Amor Proibido II
Amor Proibido II
por Ana Clara Ferreira
Amor Proibido II
Autor: Ana Clara Ferreira
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Capítulo 11 — A Tempestade que Se Avizinha
O ar em Porto Alegre parecia impregnado de uma eletricidade palpável, não apenas pela brisa fria que anunciava o outono, mas pela tensão crescente que emanava dos corredores da mansão dos Almeida. Helena, com seus olhos que pareciam carregar o peso de mil tristezas, observava a chuva fina beijar as vidraças da biblioteca. Cada gota que escorria parecia um espelho para as lágrimas que ela se recusava a derramar. Aquele lugar, outrora refúgio de estudos e de momentos roubados com Miguel, agora era um palco mudo de memórias que a assombravam.
Desde o retorno de Miguel, a atmosfera em sua vida se tornara sufocante. A aproximação dele, ainda que cautelosa, era um fio de navalha que ameaçava romper o frágil equilíbrio que ela tentava manter. A presença de Sofia, a sombra persistente que pairava entre eles, era um lembrete constante do abismo que os separava. Helena sentia-se como uma mariposa atraída pela chama, sabendo do perigo, mas incapaz de se afastar.
Naquela tarde, Miguel a encontrara na biblioteca, como se a reconhecesse instintivamente. Ele permaneceu na soleira da porta, o olhar fixo em seus cabelos escuros que caíam em cascata sobre os ombros. A sala, antes vibrante com a energia de seus encontros clandestinos, agora parecia fria e silenciosa.
“Helena,” a voz dele, rouca e familiar, quebrou o silêncio. Era um som que a fazia estremecer, um eco de um passado que ela lutava para enterrar.
Ela se virou lentamente, o coração disparado no peito. A visão dele, impecável em um terno escuro, com o cabelo levemente desalinhado pela umidade, era um golpe visual que a deixava sem fôlego. Havia algo nos olhos dele, uma mistura de melancolia e desejo contido, que espelhava o que ela sentia.
“Miguel,” ela respondeu, a voz mal um sussurro. Cada sílaba parecia carregar um universo de sentimentos não expressos.
Ele deu um passo hesitante para dentro da sala, o ranger do assoalho de madeira soando alto demais no silêncio. Seus olhos percorreram o ambiente, como se buscassem vestígios do tempo em que estiveram ali juntos, sorrindo, planejando um futuro que nunca chegou.
“Você parece… distante,” ele disse, a observação carregada de uma sutileza que só ele possuía.
Helena deu de ombros, um gesto estudado para disfarçar a turbulência interna. “A vida segue, Miguel. O tempo não espera por ninguém.”
“Mas algumas coisas… algumas conexões… elas parecem desafiar o tempo, não é?” Ele se aproximou um pouco mais, o espaço entre eles diminuindo perigosamente. O perfume sutil dele, uma mistura de sândalo e algo mais inebriante, a envolveu, reacendendo memórias adormecidas.
Ela se forçou a manter a compostura, a armadura de frieza que vinha construindo há tanto tempo. “Talvez. Mas também há coisas que o tempo se encarrega de apagar, de diluir, até que não reste nada além de uma lembrança distante.”
Um leve sorriso melancólico tocou os lábios de Miguel. “Você sempre foi boa com as palavras, Helena. Mas às vezes, as palavras não são suficientes para expressar o que realmente sentimos.” Ele parou a poucos passos dela, a intensidade do olhar quase insuportável. “Eu… eu sinto sua falta.”
A confissão, dita em voz baixa, atingiu Helena como uma onda. O baque surdo de seu coração ecoou em seus ouvidos. Ela desviou o olhar, encarando a chuva que agora caía com mais força, o barulho incessante quase abafando os batimentos frenéticos de seu peito.
“Miguel, você não pode fazer isso,” ela sussurrou, a voz embargada pela emoção. “Não pode vir aqui, depois de tudo, e dizer essas coisas. Nós… nós não somos mais os mesmos.”
“E quem disse que eu quero que sejamos os mesmos?” Ele deu mais um passo, o toque de sua mão em seu braço a fez sobressaltar. A pele dele estava quente contra a sua, um contraste agudo com o frio que ela sentia por dentro. “Talvez eu queira um novo começo. Um recomeço para nós.”
O toque dele enviou um arrepio por todo o seu corpo. Ela se afastou, a repulsa que sentia por si mesma por reagir tão intensamente sendo maior do que qualquer outra coisa. “Um recomeço? Com Sofia ao seu lado? Com o fantasma do que aconteceu entre nós pairando sobre tudo?” A voz dela ganhou um tom de amargura. “Você não tem o direito de me oferecer um recomeço, Miguel. Você destruiu o meu.”
A menção de Sofia atingiu Miguel como um golpe. A sombra nos olhos dele se aprofundou, a dor antiga ressurgindo. Ele sabia que Helena tinha razão. A culpa pesava em seus ombros como uma âncora.
“Eu sei que errei, Helena. Sei que a feri. Mas eu não podia te deixar ir para sempre.” Ele respirou fundo, o peito expandindo-se. “Sofia e eu… nossa situação é complicada. Mas não é o que você pensa. Não é o que eu quero.”
“E o que você quer, Miguel?” A voz dela estava carregada de sarcasmo, mas por baixo dela, havia uma esperança perigosa que ela tentava sufocar. “Você quer brincar de desgraça alheia? Quer reviver um romance que foi feito para ser passageiro, esquecido?”
Ele a segurou pelos ombros, o toque agora mais firme, desesperado. “Não! Helena, olhe para mim.” Ele a forçou a encará-lo, seus olhos azuis profundos fixos nos dela, procurando algo que pudesse redimir a si mesmo. “Eu te amo. Eu nunca deixei de te amar. E o que tivemos… não foi passageiro. Foi real. Foi a única coisa real na minha vida.”
As palavras dele ressoavam na mente de Helena, um eco de um passado que a consumia. Ela via a sinceridade em seus olhos, a dor genuína, mas as cicatrizes de sua alma eram profundas. Ela se lembrou da humilhação, da solidão, do vazio que ele deixou quando partiu.
“Amor? Você fala de amor quando vive uma mentira com outra mulher?” A voz dela vacilou. “O seu amor não me salvou, Miguel. Ele me destruiu. E eu não estou disposta a ser destruída novamente.”
Ela se soltou dele, recuando para longe, o corpo tremendo. A tempestade lá fora parecia refletir a tempestade em seu interior. A biblioteca, outrora um santuário, agora era um campo de batalha de emoções.
“Por favor, Miguel. Vá embora.”
O desespero tomou conta do rosto de Miguel. Ele sabia que havia destruído a confiança dela, que a dor que ele causou era um muro quase intransponível. Mas ele não podia desistir. Não agora.
“Helena, eu vou reconquistar você. Eu juro. Eu vou provar que o meu amor por você é verdadeiro. E que vale a pena lutar por ele.” Ele se aproximou um pouco mais, a esperança em sua voz quase palpável. “Me dê uma chance. Apenas uma chance.”
Ela fechou os olhos, respirando fundo, tentando controlar a onda de sentimentos que ameaçava arrastá-la para longe. A tentação de ceder era imensa, um chamado antigo que ecoava em sua alma. Mas a razão, fria e dura, a mantinha ancorada.
“Não há mais chances, Miguel,” ela disse, a voz firme, mas com uma tristeza subjacente. “Algumas portas, uma vez fechadas, devem permanecer assim. Por nosso próprio bem.”
Ele a observou por um longo momento, o rosto contraído pela dor e pela resignação. A chuva batia com força contra o vidro, o som uma sinfonia de desespero. Ele sabia que a batalha seria longa e árdua, mas a imagem dos olhos de Helena, cheios de mágoa e de uma beleza que o assombrava, o impedia de desistir.
“Eu não vou desistir de você, Helena,” ele murmurou, mais para si mesmo do que para ela.
Com um último olhar, ele se virou e saiu da biblioteca, deixando Helena sozinha em meio aos fantasmas do passado e à tempestade que se avizinhava. Ela se encostou na estante fria, as lágrimas finalmente rolando pelo seu rosto, um rio de dor e de saudade que a consumia. A porta se fechara, mas as memórias, essas, ainda insistiam em permanecer. A tempestade, tanto externa quanto interna, estava apenas começando.