O Último Beijo II
Capítulo 17 — O Encontro Sombrio na Gávea
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 17 — O Encontro Sombrio na Gávea
A brisa suave do fim de tarde acariciava as árvores centenárias da Gávea, mas o peso no ar parecia adensar-se a cada quilômetro que Laura e Marco percorriam. A mansão dos Vasconcelos, uma construção imponente e discreta, erguia-se no alto de uma colina, guardando segredos em seus muros de pedra e em seus jardins imaculados. Era ali, naquele refúgio de luxo e poder, que o cerne da teia de Ricardo parecia estar escondido.
"Tem certeza que Dona Lurdes aceitou se encontrar conosco aqui?", Marco perguntou, a voz baixa, enquanto o carro subia a alameda arborizada.
Laura apertou a bolsa em seu colo. "Ela disse que era o único lugar onde se sentiria segura para falar. Algo sobre não querer ser vista, ouvida, em nenhum lugar que pudesse ser facilmente monitorado." A preocupação em sua voz era palpável. O receio de que Dona Lurdes estivesse sendo manipulada ou coagida por Ricardo era real.
Ao chegarem, a mansão parecia em silêncio. Um mordomo impecavelmente vestido os recebeu na porta, seus olhos frios e avaliadores. Ele os conduziu a uma sala de estar suntuosa, onde a luz dourada do sol poente banhava os móveis antigos e as obras de arte. Dona Lurdes estava sentada em uma poltrona de veludo, encolhida, seus olhos marejados e sua pele pálida como cera.
"Dona Lurdes", Laura se aproximou, a voz cheia de ternura. "Que bom que a senhora veio."
Dona Lurdes esboçou um sorriso fraco, mas seus olhos não demonstravam alívio. Ela olhou para Marco, com uma expressão de cautela.
"Este é Marco, Dona Lurdes. Um amigo. Ele está nos ajudando a descobrir a verdade sobre meu pai."
Marco estendeu a mão para ela, com um gesto gentil. "É uma honra conhecê-la, Dona Lurdes. Laura me falou muito sobre a sua lealdade ao Sr. Almeida."
A secretária hesitou por um momento, mas o olhar sincero de Marco pareceu acalmá-la. Ela apertou sua mão brevemente. "Eu... eu não sei se posso ajudar muito. Eu sou apenas uma secretária."
"Qualquer informação é valiosa, Dona Lurdes", Laura insistiu, sentando-se ao lado dela. "Sérgio me contou que meu pai não morreu de causas naturais. Que foi armado. E que Ricardo esteve envolvido."
O nome "Ricardo" fez Dona Lurdes estremecer. Ela olhou em volta, como se temesse ser ouvida. "O Sr. Ricardo... ele sempre foi um homem perigoso. Muito ambicioso. Ele manipulava o Sr. Almeida, pressionava-o de todas as formas."
"Ele chantageou Sérgio, Dona Lurdes", Laura disse, a voz tensa. "Disse que machucaria a mim se Sérgio não fizesse o que ele mandava. E isso começou com a morte do meu pai."
Os olhos de Dona Lurdes se encheram de lágrimas. "Eu vi coisas, menina. Ouvi conversas. O Sr. Ricardo vinha muito aqui em casa, mesmo depois que o Sr. Almeida... mesmo depois que ele se foi. Ele parecia querer ter controle sobre tudo."
"Ele se apoderou da empresa, Dona Lurdes", Laura completou. "E ele estava desviando dinheiro. Sérgio me disse sobre empresas offshore..."
"Sim! Empresas offshore!", Dona Lurdes exclamou, a voz ganhando um tom de urgência. "Eu vi o Sr. Ricardo falando ao telefone com um homem que ele chamava de 'Conselheiro'. E mencionavam nomes de empresas, como 'Blue Horizon' e 'Global Trust'. Eram sempre em sigilo, em voz baixa. E eu via o Sr. Almeida muito angustiado depois dessas ligações."
Laura e Marco se entreolharam. Aqueles nomes eram familiares. Eram os nomes das empresas offshore que haviam aparecido nos relatórios.
"E o Sr. Almeida... ele parecia saber que algo de errado estava acontecendo?", Marco perguntou, a mente trabalhando a mil.
Dona Lurdes balançou a cabeça. "Ele estava muito preocupado. Uma vez, ele me pediu para organizar todos os documentos financeiros, os contratos mais importantes. Ele disse que precisava ter tudo em ordem, caso... caso algo acontecesse. Ele estava desconfiado. Mas eu não sabia de quê."
Ela tirou um pequeno envelope de sua bolsa. "Eu guardei algumas coisas. Cartas, anotações que o Sr. Almeida me deu. Eu não entendia na época, mas agora... agora eu acho que pode ser importante."
Laura pegou o envelope com as mãos trêmulas. Dentro, havia papéis amarelados, com anotações feitas à mão pelo pai. Uma delas continha uma sequência de números e letras que pareciam um código.
"O que é isso?", Laura perguntou, confusa.
"Eu não sei. Ele me disse para guardar, e se algo acontecesse a ele, para entregar a alguém de confiança. Ele nunca disse a quem." Dona Lurdes olhou para Laura, e em seus olhos havia um reconhecimento, uma esperança silenciosa. "Eu acho que ele queria que você tivesse isso."
Marco pegou o papel com a sequência de números e letras. "Isso pode ser uma chave. Uma senha. Talvez para um arquivo digital, ou para uma conta."
A conversa continuou por mais um tempo, Dona Lurdes compartilhando suas observações, suas suspeitas, fragmentos de conversas ouvidas. Ela descreveu a impaciência de Ricardo, seu jeito autoritário, como ele parecia sempre ter um plano, uma saída. A cada palavra, a imagem do homem que Laura um dia amou desmoronava ainda mais, dando lugar a um retrato sombrio e calculista.
Quando saíram da mansão, o sol já havia se posto completamente, e a lua cheia iluminava o céu de forma espetacular. Mas a beleza da noite não conseguia dissipar a escuridão que pairava sobre eles. A informação de Dona Lurdes era crucial, mas também perigosa. Ricardo estava perto, e ele não hesitaria em silenciar qualquer um que se colocasse em seu caminho.
"Precisamos decifrar esse código, Marco", Laura disse, a voz firme. "E precisamos investigar essas empresas 'Blue Horizon' e 'Global Trust'. Dona Lurdes nos deu a direção."
Marco concordou, seus olhos fixos na estrada à frente. "E precisamos ter cuidado. Ricardo sabe que estamos investigando. Ele vai tentar nos parar."
O caminho de volta para o hotel foi em silêncio, cada um imerso em seus pensamentos. A verdade, que antes parecia inalcançável, agora se mostrava mais próxima, mas também mais perigosa. A Gávea, com sua beleza serena, havia sido o palco de um encontro sombrio, onde os ecos do passado ressurgiram, impulsionando Laura e Marco em sua busca implacável pela justiça. O jogo estava se intensificando, e as apostas, mais altas do que nunca.