Amor sem Retorno II
Amor sem Retorno II
por Camila Costa
Amor sem Retorno II
Autor: Camila Costa
---
Capítulo 16 — O Peso das Mentiras
O ar na mansão dos Montenegro pesava. Não era o ar rarefeito das alturas, mas um peso sufocante de segredos não ditos, de verdades que teimavam em emergir como ervas daninhas em um jardim bem cuidado. Sofia sentia isso em cada fibra do seu ser, um aperto no peito que a acompanhava desde a noite fatídica em que entregou seu futuro, e o de todos ao seu redor, nas mãos de Bruno. A galeria de arte, palco de um confronto silencioso que ecoou mais alto que qualquer grito, ainda pairava em sua memória, um fantasma que assombrava seus sonhos.
Rafael, com seus olhos que um dia foram um porto seguro, agora eram um espelho de dor e desconfiança. Cada olhar trocado era um duelo, uma batalha silenciosa onde ambos os lados se feriam sem disparar um único tiro. Ele sabia, ou pelo menos suspeitava, que algo sombrio se escondia sob a superfície polida da esposa. A armadilha de Bruno, que ele tão astutamente teceu, havia enredado não apenas Sofia, mas também o amor que um dia floresceu entre eles. A escolha difícil de Rafael – entre a lealdade cega e a busca pela verdade – havia o levado a um caminho incerto, onde a linha entre o certo e o errado se tornava cada vez mais tênue.
Naquela manhã, a mansão parecia ainda mais silenciosa que o usual. A luz do sol lutava para penetrar as pesadas cortinas de veludo, criando um ambiente sombrio e melancólico. Sofia estava sentada à beira da cama, o robe de seda deslizando pelos seus ombros pálidos. Seus olhos, outrora vibrantes e cheios de vida, agora carregavam a sombra de uma tristeza profunda. A lembrança de suas palavras, ditas sob coação, a atormentava. Ela havia se tornado uma cúmplice, uma marionete nas mãos de um homem sem escrúpulos.
O som de passos no corredor a fez sobressaltar. Era Rafael. Ele entrou no quarto sem bater, um hábito que, em outros tempos, seria recebido com um sorriso. Agora, era apenas mais um lembrete da distância que os separava. Ele a observou por um instante, a expressão ilegível, mas com uma intensidade que a fazia sentir-se exposta.
"Bom dia, Sofia," disse ele, a voz baixa e rouca, desprovida de qualquer calor.
Sofia engoliu em seco, tentando encontrar as palavras certas, ou talvez, apenas as menos erradas. "Bom dia, Rafael."
Ele se aproximou da janela, afastando uma das cortinas com um gesto brusco. A luz invadiu o quarto, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. "Você parece cansada."
Era uma observação óbvia, mas carregada de uma subcorrente de acusação. Ele não a via como cansada; ele a via como culpada.
"Tive uma noite difícil," ela respondeu, a voz embargada. A verdade era um luxo que ela não podia mais se dar.
Rafael virou-se para ela, os olhos fixos nos dela. "Tenho notado. Você tem tido muitas noites difíceis ultimamente, não é mesmo?"
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Cada segundo que passava aumentava a pressão, a ansiedade de Sofia. Ela queria gritar, implorar por compreensão, mas as palavras de Bruno ecoavam em sua mente: Se você tentar qualquer coisa, se contar a verdade, todos nós sofreremos as consequências.
"Eu… eu tenho passado por muita coisa, Rafael," ela finalmente conseguiu dizer, a voz trêmula. "É tudo muito complicado."
"Complicado," repetiu ele, um sorriso amargo brincando em seus lábios. "É essa a palavra que você usa para justificar suas ações? Complicado?" Ele se aproximou dela, parando a poucos centímetros de distância. O perfume amadeirado dele, que um dia a confortava, agora a sufocava. "Você acha que eu sou idiota, Sofia? Você acha que eu não percebo o jogo que você está jogando?"
O coração de Sofia disparou. Ela sabia que ele estava perto, tão perto de descobrir tudo. "Eu não estou jogando nenhum jogo, Rafael. Eu estou sofrendo."
"Sofrendo? Ou se escondendo atrás dessa fachada de vítima para encobrir suas mentiras?" Ele ergueu uma mão, e por um instante, Sofia pensou que ele a tocaria, mas ele a recolheu, cerrando o punho. "Eu confiei em você, Sofia. Eu te amei mais do que a minha própria vida. E você… você me traiu."
As palavras foram como punhais. Ela sentiu um nó na garganta, as lágrimas quentes começando a brotar em seus olhos. "Rafael, por favor…"
"Por favor, o quê? Por favor, que eu acredite em você? Que eu finja que não vejo a verdade se desenrolando bem na minha frente?" Ele deu um passo para trás, um misto de raiva e dor estampados em seu rosto. "Eu preciso de respostas, Sofia. E você vai me dar essas respostas. Custe o que custar."
Ele saiu do quarto tão abruptamente quanto entrou, deixando Sofia sozinha com o peso esmagador de suas mentiras. Ela se encolheu na cama, abraçando os joelhos, as lágrimas finalmente rolando livremente. O segredo de Bruno era uma corrente que a prendia, cada dia mais apertada. E a cada dia que passava, o abismo entre ela e Rafael se tornava mais profundo, mais intransponível. Ela estava presa em uma teia de aranha, onde cada movimento só a envolvia mais, tornando a fuga cada vez mais impossível. A mansão Montenegro, outrora um lar, agora parecia uma prisão dourada, e ela, sua mais infeliz prisioneira. O peso das mentiras era insuportável, e Sofia temia não ter mais forças para carregá-lo.