Cap. 13 / 25

O Último Beijo II

Capítulo 13 — O Sussurro das Sombras no Cais de São Cristóvão

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 13 — O Sussurro das Sombras no Cais de São Cristóvão

O Cais de São Cristóvão, um lugar de memórias e de cheiros fortes de peixe e maresia, parecia engolir a luz do fim de tarde, transformando as estruturas metálicas e os armazéns em silhuetas ameaçadoras. Era um cenário sombrio, perfeito para encontros clandestinos e para a entrega de informações que poderiam mudar o curso de tudo. Rafael, com a pasta de documentos que Isabella havia lhe entregado, esperava impaciente, sentindo o peso da responsabilidade em cada batida de seu coração.

Ele havia conseguido uma informação crucial através de um de seus contatos: Victor se encontraria com um intermediário, alguém conhecido no submundo financeiro por sua discrição e eficiência em "limpar" rastros. A localização e o horário eram precisos, e a esperança de Rafael era obter alguma prova direta da participação de Victor nas transações ilícitas. Ele não estaria sozinho; um amigo de confiança, um ex-policial com quem ele havia trabalhado no passado, estaria a uma distância estratégica, pronto para intervir se necessário.

A brisa que vinha da Baía de Guanabara trazia um ar úmido e salgado, que se misturava ao cheiro pungente da vida portuária. Barcos de pesca atracavam, pescadores descarregavam suas redes. Era um mundo à parte da sofisticação de Ipanema ou da boemia de Santa Teresa. Um mundo onde as transações eram feitas na calada da noite, e a informação valia mais que ouro.

Rafael ajustou o colarinho da camisa, sentindo a adrenalina correr em suas veias. Ele sabia que Victor era perigoso, e que qualquer um que se envolvesse em seus esquemas poderia ser igualmente implacável. A pasta em sua mão continha cópias de e-mails e planilhas que Isabella havia encontrado em um disco rígido antigo de seu pai, documentos que pareciam confirmar as transferências suspeitas. Ele precisava que essa informação chegasse às mãos certas, e o intermediário de Victor era a chave para expor a fraude.

Um carro escuro e discreto parou a uma curta distância. Um homem saiu, vestindo um terno cinza que parecia absorver a pouca luz que restava. Ele se moveu com uma agilidade surpreendente para sua idade, seus olhos varrendo o local com uma cautela profissional. Rafael reconheceu os relatos: o intermediário, um homem conhecido apenas como "O Sombra".

Rafael se aproximou, mantendo uma distância calculada. "Você é o homem que eu esperava," Rafael disse, a voz controlada.

O Sombra não respondeu imediatamente. Seus olhos, frios e analíticos, escanearam Rafael de cima a baixo. "Informação tem preço. E o preço pode ser alto demais para quem não está acostumado."

"Eu tenho o que você procura," Rafael disse, colocando a pasta sobre uma caixa de madeira empilhada. "Uma confirmação das transações que seu cliente deseja manter em segredo. Se você as levar para o lugar certo, ele terá o que quer. E eu terei o que preciso."

O Sombra deu um passo à frente, seus dedos ágeis abrindo a pasta. Ele folheou os documentos com uma velocidade impressionante, um leve aceno de cabeça indicando que ele reconhecia a natureza das informações. O silêncio se instalou entre eles, apenas quebrado pelo som das ondas e pelos ruídos distantes do porto.

"Interessante," O Sombra murmurou, fechando a pasta. "Seu cliente vai gostar disso. Mas ele também quer saber quem é você. E por que está tão interessado em mexer em seus negócios."

"Meu cliente quer que você entregue isso para ele," Rafael disse, ignorando a pergunta. "E o meu interesse é apenas garantir que a justiça seja feita. Que as pessoas que foram prejudicadas recebam o que lhes é devido."

O Sombra sorriu, um movimento quase imperceptível dos lábios. "A justiça é um conceito relativo, meu amigo. E neste mundo, a sobrevivência é o único valor real." Ele estendeu a mão, com as palmas voltadas para Rafael. "Eu levo isso. E você, espere. O pagamento virá. E a sua segurança também, por enquanto."

No momento em que O Sombra pegava a pasta, um movimento brusco chamou a atenção de Rafael. Da escuridão de um dos armazéns, duas figuras emergiram, empunhando armas. Não eram a polícia, não eram os homens de confiança de Rafael. Eram os capangas de Victor, provavelmente alertados pela própria presa ou por alguém que o observava.

"Pega as provas!" Rafael gritou para O Sombra, um instinto de sobrevivência assumindo o controle.

O Sombra, com uma agilidade surpreendente, agarrou a pasta e se moveu para trás de um contêiner, desaparecendo nas sombras. Rafael não hesitou. Ele correu em direção aos agressores, usando os pilares e as caixas como cobertura. O tiroteio começou, os disparos ecoando de forma ensurdecedora no cais silencioso.

Os homens de Victor eram brutais e determinados. Rafael, apesar de sua habilidade e treinamento, estava em desvantagem numérica. Ele se esquivava, atirava e procurava uma saída. O seu amigo, o ex-policial, percebeu a emboscada e começou a avançar, disparando de forma tática para criar uma distração e dar a Rafael uma chance de escapar.

Em meio ao caos, Rafael vislumbrou O Sombra em outra parte do cais, se movendo em direção a um pequeno barco ancorado. Ele sabia que O Sombra era sua melhor chance de garantir que as provas chegassem a quem deveriam.

Rafael se concentrou em neutralizar seus agressores, usando o ambiente a seu favor. Ele conseguiu desarmar um deles com um golpe preciso e, em seguida, usou o homem caído como escudo humano para se proteger dos disparos do outro. Seu amigo, o ex-policial, conseguiu atingir um dos homens de Victor, o que deu a Rafael a oportunidade que precisava.

Ele correu em direção ao barco onde O Sombra estava prestes a embarcar. "Você tem que entregar isso!" Rafael gritou, ofegante. "Não deixe que ele destrua tudo!"

O Sombra lançou um olhar rápido para Rafael, um lampejo de algo que poderia ser respeito em seus olhos frios. Ele acenou com a cabeça, segurando a pasta firmemente. "Eu sei o que fazer," ele disse, e com um último olhar, desapareceu na escuridão da água, o barco partindo em alta velocidade.

Rafael se virou para enfrentar o último agressor, seu amigo a seu lado. A luta foi intensa, mas juntos, eles conseguiram dominar o homem. Quando o silêncio voltou a reinar no cais, apenas com o som das ondas, Rafael sabia que a sorte havia mudado. Ele não tinha as provas em mãos, mas as havia entregue a alguém que, por mais perigoso que fosse, trabalhava de forma profissional. A esperança era que o medo de Victor de ter seu esquema exposto fosse maior do que o medo de lidar com O Sombra. A noite em São Cristóvão havia sido um lembrete sombrio de que o caminho para a verdade era repleto de perigos, mas também de pequenas vitórias.

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