O Último Beijo II
O Último Beijo II
por Ana Clara Ferreira
O Último Beijo II
Autor: Ana Clara Ferreira
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Capítulo 16 — O Eco da Verdade em Lapa
A noite em Lapa era um convite à desordem. As ruas fervilhavam, um caldeirão de samba, risadas embriagadas e o cheiro inebriante de pastel e cerveja. Mas para Laura, a agitação era apenas um ruído de fundo para a tempestade que assolava seu interior. Sentada em uma mesa isolada em um bar modesto, com a luz fraca das lâmpadas pintando sombras longas em seu rosto, ela revivia cada palavra, cada ameaça. A confissão de Sérgio, no seu leito de hospital, havia sido como um balde de água fria, ou talvez, mais precisamente, um punhal gelado cravado em seu peito. Ele confessara, entre suspiros fracos e a respiração ofegante, que a morte de seu pai não fora um acidente. Fora orquestrada.
"Foi o Ricardo, Laura... ele sempre quis tudo... a empresa, o nome... o poder", ele murmurou, os olhos outrora vibrantes agora opacos e repletos de remorso. "Eu tentei impedir... mas ele me chantageou. Disse que te machucaria... que faria com você o que fez com o seu pai."
O peso daquelas palavras a sufocava. Ricardo. O homem que ela um dia amou, que prometera protegê-la, que parecia um porto seguro em meio às tempestades da vida. Agora, ele se revelava um monstro, um calculista implacável que brincava com a vida das pessoas como se fossem peças em um tabuleiro. A traição era um veneno lento, corroendo suas certezas, distorcendo as memórias, manchando tudo o que ela acreditava ser real.
O garçom se aproximou, um rapaz magro com um sorriso cansado. "Mais uma cerveja, moça?"
Laura balançou a cabeça. "Só a conta, por favor."
Ela precisava de clareza. Precisava juntar as peças desse quebra-cabeça cruel que Sérgio havia iniciado. O labirinto das provas em Santa Teresa, as sombras no cais de São Cristóvão, o medo em Copacabana, a armadilha no coração da cidade... tudo parecia convergir para ele. Para Ricardo.
Seu celular vibrou. Era uma mensagem de Marco.
“Laura, estou no hotel. Você vem? Precisamos conversar.”
Seu coração deu um salto. Marco. O homem que, apesar de tudo, mantinha um farol de esperança aceso em seu peito. Ele era a única pessoa em quem ela realmente confiava naquele momento.
“Estou em Lapa. Daqui a pouco chego.”
Ela pagou a conta e saiu do bar, mergulhando na noite vibrante, mas cada passo era pesado, carregado pela angústia. Lapa, com sua atmosfera boêmia e seus arcos icônicos, sempre fora um lugar de celebração para ela. Agora, parecia ecoar os gritos silenciosos de sua alma.
No hotel, Marco a esperava na suíte com uma expressão preocupada. Ele se levantou assim que a viu.
"Laura! Onde você esteve? Eu estava te ligando sem parar."
Ela se aproximou dele, buscando o calor de seu abraço. Marco a envolveu em seus braços, sentindo a tensão em seus ombros.
"Sérgio me contou tudo, Marco", ela sussurrou, a voz embargada.
Marco a afastou um pouco, olhando-a nos olhos, a preocupação se intensificando. "O quê? O que ele disse?"
Laura desabou em lágrimas, contando os detalhes da confissão de Sérgio. A morte do pai, a chantagem, o envolvimento de Ricardo. Cada palavra era uma tortura, um reconhecimento da escuridão que se abatia sobre sua vida.
Marco ouviu em silêncio, seu rosto impassível, mas seus olhos traíam a raiva que se acumulava. Quando ela terminou, ele a abraçou novamente, forte.
"Eu sinto muito, Laura. Sinto muito que você tenha que passar por isso. Mas não se preocupe. Nós vamos descobrir a verdade. E Ricardo vai pagar por tudo."
Ele a levou até o sofá, sentando-se ao seu lado e segurando suas mãos. "Precisamos ser inteligentes. Sérgio ainda está debilitado. Ele pode não ser capaz de te dar todos os detalhes. Precisamos de mais provas. Algo que ligue Ricardo diretamente à morte do seu pai."
Laura assentiu, tentando controlar as lágrimas. "Mas como? Ele é tão cuidadoso. Tão esperto."
"Nós vamos encontrar uma brecha. Sempre existe uma brecha", Marco disse, com determinação. "Lembre-se do que encontramos no escritório do seu pai. As notas, os relatórios financeiros. Talvez ali haja algo que ele negligenciou."
Eles passaram o resto da noite debruçados sobre os documentos que Laura havia trazido de casa. As planilhas, os contratos, os e-mails trocados entre seu pai e os executivos da empresa. A cada linha, a cada número, uma nova peça do quebra-cabeça se encaixava, revelando um esquema de desvio de verbas, de acordos obscuros, de pressões financeiras que haviam levado seu pai a uma situação desesperadora.
"Olha isso, Marco", Laura apontou para um relatório. "Esse contrato com a empresa offshore... meu pai nunca confiaria numa empresa assim. E os pagamentos... são enormes."
Marco analisou o documento com atenção. "Essa empresa offshore... é ligada a um dos associados de Ricardo. Sérgio mencionou isso, não foi? Algo sobre 'contas no exterior'."
A esperança começou a reacender em seus corações, um pequeno raio de sol rompendo a escuridão. Havia um rastro. Um rastro que, se bem seguido, poderia levar à justiça que tanto almejavam.
"Precisamos investigar essa empresa offshore mais a fundo", Marco disse, seus olhos brilhando com a caça. "E precisamos de alguém de dentro. Alguém que possa nos dar acesso aos registros, aos detalhes dos pagamentos."
Laura pensou em quem poderia confiar. Seus colegas de trabalho estavam todos sob a influência de Ricardo. Seus amigos mais próximos, ela não queria envolvê-los nesse perigo. Mas havia uma pessoa... a secretária de seu pai, Dona Lurdes. Uma mulher discreta, leal, que trabalhava com ele há mais de vinte anos.
"Dona Lurdes", Laura disse. "Ela pode saber de alguma coisa. Ela era muito ligada ao meu pai."
Marco concordou. "É um risco, mas pode ser nossa melhor chance. Amanhã, nós a procuramos. Mas com discrição. Muito cuidado."
Ao amanhecer, a cidade começava a despertar, e com ela, uma nova determinação em Laura. A noite em Lapa, com sua música e sua alegria superficial, havia sido o palco para a descoberta de uma verdade dolorosa, mas também o ponto de partida para a luta pela justiça. Ela não estava mais sozinha. Tinha Marco ao seu lado, e uma pista. E isso, naquele momento, era tudo o que ela precisava para continuar.