O Último Beijo II
Capítulo 2 — A Sombra do Passado em São Conrado
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 2 — A Sombra do Passado em São Conrado
O vento forte que soprava da Barra da Tijuca, carregando o cheiro salgado do mar e a adrenalina dos surfistas, parecia ecoar a agitação que tomava conta de Helena. A notícia da vinda de Rafael não era apenas um burburinho; era um furacão que ameaçava desmantelar a fortaleza de controle que ela havia construído ao redor de seu coração. A mostra de arte, um evento de proporções internacionais, seria realizada no Museu de Arte Moderna, mas o jantar de recepção organizado pela embaixada francesa seria em um local de altíssimo padrão: um salão exclusivo nos altos de São Conrado, com vista panorâmica da Pedra da Gávea e do oceano Atlântico. Um cenário que evocava a grandiosidade e a paixão que marcaram o início de seu relacionamento com Rafael.
Ela se olhava no espelho, tentando encontrar a mulher que Rafael havia amado. Seus olhos verdes, antes cheios de um brilho vibrante, agora carregavam uma sombra de preocupação. O vestido escolhido era um modelo de seda azul-marinho, elegante e discreto, mas que de alguma forma parecia sublinhar a sua fragilidade.
“Você está linda, Helena,” disse Sofia, sua melhor amiga e sócia na galeria, enquanto ajustava um brinco de pérolas que Helena usava. Sofia, com seus cabelos curtos e rebeldes e um sorriso sempre à flor da pele, era o contraponto perfeito para a introspecção de Helena.
“Linda, mas nervosa,” Helena admitiu, desviando o olhar do reflexo. “Será que ele vai me reconhecer? Será que ele vai… gostar do que vê?”
Sofia a abraçou com força. “Bobagem! Ele vai te ver e vai lembrar porque você é a Helena. A mulher que o inspirou, a mulher que ele nunca deveria ter deixado ir.” Ela se afastou, os olhos brilhando de convicção. “E sobre não gostar do que vê… você é uma das mulheres mais deslumbrantes que eu conheço, Helena. E você tem um brilho próprio, que vem de dentro. Ele não vai esquecer isso.”
“E se ele tiver esquecido?”, Helena sussurrou, a dúvida corroendo sua esperança. “Se ele seguiu em frente, se ele está com outra pessoa que o faz feliz… e eu, aqui, revivendo um fantasma?”
“O fantasma pode ter a forma de um futuro, Helena. Você não sabe o que vai acontecer. O que você sabe é que ele está vindo, e que você tem a chance de encontrá-lo. E mais importante: de se encontrar novamente. De se perdoar por ter deixado o amor ir embora com ele.”
O jantar estava prestes a começar quando Helena chegou a São Conrado. O local era deslumbrante. Luzes baixas, música clássica suave, taças de champanhe tilintando e o burburinho elegante de convidados impecáveis. Monsieur Dubois a recebeu com um sorriso cordial e a apresentou a alguns dos convidados mais influentes do mundo das artes. Helena, apesar do nervosismo, conseguia manter a compostura, respondendo com inteligência e elegância às perguntas sobre arte e a cena cultural brasileira.
Mas seu coração batia descompassado. Cada porta que se abria, cada sombra que se movia, a fazia prender a respiração. Ela estava ali, em solo carioca, a poucos metros de distância do homem que havia moldado seus sonhos e suas dores por cinco longos anos.
E então, ele entrou.
O tempo pareceu parar. O burburinho da festa silenciou para Helena. Rafael. Ele estava mais alto, com alguns fios grisalhos surgindo nas têmporas, mas seu olhar, ah, aquele olhar! Os mesmos olhos azuis profundos, que pareciam carregar a imensidão do oceano, encontraram os dela. Um instante de reconhecimento, de choque, de saudade. Aquele olhar que a fazia sentir-se vista, amada, completa.
Ele parou por um segundo, o sorriso leve que se formava em seus lábios se desfez em surpresa. Helena sentiu um calor subir pelo pescoço até o rosto. Era como se o mundo inteiro tivesse desaparecido, restando apenas os dois ali, presos em um momento que transcendia o tempo.
Monsieur Dubois, percebendo a comoção silenciosa, aproximou-se. “Senhor Almeida, que bom que chegou! Permita-me apresentar a uma das figuras mais importantes do cenário artístico carioca, a senhorita Helena Dantas.”
Rafael estendeu a mão para Helena, seus dedos se encontraram em um aperto rápido, mas que enviou uma corrente elétrica pelo corpo dela. “Helena. Você está… deslumbrante.” Sua voz era rouca, um pouco mais grave do que ela se lembrava, mas carregava a mesma melodia que a encantava.
“Rafael,” ela conseguiu responder, sua voz um sussurro embargado. “Que bom que você veio.”
O olhar dele percorreu seu rosto, como se estivesse tentando decifrar uma pintura complexa. Havia uma mistura de fascínio e… algo mais. Uma dor antiga? Uma dúvida?
“Eu também fico feliz em estar aqui, Helena,” disse ele, a voz um pouco mais firme. Ele tirou os olhos dos dela por um instante, voltando-se para Monsieur Dubois. “Obrigado pela recepção, Monsieur Dubois. E obrigado, Helena, por ter aceitado vir.”
A conversa fluiu, formal, educada, cheia de rodeios. Falaram sobre a exposição, sobre a cena artística em Paris e no Rio, sobre a importância da arte para a conexão entre culturas. Mas por baixo da superfície polida, Helena sentia as correntes de emoção se chocando. Cada palavra, cada gesto, era carregado de significados não ditos.
Enquanto conversavam, um homem de aparência distinta, com um brilho de ambição nos olhos, aproximou-se. Ele se apresentou como Victor, um colecionador de arte influente, conhecido por seu faro para talentos emergentes.
“Senhor Almeida, é uma honra finalmente conhecê-lo,” disse Victor, com um sorriso largo. “Seu trabalho em Paris tem sido comentado por todos. E esta exposição aqui no Rio… será um marco.” Ele lançou um olhar de admiração para Helena. “E a senhorita Dantas, uma grande conhecedora, não é mesmo? Tenho acompanhado o trabalho dela na galeria, sempre com um olhar impecável.”
Rafael assentiu, um leve sorriso nos lábios. “Helena sempre teve um talento especial para a arte. E para ver o que os outros não veem.”
O elogio, vindo dele, soou em Helena como um eco distante de um tempo em que suas palavras tinham um peso diferente. Ela se sentiu exposta, vulnerável.
Mais tarde, durante o jantar, Helena se viu sentada a uma mesa próxima à de Rafael. Ela observava de relance, tentando captar qualquer sinal, qualquer pista de seus pensamentos. Ele estava conversando animadamente com um grupo de críticos de arte, seus gestos expressivos, sua paixão pela arte transbordando. Mas, em alguns momentos, seu olhar vagava, e ela sentia que ele estava, de alguma forma, procurando por ela.
Sofia se inclinou em sua direção. “Ele está te olhando, Helena.”
Helena desviou o olhar rapidamente, o coração acelerado. “Não exagere, Sofia.”
“Não estou exagerando! Ele olha para você como um artista olha para sua obra-prima. Com admiração, com desejo, com um toque de arrependimento.”
O comentário de Sofia, embora leviano, acertou em cheio. Arrependimento. Era isso que ela via nos olhos dele? Ou era apenas sua própria esperança projetando-se em seu olhar?
Ao final da noite, enquanto os convidados começavam a se dispersar, Helena se viu novamente perto de Rafael. Ele estava sozinho por um momento, contemplando a vista noturna de São Conrado.
“A vista é linda,” Helena disse, aproximando-se dele.
Rafael virou-se, um leve sorriso melancólico em seus lábios. “Sim. Tão linda quanto a que tínhamos em nosso terraço em Santa Teresa.”
O tom de sua voz, a menção a Santa Teresa, o lugar onde eles compartilharam tantos momentos íntimos, fez o coração de Helena apertar. Era uma confissão silenciosa, uma ponte que ele estava construindo de volta para o passado.
“Lembro-me perfeitamente,” ela respondeu, a voz suave. “Você costumava pintar o pôr do sol de lá, disse que era a sua muse.”
“Você era a minha musa, Helena. E ainda é.”
As palavras pairaram no ar, carregadas de uma intensidade que fez Helena sentir um nó na garganta. Era um convite? Uma declaração? Ou apenas a lembrança de um amor que um dia foi real?
“Rafael, eu…” Ela hesitou, sem saber o que dizer. O turbilhão de emoções era avassalador.
Ele deu um passo em sua direção, a distância entre eles diminuindo. O brilho de seus olhos azuis parecia mais intenso na penumbra. “Eu senti sua falta, Helena.”
O “eu senti sua falta” ecoou em sua alma, acendendo uma chama que ela pensava ter sido extinta para sempre. A promessa quebrada, a distância, o tempo… tudo parecia se dissolver diante da sinceridade em seus olhos.
“Eu também senti a sua, Rafael.” A confissão saiu em um sussurro, sincera e dolorida.
Naquele momento, cercados pela beleza estonteante do Rio de Janeiro à noite, e sob o olhar atento e cúmplice de um passado que os unia, Helena sentiu que o último beijo não havia sido, de fato, o último. Era apenas uma pausa. Uma pausa dolorosa, mas que agora, com a volta dele, parecia prestes a ser preenchida. A sombra do passado havia retornado, mas trazia consigo a promessa de um novo amanhecer. O jogo do amor, que parecia ter chegado ao fim, estava apenas recomeçando, com regras incertas e um futuro imprevisível.