O Amor que Perdi III
Capítulo 2 — Sussurros do Passado na Noite Paulistana
por Ana Clara Ferreira
Capítulo 2 — Sussurros do Passado na Noite Paulistana
O som do jazz parecia agora distante, abafado pelo martelar frenético do coração de Isabela. Ela fingia analisar a fotografia com um interesse genuíno, mas seus olhos, num movimento furtivo, buscavam a figura de Rafael. Ele ainda estava lá, conversando com o crítico, mas a leveza de antes parecia ter desaparecido. Ele parecia… tenso.
Um garçom passou com uma bandeja de canapés. Isabela pegou um, mais por instinto do que por fome. Aquele reencontro a desnorteou de uma forma que ela não experimentava há anos. Era como se as barreiras que construiu meticulosamente em volta de seu coração tivessem desmoronado em segundos, expondo as cicatrizes ainda sensíveis.
Dez anos. Dez longos anos sem ele. Dez anos tentando reconstruir a vida, trilhar um caminho de sucesso, de independência, longe daquele amor avassalador que a consumiu e a despedaçou. Rafael não fora apenas um amor; ele fora o seu mundo, o seu sol, a sua razão de viver. E ele partiu, deixando um vazio imenso, um buraco negro que ameaçava engolir tudo.
Ela se lembrava da última vez que o vira. Não fora naquela noite, mas semanas antes, em uma discussão acalorada, cheia de palavras não ditas e de medos incompreendidos. Ela, jovem e orgulhosa, com medo de se entregar completamente. Ele, com a alma artística e a necessidade de liberdade, sentindo-se sufocado. As palavras que se seguiram foram duras, precipitadas, e culminaram em um silêncio ainda mais doloroso do que qualquer briga. E então, ele se foi.
“Senhorita Isabela? Que bom que veio.”
A voz suave e melodiosa a tirou de seus devaneios. Era Helena, a curadora da exposição, uma mulher elegante e com um sorriso acolhedor. Isabela forçou um sorriso de volta.
“Helena, parabéns. O trabalho está maravilhoso. Sua escolha de artistas é impecável.”
“Obrigada, querida. É um prazer ter o seu apoio. E o seu bom gosto para a arte sempre nos ajuda a dar um toque especial.” Helena a guiou sutilmente para mais perto do centro da galeria. “Sei que você tem bom olho para o talento. O que achou daquela série em preto e branco ali no fundo?”
Isabela seguiu o olhar de Helena, mas sua atenção foi roubada por uma figura que se aproximava. Rafael. Ele se afastara do crítico e agora se dirigia a ela, com um passo decidido, quase hesitante.
O burburinho da galeria pareceu silenciar. Os olhares curiosos dos convidados se fixaram nos dois. Era inegável a tensão, a história que emanava deles, um drama silencioso que pairava no ar.
Ele parou a poucos passos de distância, os olhos encontrando os dela. Havia uma mistura de surpresa, incerteza e algo mais profundo, algo que Isabela não conseguia decifrar.
“Isabela?” A voz dele era rouca, um sussurro que, para ela, soou como um trovão. O nome dela, pronunciado por ele depois de tanto tempo, era uma carícia e um golpe.
Ela sentiu um nó se formar na garganta. Tentou falar, mas as palavras não vieram. Apenas um balbucio inaudível.
Helena, percebendo a situação, lançou um olhar entre os dois, a curiosidade brilhando em seus olhos. “Vocês se conhecem?”
Rafael sorriu, um sorriso pequeno, quase triste. “Nos conhecemos, Helena. Há muito tempo.”
A resposta dele foi ambígua, mas cheia de significado para Isabela. Ela finalmente encontrou sua voz, fraca, mas firme.
“Rafael. Que surpresa te encontrar aqui.”
“A surpresa é minha, Isa. Não sabia que você frequentava esse tipo de evento.”
O apelido, o antigo apelido que ele a chamava, fez seu corpo estremecer. Isa. Era um eco do passado, um toque de intimidade que a pegou desprevenida.
“Minha empresa patrocina a exposição, você sabe. É parte do trabalho.”
“Ah, sim. Claro. A agência de sucesso. Sempre soube que você iria longe.” Ele a olhou de cima a baixo, seus olhos percorrendo cada detalhe, como se quisesse absorvê-la novamente. “Você… você está linda, Isabela.”
O elogio, tão sincero e direto, a desarmou. Ela sentiu um calor familiar subir em seu rosto.
“Obrigada. Você também não mudou muito.” A resposta soou um pouco mais forte, um toque de sua antiga ousadia.
Rafael riu, um som que ela não ouvia há uma eternidade. “Ah, as rugas e os cabelos brancos nos tornam mais interessantes, não acha?”
“Depende de quem as nota,” ela retrucou, um leve sorriso brincando em seus lábios.
Helena, percebendo que a conversa se tornava pessoal demais, interveio com diplomacia. “Rafael, você veio ver a obra do Lucas, não foi? Ele está ali perto da janela, ansioso para te ver.”
Rafael assentiu, mas seu olhar permaneceu fixo em Isabela. “Claro. Mas podemos conversar um pouco mais tarde, Isa? Se você tiver tempo, é claro.”
O “Isa” novamente, com aquele tom de cumplicidade, a fez hesitar. O que ela queria era fugir, se esconder, mas uma parte dela, a parte que nunca o esqueceu, ansiava por ouvir sua voz, por tentar entender o que aconteceu.
“Talvez,” ela respondeu, sua voz quase um sussurro. “Depende de como a noite se desenrolar.”
Ele assentiu, um leve sorriso nos lábios, e se virou para seguir Helena. Ao passar por ela, seus braços se roçaram levemente. Uma corrente elétrica percorreu o corpo de Isabela. Ela sentiu o perfume dele, um aroma amadeirado e sutil, que a transportou de volta para os braços dele, para as noites quentes de verão, para um tempo em que o amor parecia eterno.
Enquanto Rafael se afastava, Isabela se apoiou em uma coluna, respirando fundo. A chuva de setembro continuava a cair lá fora, mas agora, parecia que a tempestade havia começado dentro dela. O passado, que ela tentara enterrar com tanto afinco, ressurgira com uma força avassaladora, personificado naquele homem que lhe roubara o coração e o devolveu em mil pedaços. Ela sabia que não podia fugir. Aquele reencontro, sob a chuva e os olhares curiosos, era um sinal. Um sinal que a vida lhe dava para confrontar o que havia ficado para trás. A pergunta era: ela estava pronta para reviver o amor que achava ter perdido?