O Amor que Perdi III
Capítulo 17 — A Sombra na Mata e o Juramento de Proteção
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 17 — A Sombra na Mata e o Juramento de Proteção
O som dos passos se aproximando rompeu a atmosfera de descoberta e esperança que havia se instalado no velho casarão de Paraty. O instinto de Sofia e André foi imediato: silêncio e cautela. A sensação de estarem sendo observados os tomou de assalto, transformando o refúgio outrora pacífico em um palco de suspense.
“Quem pode ser?”, Sofia sussurrou, a voz tensa, os olhos fixos na porta de entrada entreaberta, por onde se esgueirava um raio de sol poeirento.
André, com a experiência de quem já esteve em situações de risco, fez um gesto para que ela se afastasse da entrada. “Não sei, mas não parece ser um turista perdido. Fique atrás de mim.”
Ele se moveu com agilidade surpreendente, posicionando-se de forma a proteger Sofia, seus olhos varrendo a área externa através das frestas das janelas sujas. O medalhão em sua mão parecia aquecer, um lembrete palpável da missão que Clara lhe confiara.
Um vulto se materializou na entrada, um homem robusto, com um olhar sombrio e um porte que transpirava ameaça. Ele não parecia estar ali por acaso. Seus olhos percorreram o interior escuro do casarão, como se estivessem buscando algo, ou alguém.
“E aí? Alguém por aqui?”, a voz dele era rouca e incisiva, ecoando pelo salão empoeirado.
Sofia se encolheu instintivamente atrás de André. O homem que se apresentara em São Paulo, o capanga de Ricardo, veio à sua mente. Mas aquele ali era diferente, mais selvagem, mais perigoso.
André, com a calma que era sua marca registrada em momentos de pressão, respondeu: “Só nós. Estávamos apenas admirando a vista. O lugar está abandonado, não é?”
O homem não pareceu se convencer. Ele deu alguns passos para dentro, o som de suas botas ressoando no assoalho de madeira. Seu olhar fixou-se na escada que levava ao segundo andar, onde ficava o escritório de Clara.
“O dono autorizou a visita? Parece que tem gente mexendo nas coisas. Ouvi barulho lá de cima.”
Sofia sentiu um calafrio. Eles haviam sido descuidados. O clique do medalhão, o desdobrar do papel… foram sons que denunciaram sua presença.
André sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos. “Ah, o barulho. Era o vento batendo em uma velha veneziana. Este lugar é um fantasma, meu amigo. Cheio de ruídos que o tempo cria.”
O homem não relaxou. Seus olhos varreram o escritório, pousando brevemente na escrivaninha onde Sofia havia estado. Uma sombra de suspeita cruzou seu rosto. Ele se aproximou da escrivaninha, seus passos pesados e ameaçadores.
“Que barulho é esse que o vento faz em uma escrivaninha? Parecia mais alguém mexendo em papéis. E vocês dois, aqui, sozinhos, em um lugar abandonado? Não é uma coincidência muito grande, não acham?”
Sofia sentiu o medo apertar seu peito. Se aquele homem descobrisse o medalhão, tudo o que Clara tentara proteger estaria em risco. E, mais importante, sua própria segurança estaria em perigo.
André percebeu a tensão crescente. Ele deu um passo à frente, colocando-se entre o homem e a escrivaninha. “Estamos apenas apreciando a arquitetura antiga. Não há nada demais aqui. Se o proprietário não quiser visitantes, ele deveria cuidar melhor de sua propriedade, não acha?”
O homem riu, um som áspero e sem humor. “Eu sou o dono, ou melhor, quem cuida das coisas por aqui. E o que eu acho é que vocês estão bisbilhotando onde não devem.”
Ele avançou em direção à escrivaninha. Sofia, em um impulso de coragem que a surpreendeu, agarrou o medalhão e o guardou rapidamente na palma da mão, fechando-a em um punho apertado.
“Por favor, senhor”, Sofia disse, a voz mais firme do que ela esperava. “Nós já vamos embora. Não queremos causar problemas.”
O homem a olhou de cima a baixo, um sorriso maldoso brincando em seus lábios. “Problemas? Depende do que vocês encontraram. O que vocês procuravam aqui?”
André interveio, com uma voz mais firme e fria. “Nós procurávamos um lugar tranquilo para pensar. Uma paixão antiga pela história deste lugar nos trouxe até aqui. Mas, aparentemente, a tranquilidade está longe de ser encontrada.”
Ele pegou a mão de Sofia e a conduziu para a porta. O homem os seguiu, seus olhos fixos neles, uma ameaça silenciosa pairando no ar.
“Não se preocupem”, ele disse, a voz carregada de sarcasmo. “Eu vou dar uma olhada em tudo. Para ter certeza de que nada foi… movido.”
Enquanto desciam a ladeira, sob o olhar atento do homem que agora se postara na entrada do casarão, Sofia sentiu o suor frio escorrer por sua testa. O medalhão em sua mão era um peso reconfortante, um símbolo do que Clara havia confiado a ela.
“Quem era aquele homem, André?”, Sofia perguntou, assim que se afastaram o suficiente para que a voz não pudesse ser ouvida.
“Não tenho certeza, mas ele não era um morador local. E definitivamente não parecia estar ali para admirar a paisagem. Ele estava procurando algo, ou alguém. E ele desconfia de nós.” André olhou para trás, certificando-se de que não estavam sendo seguidos. “Isso não é bom. Significa que quem quer que esteja envolvido com a quadrilha sabe que estamos investigando.”
Eles chegaram ao carro estacionado mais abaixo, na estrada de terra. O clima de Paraty, antes leve e inspirador, agora parecia carregado de perigo. A beleza da cidade, antes um refúgio, agora parecia esconder armadilhas.
“E o medalhão?”, André perguntou, olhando para a mão fechada de Sofia.
Sofia abriu a mão, mostrando o medalhão. “Está aqui. E a mensagem de Clara… ‘O verdadeiro legado não está no que se herda, mas no que se protege. A verdade está no coração daqueles que amamos e no silêncio que eles guardam.’”
André franziu a testa, pensativo. “No silêncio que eles guardam… isso é enigmático. Quem seriam esses ‘eles’ que guardam um silêncio?”
“Eu não sei. Mas sinto que a resposta para tudo está aqui”, Sofia disse, apertando o medalhão com mais força. “Clara não me deixaria essa mensagem e esse objeto se não fossem a chave para desvendar tudo.”
Eles entraram no carro. André ligou o motor, o som familiar trazendo um alívio momentâneo.
“Precisamos sair de Paraty. Pelo menos por enquanto. Se aquele homem nos viu, ele vai nos procurar. E se ele trabalha para Ricardo, ou para a quadrilha, ele não vai desistir fácil.”
Sofia assentiu, o coração ainda acelerado. “Mas para onde? E o que faremos com o medalhão? Precisamos decifrar a mensagem de Clara.”
“Vamos para um lugar seguro. Um lugar onde possamos analisar o medalhão com calma. Talvez em algum lugar mais afastado da cidade, uma pousada discreta. E sobre a mensagem… ‘o silêncio que eles guardam’… Talvez se refira às pessoas que sabiam da verdade, mas que por algum motivo a mantiveram em segredo. Talvez pessoas próximas a seu pai. Ou a Clara.”
Enquanto André dirigia para longe de Paraty, as palavras de Clara ecoavam na mente de Sofia. O legado. A proteção. A verdade. Ela sentia que estava mais perto do que nunca de desvendar o mistério que cercava sua família, mas a cada passo adiante, o perigo parecia se intensificar. O homem na mata era um aviso claro.
“André”, Sofia disse, a voz carregada de uma nova determinação. “Eu não vou desistir. Clara me confiou isso. E eu vou honrar a memória dela, protegendo a verdade que ela quis que eu descobrisse.”
“Eu sei que sim”, André respondeu, com um olhar de admiração. “E eu estou com você. Sempre estive.”
A promessa de André era um bálsamo em meio à tempestade. Ela sabia que a jornada seria árdua, repleta de perigos e incertezas. Mas, com o medalhão em sua mão e a coragem renovada, Sofia se sentia pronta para enfrentar o que quer que viesse pela frente. A verdade, por mais dolorosa que fosse, precisava vir à tona. E ela estava determinada a desenterrá-la, mesmo que isso significasse enfrentar as sombras que rondavam seu passado e seu presente.
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