Amor sem Retorno II
Amor sem Retorno II
por Camila Costa
Amor sem Retorno II
Autor: Camila Costa
Capítulo 1 — O Eco de um Beijo Roubado
O sol da tarde banhava a cidade de São Paulo com um dourado melancólico, o mesmo tom que parecia tingir a alma de Isabella. De sua varanda no décimo andar, a metrópole se estendia como um tapete vibrante, um convite à vida que, para ela, parecia ter perdido a cor. Os arranha-céus, outrora símbolos de suas ambições e de um futuro promissor, agora se erguiam como sentinelas silenciosas de um tempo que se foi, de um amor que se esvaiu como areia entre os dedos.
Faziam seis meses desde a última vez que seus lábios tocaram os dele. Seis meses desde que Ricardo, o homem que jurara ser o seu porto seguro, a sua âncora em meio às tempestades, se tornara a própria tempestade. A lembrança ainda a assombrava com a força de um furacão, um eco insistente de um beijo roubado sob a chuva torrencial, um beijo que selara não um amor, mas uma traição.
Ela se aproximou da grade fria, as mãos segurando-a com força, como se buscasse apoio no metal para não sucumbir à vertigem de suas memórias. O vento fresco acariciava seus cabelos castanhos, mas não era suficiente para apagar o calor fantasma da mão dele em sua cintura, o cheiro marcante de seu perfume misturado ao da chuva, a promessa quebrada em seus olhos verdes.
"Isabella?" A voz suave de sua irmã, Mariana, a tirou de seu torpor.
Mariana era a personificação da leveza, um raio de sol em contraste com a escuridão que parecia envolver Isabella. Seus cabelos loiros e cacheados emolduravam um rosto delicado, e seus olhos azuis, tão diferentes dos dela, refletiam uma esperança que Isabella sentia ter perdido para sempre.
"Oi, Mari", respondeu Isabella, forçando um sorriso que não alcançou os olhos.
"Ainda aí em cima? Pensei que ia descer para almoçar. A Dona Irene fez aquele seu risoto de cogumelos que você adora."
Isabella respirou fundo, o aroma tênue da comida chegando até ela. "Eu sei, Mari. Só... precisava de um arzinho. Essa vista me conforta, sabe?"
Mariana aproximou-se, os passos leves sobre o piso de madeira. Posicionou-se ao lado da irmã, olhando para a paisagem urbana com a mesma reverência, mas com uma melancolia diferente. "A vista é linda, sim. Mas conforta mesmo quando estamos com quem amamos para compartilhar. Você está se cuidando, Bella?"
A pergunta era inocente, mas carregava um peso que Isabella sentia nos ombros. Mariana sabia, é claro. Sabia da dor, da humilhação, da raiva que a consumia desde o dia em que descobriu Ricardo nos braços de sua própria prima, Sofia. A dor de ser substituída, a dor de ser traída por aqueles em quem mais confiava.
"Estou me cuidando, Mari. É só... um dia de cada vez." Isabella tentou manter a voz firme, mas um tremor a traiu.
"Um dia de cada vez não é o suficiente quando a dor se acumula, Isabella. Você se fechou. Se afastou de todos. Eu sei que foi difícil, que doeu horrores, mas você não pode deixar que isso te consuma." Mariana segurou a mão da irmã, seus dedos entrelaçando-se com os dela. O toque era caloroso, genuíno.
"E o que você quer que eu faça, Mariana? Que eu saia por aí distribuindo sorrisos falsos enquanto meu coração está em pedaços? Que eu finja que não fui destruída por dentro?" A voz de Isabella se elevou, carregada de uma amargura que ela não conseguia mais reprimir.
"Não, Isabella. Não quero que finja. Quero que sinta. Que chore, que grite, que se revolte. Mas depois... depois você tem que encontrar um jeito de levantar. Você é forte, Bella. Mais forte do que pensa." Mariana apertou a mão dela. "E eu estou aqui. Sempre estarei."
As palavras de Mariana eram um bálsamo, mas a ferida de Isabella era profunda demais para ser curada com promessas de apoio. Ela olhou para a irmã, um vislumbre da antiga Isabella emergindo em seus olhos. "Eu sei, Mari. Obrigada."
Elas desceram para o almoço em silêncio. A mesa estava posta com cuidado pela Dona Irene, a governanta fiel que as acompanhava desde a infância. O aroma do risoto era realmente delicioso, mas a fome de Isabella parecia ter desaparecido junto com a sua paz de espírito.
Enquanto comia, sua mente vagava para longe, para o passado que a assombrava. Lembrava-se do dia em que conheceu Ricardo. Naquela festa de aniversário de seu pai, ele se aproximara com um sorriso confiante e um olhar que a desarmou instantaneamente. Ele era advogado, promissor, com um carisma magnético. Conversaram por horas, descobrindo afinidades, planos, sonhos. A conexão foi imediata, avassaladora.
Ele a cortejou com a intensidade de quem se apaixona de verdade. Flores, jantares à luz de velas, viagens inesperadas. Ricardo parecia o príncipe encantado que toda garota sonha em encontrar. Isabella, que sempre fora cautelosa com seus sentimentos após algumas decepções passadas, se permitiu mergulhar de cabeça naquele amor. E ele a amou de volta, ou assim ela acreditava.
"Bella, você mal tocou no risoto", Dona Irene comentou, com a preocupação evidente em seu rosto.
"Estou sem fome, Dona Irene", respondeu Isabella, forçando um sorriso. "Estava um pouco distraída."
"Distraída com os fantasmas do passado, não é?", Dona Irene disse, com a sabedoria de quem vê tudo. Ela conhecia Ricardo, conhecia a dor de Isabella.
Isabella apenas assentiu, incapaz de negar.
Naquela noite, enquanto tentava adormecer, a imagem de Ricardo e Sofia se repetiu em sua mente. A cena que ela presenciara por acaso, o encontro deles em um café discreto, os dedos entrelaçados, os sussurros cúmplices. O golpe fora brutal. A humilhação, pública. Sofia, a prima que ela criara em casa, a confidente, a irmã que nunca teve. O mundo de Isabella desabou naquele instante.
Ela se virou na cama, o travesseiro parecendo insuportável sob sua cabeça. Precisava de algo para distraí-la, algo que a tirasse daquela espiral de dor. Lembrou-se de um convite que recebera há algumas semanas: a inauguração de uma nova galeria de arte no centro da cidade, patrocinada por uma antiga amiga de faculdade, Clara. Isabella sempre amou arte, e a galeria era um sopro de novidade em sua vida estagnada.
Tomou uma decisão impulsiva. Levantou-se, foi até seu closet e procurou por um vestido. Escolheu um modelo preto, elegante e discreto, algo que a fizesse sentir-se um pouco mais herself, um pouco menos a mulher partida que se tornara.
Ao chegar à galeria, o burburinho de pessoas e a atmosfera vibrante a atingiram como uma onda. Clara a recebeu com um abraço caloroso.
"Bella! Que bom que você veio! Pensei que não apareceria mais para os vivos!" Clara brincou, mas seus olhos demonstravam uma genuína preocupação.
"Eu precisava sair de casa, Clara. Obrigada pelo convite." Isabella retribuiu o abraço, sentindo um leve conforto na presença da amiga.
A galeria era deslumbrante. As obras de arte, modernas e provocativas, prendiam sua atenção. Ela vagava pelos corredores, absorvendo as cores, as formas, as histórias que cada tela contava. Por um breve momento, sentiu-se transportada para outro lugar, livre das amarras de sua própria realidade.
Enquanto admirava um quadro abstrato de cores intensas, uma voz familiar a fez congelar.
"Isabella? É você mesmo?"
Seu coração disparou. A voz. A voz que ela tentara apagar de sua mente, a voz que trazia consigo a tempestade. Ela virou-se lentamente, o sangue gelando em suas veias.
Ali estava ele. Ricardo. Mais bonito, mais confiante, mais... inabalável do que ela se lembrava. Ele estava com um grupo de pessoas, conversando animadamente, mas seus olhos verdes a encontraram no meio da multidão. Um misto de surpresa e algo que ela não soube decifrar cruzou seu olhar.
O silêncio se estendeu entre eles, pesado, carregado de tudo o que fora e de tudo o que nunca mais seria. Isabella sentiu a bile subir em sua garganta. A paz momentânea que encontrara na arte se dissipou como fumaça. O eco do beijo roubado, da traição, voltou com toda a sua força, esmagador. Ela não estava pronta para isso. Não ainda.
Com um esforço monumental, ela desviou o olhar, fingindo não tê-lo visto. A necessidade de fugir era avassaladora. Ela se afastou rapidamente, quase correndo, em direção à saída, o burburinho da festa agora soando como um zumbido irritante em seus ouvidos.
Ao alcançar a rua, o ar frio da noite a atingiu, um alívio bem-vindo. Ela olhou para trás, para as luzes da galeria, e viu Ricardo sair, acompanhado. Ele parou por um instante, olhando na direção em que ela desaparecera. Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele encontro não tinha sido um acaso. Era um prenúncio.
Ela entrou em seu carro, as mãos tremendo enquanto tentava dar partida. As lágrimas finalmente vieram, quentes e amargas. O beijo roubado, o eco de um amor que se tornou veneno, a presença inesperada dele. Era o suficiente para fazer qualquer um desabar. Mas algo dentro dela, um resquício de força, lutava para não ceder. Ela sabia que Ricardo não a deixaria em paz. E ela também não o deixaria, não até que a dor se transformasse em algo mais. Algo que ela ainda não sabia definir. A luta estava apenas começando.