O Último Beijo II
Capítulo 12 — O Labirinto das Provas em Santa Teresa
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 12 — O Labirinto das Provas em Santa Teresa
A manhã em Santa Teresa amanheceu com um sol tímido, tentando romper a névoa úmida que pairava sobre os morros, um reflexo sutil do turbilhão emocional que Rafael e Isabella haviam vivenciado na noite anterior. O ar, antes carregado de drama, agora parecia mais leve, mas a urgência de agir pairava como uma nuvem discreta. O Arpoador havia sido o palco da confissão, mas agora era hora de traçar o plano de ataque.
Eles se encontraram na aconchegante casa de Isabella, as paredes coloridas e as obras de arte espalhadas parecendo testemunhar um período de paz que agora precisava ser defendido. O aroma de café fresco se misturava ao cheiro de flores que decoravam a sala. Rafael serviu duas xícaras fumegantes, seus olhos encontrando os de Isabella em um entendimento silencioso.
"Precisamos de provas, Isa," Rafael disse, a voz firme e decidida. "As ameaças de Victor contra Matheus, a manipulação dos documentos, tudo isso. Precisamos de algo concreto para expor ele. Algo que nem ele possa distorcer."
Isabella assentiu, sua mente já trabalhando a mil. "Eu tenho guardado algumas coisas. Pequenos arquivos que Victor me mandava, supostas provas contra você. Talvez lá haja algo que incrimine ele. Ele era descuidado quando achava que tinha o controle total."
"E Matheus? Ele pode ser uma fonte de informação também. Se Victor o ameaçou, Matheus deve ter alguma pista de como ele operava, quais documentos ele usou, quem ele contatou."
"Matheus está abalado, Rafa. Ele ainda não entende completamente o que aconteceu, ou melhor, o que ele pensa que aconteceu. Mas eu posso tentar falar com ele. Ele é um bom homem, mas Victor o intimidou profundamente."
Rafael caminhou até a janela, observando o trânsito que começava a se formar no centro da cidade, um burburinho de vida que contrastava com o sigilo de seus planos. "Victor se especializou em criar um labirinto de mentiras, com becos sem saída e espelhos distorcidos. Precisamos encontrar o fio de Ariadne. E acho que a chave pode estar na própria estrutura da empresa dele. Ele sempre foi metódico em seus esquemas."
"Eu me lembro de algumas conversas dele com advogados em reuniões. Ele falava de "estruturas corporativas complexas", de "offshores" para proteger seus ativos. Parecia muito preocupado com a forma como tudo estava organizado legalmente."
"Isso é bom. Significa que ele tem um rastro. E se ele tem um rastro, podemos segui-lo. Precisamos de alguém que entenda desse tipo de coisa. Alguém confiável."
Os olhos de Isabella se fixaram em Rafael, um brilho de determinação neles. "O Dr. Samuel Mendes. Ele era o advogado da família antes de tudo desmoronar. Ele conhece a fundo as finanças do meu pai, e eu acredito que ele também tenha trabalhado com o Victor em alguns momentos. Ele sempre foi um homem de princípios."
"Samuel Mendes..." Rafael repetiu o nome, pensativo. "Conheço o nome. Um advogado renomado. Se ele for confiável, pode ser a nossa melhor chance. Mas como vamos abordá-lo? Victor pode ter olho nele também."
"Eu tenho o contato dele. Posso ligar, pedir um encontro. Com discrição, claro. E se ele for o homem que eu lembro, ele vai nos ouvir."
Enquanto Isabella discava o número, Rafael vasculhava seus próprios contatos. "Eu vou tentar acessar alguns bancos de dados públicos. Se Victor usou empresas de fachada ou fez transferências ilegais, pode haver algum registro. Não vai ser fácil, mas se ele deixou rastros, eu vou encontrá-los."
A conversa de Isabella com Samuel Mendes foi curta e carregada de tensão. Ela explicou o mínimo necessário, apenas o suficiente para despertar o interesse e a preocupação do advogado. Ele concordou em encontrá-los no mesmo dia, em um café discreto no bairro da Urca, com vista para a Baía de Guanabara.
O encontro foi um estudo em cautela. Samuel Mendes, um homem de meia-idade com cabelos grisalhos e um olhar penetrante, ouvia atentamente cada palavra de Isabella e Rafael. Ele sabia do histórico dela, da tragédia que havia marcado a família, e da reputação de Victor.
"Eu já desconfiava que Victor não era o homem que se apresentava," Samuel disse, depois de ouvir o relato completo. "Ele sempre teve um jeito... ambicioso demais. E a forma como ele assumiu o controle depois da doença do seu pai, Isabella, foi muito rápida e, para dizer o mínimo, incomum."
"Ele ameaçou meu irmão, Dr. Mendes," Isabella disse, a voz trêmula. "Usou informações que ele tinha sobre Matheus para me forçar a cooperar com ele, para me afastar do Rafael. Ele criou um cenário onde eu me senti obrigada a fazer o que ele mandava."
Samuel Mendes suspirou, o peso da situação evidente em seu semblante. "Victor é um manipulador experiente. Ele sabe como plantar a dúvida, como criar a ilusão de culpa. Se ele ameaçou seu irmão, isso é um crime grave. E se ele usou documentos forjados ou deturpados para conseguir isso, o crime é ainda maior."
"Rafael suspeita que ele usou a minha empresa para encobrir transferências ilegais, para lavar dinheiro. E os documentos que ele me deu para incriminar o Rafael, talvez contenham a assinatura dele, a forma como ele opera." Isabella entregou a Rafael uma pasta com cópias dos documentos que Victor a havia dado.
Rafael começou a folhear os papéis, sua expertise analítica entrando em ação. "O estilo de formatação, a linguagem utilizada... é muito parecido com o que Victor usava em seus relatórios internos. E a data das transferências, logo após o período em que eu questionei algumas de suas práticas na empresa..."
Samuel Mendes examinou os documentos com um olhar treinado. "Essas transações são de valores muito altos, e a justificativa apresentada é vaga. Se conseguirmos rastrear a origem desses fundos e o destino, podemos ter provas suficientes. Victor é conhecido por usar uma rede de empresas offshore para ocultar seus bens. É um método clássico de lavagem de dinheiro."
"Eu tenho alguns contatos na área de inteligência financeira," Rafael disse, os olhos brilhando com a perspectiva de uma batalha. "Posso tentar levantar informações sobre essas empresas, ver se há alguma ligação com Victor. Mas vai levar tempo, e preciso de acesso a informações mais profundas."
"Eu posso ajudar com isso," Samuel Mendes declarou, sua voz carregada de convicção. "Tenho acesso a alguns bancos de dados privados e a contatos que podem nos fornecer os detalhes das transações. E quanto às ameaças contra seu irmão, Matheus... se ele puder nos fornecer cópias das comunicações, ou testemunhar sobre elas, isso será crucial."
"Eu vou falar com Matheus," Isabella prometeu, sentindo uma onda de determinação. "Ele precisa saber que não está sozinho nessa. E que a verdade vai prevalecer."
A reunião em Urca se estendeu por horas, um intrincado quebra-cabeça sendo montado peça por peça. Samuel Mendes, com sua experiência jurídica, Rafael, com sua perspicácia financeira, e Isabella, com sua coragem e conhecimento íntimo dos esquemas de Victor.
Eles planejaram os próximos passos: Rafael investigaria as transações financeiras e as empresas offshore; Samuel Mendes auxiliaria na obtenção de dados e na análise jurídica; Isabella tentaria obter mais informações de Matheus e buscaria por qualquer evidência que Victor tivesse deixado para trás. A luta seria árdua, o labirinto de Victor era complexo, mas pela primeira vez em muito tempo, eles sentiam que tinham uma chance real de encontrar a saída. O sol da Baía de Guanabara, que agora brilhava com mais força, parecia um sinal de esperança.