Amor Proibido II
Capítulo 7 — A Sombra de Sofia
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 7 — A Sombra de Sofia
Os dias que se seguiram ao encontro chuvoso no Arpoador foram um teste de força de vontade para Isabella. Ela se dedicava freneticamente ao trabalho, mergulhando em plantas, maquetes e prazos, buscando refúgio na lógica e na objetividade da arquitetura. Cada linha traçada, cada cálculo feito, era uma tentativa de impor ordem ao caos que se instalara em sua vida. Rafael era uma presença constante em seus pensamentos, um fantasma que se manifestava em cada esquina, em cada som de celular, em cada lembrança inesperada. A imagem dele em seu escritório, com o olhar carregado de desejo e desespero, martelava em sua mente.
Ela sabia que tinha feito a coisa certa. O afastamento era necessário, a decisão correta para proteger a si mesma e, principalmente, para evitar o sofrimento de outros. No entanto, a dor da renúncia era aguda, um vazio persistente que nem o sucesso profissional conseguia preencher. As noites eram as mais difíceis, as horas em que o silêncio se tornava ensurdecedor e as lembranças, insistentes. Ela se pegava revivendo o toque sutil dos dedos dele na mesa, a intensidade de seu olhar, as palavras sussurradas que a fizeram questionar tudo.
Um convite inesperado chegou ao seu escritório na terça-feira à tarde. Era de Sofia, a esposa de Rafael. Uma elegante nota em papel timbrado, convidando-a para um evento beneficente em prol de uma fundação de apoio a crianças carentes, que ocorreria no sábado seguinte. Isabella sentiu um frio na barriga. Sofia era uma figura que, até então, existia apenas em sua imaginação e em breves encontros sociais. Agora, ela a convidava para um evento, demonstrando uma aparente cordialidade que a deixava desconfortável.
“O que você acha, Lúcia?”, perguntou Isabella à sua assistente, entregando o convite com as mãos um pouco trêmulas. “Devo ir?”
Lúcia, uma mulher pragmática e observadora, analisou o convite. “É um evento importante, Isabella. Para caridade. E Sofia Drummond é uma figura influente. Ignorar o convite pode ser mal interpretado.”
Isabella suspirou. Lúcia tinha razão. Recusar poderia parecer rude, e ela não queria atrair mais atenção desnecessária. “Tudo bem. Eu vou. Mas eu não sei como vou encarar a Sofia.”
A noite do evento chegou, e Isabella se arrumou com uma apreensão crescente. Escolheu um vestido azul marinho discreto, mas elegante, que realçava seus olhos. Sentia-se como uma atriz em um palco, prestes a desempenhar um papel que não dominava. Ao chegar ao salão suntuoso, a música clássica suave e o burburinho elegante dos convidados a envolveram. O local era ricamente decorado, com arranjos florais exuberantes e obras de arte expostas.
Ela se moveu com cautela, tentando se misturar à multidão, mas sentia os olhares curiosos sobre si. De repente, uma voz melodiosa e calorosa a tirou de seu estado de alerta.
“Isabella? Que bom que você pôde vir! Eu sou Sofia Drummond.”
Isabella virou-se e encontrou um sorriso radiante. Sofia era exatamente como ela imaginara, e ao mesmo tempo, surpreendentemente diferente. Era alta, esguia, com cabelos escuros emoldurando um rosto de traços delicados. Seus olhos, de um verde penetrante, irradiavam uma inteligência e uma simpatia genuínas. Ela usava um vestido de seda dourada que a fazia brilhar. A presença de Sofia era imponente, mas desprovida de qualquer traço de arrogância.
“Senhora Drummond, o prazer é meu”, respondeu Isabella, tentando manter a voz firme. “Obrigada pelo convite. É uma causa nobre.”
Sofia a pegou gentilmente pelo braço. “Por favor, me chame de Sofia. E é um prazer imenso ter você aqui. Eu admiro muito o seu trabalho. Ouvi falar muito bem da sua visão arquitetônica.”
As palavras de elogio, tão inesperadas e sinceras, desarmaram Isabella. Ela sentiu um alívio inesperado. Talvez a culpa a tivesse feito idealizar Sofia como uma rival a ser temida, mas a mulher à sua frente parecia apenas uma anfitriã cordial e genuína.
“Obrigada, Sofia. Fico lisonjeada. Eu admiro muito o seu trabalho com essa fundação. É inspirador.”
Enquanto conversavam, Isabella tentava discretamente varrer o salão com o olhar, em busca de Rafael. Uma parte dela ansiava por vê-lo, outra temia o confronto, o reencontro sob os olhos da esposa. A possibilidade de que ele também estivesse presente adicionava uma camada extra de ansiedade à sua noite.
Sofia, percebendo o olhar disperso de Isabella, perguntou: “Você está procurando alguém?”
Isabella corou levemente. “Não, apenas… apreciando o ambiente.”
Sofia sorriu, compreensiva. “Este evento é sempre um sucesso. Rafael, meu marido, está logo ali, cumprimentando alguns convidados.” Ela apontou discretamente para um grupo de homens em um canto do salão.
O coração de Isabella deu um salto doloroso. Lá estava ele. Vestido em um terno escuro impecável, a postura confiante, o sorriso elegante que ela conhecia tão bem. Ele parecia alheio à sua presença, imerso em sua vida de empresário bem-sucedido. Ver Rafael ao lado de Sofia, em um ambiente social, a fez sentir uma pontada de dor e um frio na barriga. A realidade da situação dela se tornou mais dura e palpável.
“Ele é um ótimo marido, sabe?”, disse Sofia, como se pudesse ler os pensamentos de Isabella. “Sempre me apoia em tudo que faço. Tenho muita sorte.”
As palavras atingiram Isabella como um golpe. A ingenuidade, a felicidade estampada no rosto de Sofia, a tornavam um alvo ainda mais cruel. Isabella sentiu uma onda de náusea. A culpa se intensificou, transformando-se em um peso esmagador em seu peito. Ela se sentia uma intrusa, uma sombra à espreita, ameaçando a felicidade alheia.
“Eu fico feliz por vocês”, Isabella conseguiu dizer, a voz quase inaudível. “Vocês formam um belo casal.”
Sofia sorriu novamente, um sorriso que parecia genuinamente terno. “E você, Isabella? Algum plano para o futuro em relação a isso?” Ela fez um gesto vago, indicando o ambiente.
Isabella sentiu o sangue subir ao rosto. Era uma pergunta sutil, mas carregada de significado. Sofia, com sua elegância e perspicácia, parecia notar algo.
“Eu estou focada na minha carreira, Sofia. Por enquanto, é a minha prioridade.” A resposta foi evasiva, mas sincera.
“É importante ter prioridades”, concordou Sofia, sem insistir. “E a carreira é um caminho maravilhoso. Mas não se esqueça de que a vida é feita de momentos, de conexões. E é bom ter alguém para compartilhar.”
O jantar foi servido, e Isabella sentou-se em uma mesa afastada, tentando absorver a conversa de Sofia, tentando entender se havia alguma insinuação por trás de suas palavras. A elegância com que Sofia falava sobre o casamento, sobre o apoio mútuo, sobre a felicidade, era um testemunho de uma vida construída sobre pilares que Isabella estava, involuntariamente, abalando.
Durante o evento, Isabella viu Rafael interagir com outros convidados, mas seus olhares não se cruzaram. Era como se o destino os tivesse colocado propositalmente no mesmo espaço, mas com um abismo intransponível entre eles. Ela se sentiu observada, julgada, apesar da cordialidade de Sofia. A presença dela era um lembrete constante do seu erro, do segredo que a consumia.
Ao final da noite, quando Isabella se preparava para ir embora, Sofia a interceptou novamente. “Foi um prazer realmente conhecê-la, Isabella. Espero que possamos nos ver mais vezes. E se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, não hesite em me procurar.” Ela estendeu a mão, e Isabella a apertou, sentindo a firmeza e a sinceridade naquele aperto.
“Obrigada, Sofia. De verdade. Foi uma noite maravilhosa.”
Ao sair para o ar fresco da noite, Isabella sentiu o peso do mundo em seus ombros. O encontro com Sofia havia sido mais perturbador do que ela esperava. A gentileza da mulher tornava tudo ainda mais difícil, intensificando a culpa e o remorso. Ela se sentia cada vez mais enredada em uma teia de mentiras e sentimentos proibidos. A sombra de Sofia, antes apenas uma presença distante, agora era um lembrete palpável da destruição que ela poderia causar. A necessidade de manter distância de Rafael tornou-se ainda mais premente, mas a atração que sentia era um fogo difícil de apagar.