Amor sem Retorno II
Capítulo 12 — O Segredo Sombrio de Sofia
por Camila Costa
Capítulo 12 — O Segredo Sombrio de Sofia
O sol voltou a brilhar em Paraty no dia seguinte, como se a tempestade tivesse sido apenas um pesadelo passageiro. Mas para Marina, as nuvens de incerteza ainda pairavam sobre sua alma. A noite anterior, o beijo com Rafael, era uma lembrança vívida e perturbadora, um ato impulsivo que a deixava confusa e com um misto de culpa e excitação. Ela tentava desesperadamente entender o que a levara a agir daquela forma, a se entregar a um homem que, apesar de sua beleza e fascínio, representava um território desconhecido e arriscado.
Enquanto se arrastava pela manhã, tentando processar os eventos da noite anterior, um telefonema inesperado a fez sobressaltar. Era Sofia, a voz tensa, quase sussurrando.
"Marina, você precisa vir até aqui. Agora. Aconteceu uma coisa horrível."
O tom de urgência na voz da amiga a deixou imediatamente apreensiva. Sofia não era de fazer alarde, e um "horrível" em sua boca significava algo realmente grave. Marina se apressou em se arrumar, o encontro com Rafael ainda em sua mente, mas a preocupação com Sofia agora tomava a dianteira.
Chegando ao luxuoso apartamento de Sofia, que ficava em um dos prédios mais modernos da orla, Marina a encontrou pálida, os olhos vermelhos de choro contido, mas com uma determinação sombria no olhar. O apartamento, geralmente impecável e repleto de arte moderna, parecia ter um ar de desordem, não física, mas emocional.
"Sofia, o que aconteceu?", Marina perguntou, aproximando-se e abraçando a amiga.
Sofia se afastou um pouco, respirando fundo. "É sobre o Bruno. O ex-marido dela... ele apareceu. E ele não veio para pedir desculpas, Marina. Ele veio para me ameaçar."
Marina franziu a testa. Ela sabia que Sofia e Bruno tiveram um divórcio conturbado, repleto de brigas e acusações mútuas, mas nunca imaginara que a situação pudesse escalar para tal ponto. "Ameaçar? De que forma?"
Sofia hesitou, seus olhos varrendo o ambiente como se buscasse as palavras certas, ou talvez, procurasse por sinais de que não estava imaginando coisas. "Ele disse que sabe sobre... sobre o que eu fiz. Sobre o dinheiro que desapareceu do cofre da empresa. Ele disse que se eu não o ajudar a sair do país, ele vai me entregar para a polícia."
Marina a encarou, chocada. A Sofia que ela conhecia, a Sofia elegante, bem-sucedida e aparentemente imaculada, estava envolvida em algo tão sombrio? "Mas... como ele sabe? E o que você fez com esse dinheiro, Sofia?"
Sofia sentou-se no sofá de couro branco, afundando em seu próprio desespero. "Eu... eu não sei como ele descobriu. Talvez ele tenha seus informantes. E o dinheiro... foi há muito tempo, Marina. Na época do divórcio. Eu estava desesperada, com medo de ele me arruinar completamente. Eu peguei uma quantia pequena, pensei que ninguém notaria. Era um empréstimo, que eu planejava devolver. Mas as coisas saíram do controle, e o dinheiro sumiu, eu não sei como. E agora ele voltou, querendo se aproveitar da minha situação."
O choque inicial de Marina deu lugar a uma onda de compaixão. Ela viu a fragilidade por trás da fachada de força de Sofia. "Sofia, você precisa contar tudo para a polícia. Isso é chantagem. Você não pode se deixar levar por ele."
Sofia riu, um som amargo e sem humor. "E contar o quê, Marina? Que roubei minha própria empresa? Que estou sendo chantageada por meu ex-marido? Eu vou para a prisão! Minha vida vai acabar. E a sua também, se ele decidir falar o que sabe sobre você e Daniel."
Essa última frase atingiu Marina como um soco no estômago. "O que ele sabe sobre mim e Daniel?"
Sofia a olhou, a angústia estampada em seu rosto. "Ele sabe sobre o dinheiro que você transferiu para o Daniel, Marina. Aquele que ele usou para o projeto que faliu. Bruno estava envolvido em algumas coisas no mundo dos negócios que não eram exatamente legais. Ele tem contatos. Ele sabia que o Daniel não recebeu esse dinheiro de outra fonte. Ele disse que pode usar isso contra você também. Ele quer que eu o ajude a fugir com uma grande quantia de dinheiro, e se eu não o fizer, ele vai expor tudo."
Marina sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Aquele dinheiro, um presente de despedida de seu pai, destinado a dar um impulso a Daniel, agora se tornava uma arma em potencial contra ela. E o beijo com Rafael, a confusão em que se encontrava, tudo parecia insignificante diante daquela nova e aterradora revelação.
"Eu não entendo, Sofia. Você disse que o dinheiro sumiu. Como Bruno sabe que fui eu que transferi para o Daniel?"
"Eu não sei, Marina. Ele é um homem perigoso e manipulador. Ele deve ter alguma forma de saber dos seus movimentos financeiros. Talvez ele tenha contratado alguém para te investigar na época. Ele sabia que você estava ajudando Daniel. Ele apenas juntou as peças. Ele disse que tem provas de que você desviou o dinheiro da empresa para o Daniel."
A mente de Marina corria. A transferência havia sido discreta, o máximo que ela pôde fazer para evitar a atenção. Como Bruno poderia ter descoberto? A possibilidade de ter sido investigada por pessoas ligadas a Bruno era aterrorizante.
"E o que você pretende fazer, Sofia?", Marina perguntou, a voz baixa, carregada de apreensão.
Sofia se levantou, a resolução voltando a colorir seu olhar, mas agora era uma resolução desesperada. "Eu não posso ir para a cadeia, Marina. Não posso deixar ele me destruir. Eu vou fazer o que ele quer. Vou conseguir o dinheiro. Eu só preciso de um pouco de tempo. E eu preciso que você me ajude. Que você confie em mim. Ele me deu 48 horas."
Marina a olhou, a amiga em quem sempre confiara, agora envolvida em um labirinto de mentiras e crimes. Ela via o medo em seus olhos, mas também a frieza calculista que o desespero muitas vezes gera. A confiança que ela tinha em Sofia estava sendo testada ao limite.
"Sofia, isso é loucura. Você não pode simplesmente dar mais dinheiro para ele. Isso só vai piorar as coisas."
"Eu não tenho escolha, Marina! Você não entende a gravidade disso. Se ele falar, minha reputação, meu trabalho, tudo se desmorona. E ele sabe que pode te usar contra mim. Ele me disse que se eu não ceder, ele vai te entregar, e você vai ter que explicar para a polícia como o dinheiro do seu pai foi usado para ajudar Daniel. Ele sabe que o Daniel está falido, sabe que ele não pode te ajudar a pagar de volta. Ele vai te arruinar também."
As palavras de Sofia ecoavam na mente de Marina, um prenúncio de desgraça. Ela estava presa em uma teia de mentiras, com Daniel, com Sofia, e agora, com a ameaça de Bruno. O beijo com Rafael, que parecia tão importante horas antes, agora se desvanecia diante da magnitude do perigo que a cercava. O segredo sombrio de Sofia não era apenas dela; parecia estar se tornando o segredo de Marina também. E a cada segundo que passava, o tempo para encontrar uma solução diminuía perigosamente.