O Último Beijo II
Com certeza! Prepare-se para mergulhar em "O Último Beijo II", uma saga de paixões, desencontros e o eterno jogo do amor, escrita com a alma de um romancista brasileiro.
por Ana Clara Ferreira
Com certeza! Prepare-se para mergulhar em "O Último Beijo II", uma saga de paixões, desencontros e o eterno jogo do amor, escrita com a alma de um romancista brasileiro.
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Capítulo 1 — O Sussurro da Saudade em Laranjeiras
O sol da tarde banhava o Rio de Janeiro com um ouro derretido, pintando as encostas do Corcovado e as fachadas coloniais de Laranjeiras com um calor familiar. Mas dentro do casarão centenário, onde o aroma de café coado e jasmim se misturava ao perfume antigo das madeiras, o clima era de uma melancolia densa, quase palpável. Helena, com seus cabelos castanhos presos num coque frouxo que teimava em soltar fios rebeldes, observava da janela em arco da sala de estar. Seus olhos, de um verde profundo que parecia refletir a própria floresta da Tijuca, estavam fixos num ponto indefinido além da rua arborizada. Havia um brilho de sofrimento contido em seu olhar, um lamento silencioso que ela carregava como um véu invisível.
Faziam cinco anos. Cinco anos desde a última vez que o vira. Cinco anos desde o último beijo, aquele que prometeu ser o prelúdio de uma eternidade, mas que se tornou, ironicamente, o último de uma história que parecia não ter fim. Rafael. O nome ecoava em sua mente como uma melodia esquecida, uma canção de ninar que a embalava e a atormentava em igual medida. Ele estava em Paris, vivendo seu sonho de artista, pintando telas que o mundo aprendia a admirar. E ela estava ali, em Laranjeiras, cuidando da galeria de arte da família, um legado que se tornara o seu refúgio e, às vezes, sua prisão.
Um suspiro escapou de seus lábios, misturando-se ao murmúrio da cidade lá fora. A vida seguiu seu curso, claro. Ela conheceu outras pessoas, teve outros flertes, até mesmo um romance que durou alguns meses, mas nada se comparou à eletricidade que Rafael acendia em sua alma. Era como tentar preencher um vazio com objetos que, por mais bonitos que fossem, jamais teriam a forma exata do que havia sido deixado para trás.
“Helena?”
A voz suave de sua mãe, Dona Clara, tirou-a de seus devaneios. A matriarca, elegante mesmo em seu vestido de casa de renda e com o cabelo branco impecavelmente arrumado, aproximou-se com uma bandeja de chá fumegante.
“Pensando nele de novo, querida?”, perguntou Dona Clara, com a sabedoria de quem já viu o amor florescer e murchar em suas filhas. Ela sabia que o nome Rafael era um fantasma que pairava sobre Helena.
Helena deu um sorriso fraco, virando-se para encarar a mãe. “Só estava admirando a luz, mãe. Laranjeiras tem uma luz especial, não acha?”
Dona Clara pousou a bandeja na mesinha de centro, adornada com um arranjo de lírios brancos. Sentou-se na poltrona de veludo cor de vinho, o mesmo tom que outrora ela e o pai de Helena haviam escolhido. “Sim, é uma luz que traz lembranças. Boas e… nem tão boas.” Ela olhou para Helena com carinho. “Você sabe que eu não entendo essa sua resistência em seguir em frente. Cinco anos é tempo suficiente para curar qualquer ferida.”
“Nem toda ferida cicatriza, mãe. Algumas deixam cicatrizes que doem com o vento frio.” Helena serviu-se de uma xícara de chá, o vapor quente aquecendo seu rosto. “Rafael… ele foi meu vento frio e meu sol quente. E agora? Agora tenho só o eco.”
“O eco pode ser bonito, Helena. E você tem a sua arte, a sua galeria, amigos… Sua vida é rica.”
“Rica em coisas, mãe. Mas vazia no lugar que ele ocupava.” Helena deu um gole no chá, o amargor suave da erva se misturando à doçura da saudade. “Eu sinto falta da maneira como ele me olhava, como se eu fosse a única coisa que importava no universo. Sinto falta das nossas conversas que varavam a noite, das nossas discussões apaixonadas sobre arte e vida. Sinto falta do seu abraço que me fazia sentir segura e desbravada ao mesmo tempo.”
Dona Clara suspunha a mão sobre a de Helena. “Eu entendo, meu amor. Mas o amor que não é compartilhado, que não é construído no dia a dia, corre o risco de se tornar uma memória idealizada. E essa idealização pode impedir que você encontre um amor real, um amor presente.”
“E se ele for o amor real, mãe? E se o que eu sinto for a prova de que ele é o único?” A pergunta pairou no ar, pesada com a esperança e o desespero.
Antes que Dona Clara pudesse responder, a campainha soou, um toque insistente que quebrou a quietude do momento. Helena franziu a testa. “Quem será a essa hora?”
A governanta, Dona Lourdes, uma senhora grisalha de semblante sério, mas coração mole, abriu a porta da sala. “Senhorita Helena, há um homem querendo falar com a senhora. Diz que é da embaixada de Paris.”
A palavra “Paris” fez o coração de Helena disparar. Uma súbita onda de apreensão a atingiu. Poderia ser…? Não, impossível.
“Um homem da embaixada?”, repetiu Dona Clara, intrigada.
Helena se levantou, as pernas um pouco trêmulas. “Obrigada, Dona Lourdes. Pode mandá-lo entrar.”
Um homem de terno impecável, com um porte elegante e um olhar direto, entrou na sala. Ele se apresentou como Monsieur Dubois, um representante cultural da embaixada francesa. Ele trazia notícias. Notícias sobre uma exposição de arte que seria realizada no Rio de Janeiro, uma mostra itinerante de artistas contemporâneos franceses, e em cujo evento… Rafael seria o principal convidado e palestrante.
“Senhorita Helena,” começou Monsieur Dubois, com um leve sotaque francês que soava melodioso, “fui informado pela galeria que a senhora dirige, e que tem grande prestígio na cena artística carioca, que a senhora é uma conhecedora profunda da obra de alguns artistas emergentes na França. E, mais especificamente, que a senhora tem uma ligação pessoal com o pintor Rafael Almeida.”
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha. As palavras de Monsieur Dubois eram como um raio de sol rompendo as nuvens de sua saudade. Rafael estava voltando. Ou, pelo menos, estava vindo para o Brasil. Para o Rio.
“Sim, Monsieur Dubois. Eu conheço o trabalho de Rafael Almeida. E… tivemos uma história juntos.” Sua voz saiu um pouco embargada, mas firme.
Monsieur Dubois assentiu, um leve sorriso de compreensão. “Perfeito. A embaixada deseja organizar um evento de recepção prévia à exposição, um jantar íntimo para colecionadores e críticos de arte. E seria uma honra se a senhora pudesse participar, talvez até mesmo apresentar o senhor Almeida.”
A proposta era tentadora. Uma oportunidade de vê-lo novamente, de estar perto dele, de talvez… quem sabe? Mas também era aterrorizante. Cinco anos. O tempo muda as pessoas. O amor pode se apagar. E se ele não a reconhecesse mais, ou pior, se já estivesse com outra pessoa?
“É uma honra para mim também, Monsieur Dubois,” respondeu Helena, lutando para manter a compostura. “Aceito o convite. E seria um prazer imenso apresentar Rafael.”
Dona Clara observava a filha, o coração apertado de uma mistura de esperança e receio. Ela sabia que aquele encontro, se acontecesse, seria um divisor de águas na vida de Helena.
Noite adentro, Helena não conseguiu dormir. A notícia da vinda de Rafael revolvera as águas calmas de sua existência. Ela se levantou, caminhou até o seu ateliê particular, um espaço amplo e luminoso no sótão da casa, repleto de tintas, telas e a poeira fina de anos de dedicação. Pegou um caderno de esboços antigo, guardado em uma caixa de madeira entalhada. Abriu-o com cuidado. As páginas estavam repletas de desenhos de Rafael: seu perfil intenso enquanto dormia, o contorno de suas mãos enquanto pintava, o sorriso travesso que iluminava seu rosto. E em meio aos esboços, uma pequena aquarela desbotada de um pôr do sol em Laranjeiras, que ele havia pintado para ela no dia em que partiram.
As lembranças a inundaram com uma força avassaladora. Aquele dia fatídico na praia de Ipanema, o céu tingido de laranja e roxo, o cheiro salgado do mar misturado à sua pele. O último beijo.
“Eu voltarei, Helena. Prometo.”
As promessas… quantas delas foram quebradas pelo tempo e pela distância? Mas agora, ele estava voltando. E Helena, pela primeira vez em cinco anos, sentiu uma fagulha de esperança acender em seu peito. Uma esperança perigosa, talvez, mas uma esperança real. A exposição seria daqui a três semanas. Três semanas para se preparar, para enfrentar seu passado, para talvez, apenas talvez, reencontrar o amor de sua vida. A noite era longa, e o futuro, incerto como sempre, mas pela primeira vez, Helena o encarava com um brilho novo nos olhos, o brilho de quem está prestes a reescrever uma história.