O Último Beijo II

Capítulo 8 — A Verdade Fragmentada em Santa Teresa

por Ana Clara Ferreira

Capítulo 8 — A Verdade Fragmentada em Santa Teresa

O casarão em Santa Teresa, com sua arquitetura colonial e o cheiro doce das buganvílias, parecia um refúgio de paz, um lugar onde os segredos poderiam ser revelados sem o peso do julgamento do mundo. Mas para Ana Clara, a visita à casa de Rafael se tornara um campo minado, cada passo dado com cautela, cada olhar trocado carregado de significados ocultos. Ela estava ali por insistência de Miguel, que acreditava que a única maneira de desvendar o enigma de Isabella era confrontando Rafael diretamente.

Ele a esperava na sala de estar, banhada pela luz dourada que entrava pelas janelas altas. Rafael parecia mais pálido do que o normal, uma sombra de sua antiga jovialidade, os olhos carregando um cansaço que Ana Clara não reconhecia.

“Ana Clara,” ele disse, a voz suave, mas com um tom de apreensão. “Eu não esperava te ver aqui hoje.”

Ela sentou-se em uma poltrona de veludo, a carta de dona Helena em suas mãos, o papel amassado como seu coração. “Rafael, nós precisamos conversar.”

Ele a observou, a angústia em seu olhar crescendo a cada segundo. “Eu sei. Miguel me contou. Ele disse que você recebeu uma carta da minha mãe.”

Ana Clara assentiu, o nó em sua garganta se apertando. “Uma carta que me disse que você está noivo de uma mulher chamada Isabella.”

O rosto de Rafael empalideceu ainda mais. Ele desviou o olhar, a dificuldade em encarar Ana Clara evidente. “Ana Clara, por favor, me deixe explicar.”

“Explicar o quê, Rafael?” a voz dela tremeu. “Explicar como você pôde me prometer o mundo e, ao mesmo tempo, ter outra mulher esperando por você? Explicar como sua mãe pode escrever algo assim?”

Rafael fechou os olhos, um suspiro pesado escapando de seus lábios. Ele finalmente a encarou, a dor em seus olhos espelhando a dela. “A carta… não é bem assim. A história é mais complicada do que parece.”

Ele começou a contar, a voz embargada pela emoção. Dona Helena, sua mãe, estava doente, muito doente. Em um momento de delírio febril, ela havia falado sobre Isabella, uma antiga paixão de Rafael, um amor de juventude que ele havia deixado para trás anos atrás. Naquele estado de fragilidade, Helena acreditava que Isabella ainda fazia parte da vida de Rafael, e escreveu a carta com essa convicção equivocada.

“Isabella não existe mais para mim, Ana Clara,” Rafael disse, a voz embargada. “Ela se casou com outro homem há muito tempo. Eu a amei, sim, mas isso é passado. O meu presente, o meu futuro… é você.”

Ana Clara o ouviu em silêncio, as lágrimas silenciosamente escorrendo por seu rosto. A explicação de Rafael era plausível, mas a dúvida, como um parasita, ainda se agarrava a ela. “Mas a carta, Rafael… ela parecia tão real. Tão detalhada.”

Rafael pegou a carta de suas mãos, o papel vibrando com a força de suas emoções. “Minha mãe está passando por um momento muito difícil. Ela sofre de lapsos de memória, confunde o passado com o presente. A doença a afeta de maneiras que nem eu compreendo totalmente.”

Ele olhou em seus olhos, a súplica estampada em seu rosto. “Ana Clara, eu te amo. Eu nunca te mentiria. Aquele beijo em Copacabana, a promessa… tudo aquilo era real. Eu quero um futuro com você, um futuro onde não haja segredos, onde não haja dúvidas.”

Ana Clara sentiu uma pontada de esperança, mas a desconfiança ainda a assombrava. A imagem da carta, escrita com a própria mão de dona Helena, era difícil de apagar. “Mas e se for outra coisa, Rafael? E se houver algo que você não está me contando?”

“Não há, Ana Clara,” ele insistiu, a voz firme. “Eu juro pela minha vida. A única pessoa que eu amo é você. A carta foi um equívoco terrível, um reflexo da doença da minha mãe.”

De repente, um barulho na porta chamou a atenção deles. Era Miguel, que havia esperado do lado de fora, tenso com o desenrolar da conversa. Ele entrou na sala, o olhar fixo em Rafael.

“Eu queria ter certeza de que você estava dizendo a verdade, Rafael,” Miguel disse, a voz neutra.

Rafael o encarou. “Eu estou, Miguel. E eu espero que Ana Clara acredite em mim.”

Ana Clara olhou de Rafael para Miguel, seus corações batendo em uníssono com a incerteza. A verdade, ela percebeu, era fragmentada, como um espelho quebrado, com cada pedaço refletindo uma imagem distorcida. Ela amava Rafael, sentia isso em cada fibra de seu ser, mas a desconfiança, alimentada pela carta misteriosa, era uma sombra persistente.

“Eu… eu preciso de tempo, Rafael,” ela finalmente disse, a voz frágil. “Preciso pensar. Preciso entender tudo isso.”

Rafael assentiu, a compreensão em seus olhos. “Eu entendo. Mas saiba que eu estarei aqui, esperando por você. E nunca deixarei de te amar.”

Enquanto Ana Clara deixava o casarão em Santa Teresa, a luz do sol parecia ter perdido seu brilho. A verdade, embora mais clara, ainda era envolta em um véu de incerteza. O enigma de Isabella havia sido, em parte, desvendado, mas o eco das dúvidas e o peso das promessas ainda pairavam sobre seu coração, em uma dança melancólica entre o amor e a desconfiança.

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