sabia que ele não a procurava para um acerto de contas amigável.

Ricardo se sentou ao lado dela, mantendo uma distância física que espelhava a distância emocional. “Você está lutando contra mim, Angélica. Contra o futuro que estou tentando construir para nós.”

“Eu estou lutando pelo que é certo, Ricardo”, ela respondeu, a voz firme, apesar da angústia que a consumia. “Pelo que realmente importa.”

Ele riu, um som seco e sem humor. “O que realmente importa? Para você, talvez. Para mim, o que importa é garantir que nossos filhos tenham segurança. Que não passem pelas dificuldades que nós, ou pior, que meus pais passaram.”

O olhar de Ricardo tornou-se distante, perdido em memórias sombrias. “Você sabe que minha família não era rica como a sua. Meu pai lutou a vida inteira, trabalhou incansavelmente, mas nunca conseguiu se livrar das dívidas. Ele morreu amargurado, sentindo que falhou com todos nós.” Ele fez uma pausa, a voz embargada. “Eu não quero esse fim para mim. E não quero para nossos filhos.”

Angélica o olhava, uma mistura de compaixão e cautela. Ela sabia que ele estava tentando jogá-la em um canto emocional, usando a dor de seu passado para justificar suas ações presentes.

“Eu sinto muito pela sua família, Ricardo”, disse ela suavemente. “Mas isso não te dá o direito de destruir o legado da minha.”

“O legado?”, ele retrucou, a voz ganhando um tom de escárnio. “O que é esse legado, Angélica? Uma fazenda que custa uma fortuna para ser mantida? Uma terra que não te traz nenhum retorno financeiro? Você vive em um mundo de sonhos, minha cara. Eu vivo na realidade.”

Ele se aproximou um pouco mais, o olhar penetrante. “E na realidade, Angélica, as coisas mudam. As pessoas mudam. E, às vezes, para seguir em frente, é preciso deixar o passado para trás.” Ele fez uma pausa, como se reunisse coragem. “Você se lembra do que aconteceu com a tia Helena, não é?”

O nome da tia Helena, a irmã mais velha de sua mãe, que havia enlouquecido anos atrás após um grande abalo emocional e financeiro, atingiu Angélica como um golpe. Era uma ferida que ela preferia manter adormecida, um lembrete doloroso da fragilidade da mente e da força destrutiva do desespero.

“O que a tia Helena tem a ver com isso?”, ela perguntou, a voz trêmula.

“Ela também era apegada ao passado, não é?”, Ricardo prosseguiu, implacável. “Amava a vida que levava, acreditava nos valores que lhe foram ensinados. Mas quando a vida a colocou contra a parede, ela não soube reagir. Ela se quebrou. E, no fim, ela perdeu tudo. Seus bens, sua família, sua sanidade.”

As palavras dele eram cruéis, um ataque direto à memória de sua tia e, por extensão, a seus próprios princípios. Angélica sentiu uma raiva fria subir por suas veias.

“Você está comparando a mim com a tia Helena? Você está insinuando que eu sou fraca? Que vou sucumbir?”, ela questionou, a voz carregada de indignação.

“Eu estou apenas dizendo a verdade, Angélica. A verdade que você se recusa a enxergar”, Ricardo insistiu, o tom de voz perigosamente calmo. “Você está se apegando a um passado que não existe mais. E se você não mudar de atitude, vai acabar como ela. Perdida, sozinha, sem nada.”

Ele se levantou, dando as costas a ela, o corpo tenso. “Pense bem no que eu disse, Angélica. Pense no que você realmente quer para o futuro. E para seus filhos.”

Angélica permaneceu sentada, o corpo vibrando com a fúria e a dor. As palavras de Ricardo haviam atingido um ponto sensível, explorando uma vulnerabilidade que ela tentava desesperadamente manter oculta. Ela sabia que ele estava tentando intimidá-la, mas a única coisa que conseguiu foi despertar nela uma determinação ainda maior. Ela não era sua tia Helena. Ela não era fraca. E ela jamais permitiria que ele a quebrasse.

Naquela noite, o amor que sentia por Ricardo parecia um fantasma, uma lembrança distante de algo que um dia foi real. A admiração que nutria por ele, a confiança que depositava em sua força, tudo isso se desfazia diante de suas ações cruéis e manipuladoras. As cicatrizes do passado, que ele tentara reabrir, serviam agora como um escudo, fortalecendo sua convicção de que ela estava lutando pela coisa certa. A travessia pelo deserto de Ricardo estava longe de terminar, mas Angélica agora sabia que ela possuía a força necessária para chegar ao outro lado, mesmo que isso significasse caminhar sozinha.

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