Amor sem Retorno II
Capítulo 18 — A Rede de Bruno se Aperta
por Camila Costa
Capítulo 18 — A Rede de Bruno se Aperta
A noite na mansão Montenegro envolvia tudo em um manto de escuridão, mas para Sofia, a escuridão era mais profunda, mais interna. As palavras que ela havia dito a Rafael, mesmo que incompletas, haviam sido um passo em falso em seu delicado jogo de sobrevivência. A cada revelação, por menor que fosse, ela sentia a rede de Bruno se apertar ainda mais em volta de seu pescoço. A armadilha que ele havia montado era intrincada, perfeita, e ela se sentia cada vez mais enredada.
Rafael, após a conversa fragmentada com Sofia, sentia-se dilacerado. A dor da traição ainda latejava, mas agora se misturava a uma preocupação crescente com a mulher que ele, apesar de tudo, ainda amava. As sombras do passado de Sofia eram reais, e a ameaça de Bruno era palpável. Ele sabia que não podia mais ficar parado, observando. Era hora de agir, de contra-atacar. A escolha difícil que ele fizera de buscar a verdade agora o colocava em rota de colisão direta com Bruno.
No dia seguinte, Rafael convocou uma reunião de emergência com seus advogados e o conselho administrativo da empresa. A atmosfera era tensa. As manobras de Bruno no mercado financeiro haviam começado a impactar os negócios dos Montenegro, e Rafael sabia que era apenas o começo. Bruno não era um inimigo qualquer; ele era um predador experiente, e seus ataques eram calculados e implacáveis.
"Precisamos identificar onde ele está nos atacando," Rafael disse aos advogados, a voz firme, mas com um tom de urgência. "Seus movimentos são precisos. Ele sabe onde estão nossas fraquezas."
Um dos advogados, um homem grisalho e experiente chamado Dr. Almeida, pigarreou. "Senhor Rafael, as últimas aquisições de empresas menores no setor parecem ter um padrão. Há um fio condutor conectando todas elas, e esse fio parece levar a uma holding offshore recém-criada, com capital significativo. Ainda não conseguimos rastrear os beneficiários finais, mas os indícios apontam para alguém com recursos consideráveis e uma ambição sem limites."
Rafael sentiu um frio na espinha. Holding offshore. Capital significativo. Ambição sem limites. Tudo isso soava terrivelmente familiar. Bruno estava usando seu poder financeiro para desestabilizar a família Montenegro, para pressioná-lo ainda mais. A ameaça a Sofia era apenas a isca; o verdadeiro alvo era o império que seu pai havia construído.
Enquanto isso, Sofia tentava manter a fachada de normalidade, mas cada minuto era uma tortura. Bruno a procurava constantemente, seja por telefone, seja através de mensagens enigmáticas. Ele a lembrava de seus acordos, das consequências de qualquer deslize. Ele a mantinha sob vigilância, como um falcão observa sua presa.
Naquela tarde, enquanto tomava chá na sala de estar, o telefone tocou. Era Bruno. Sofia sentiu seu estômago revirar. Ela atendeu, a voz tensa.
"Que bom que você atendeu, querida Sofia," a voz de Bruno soou, melíflua e ameaçadora. "Como está indo o nosso… acordo? Rafael já desconfia de alguma coisa?"
"Não," ela mentiu, a voz embargada. "Está tudo como você planejou."
Bruno riu, um som desagradável. "Excelente. Continue assim. Mas lembre-se, o tempo está correndo. Eu preciso que você me traga aquela prova. Aquela que está guardada no cofre do escritório de Rafael. Você sabe a qual me refiro."
Sofia sentiu o sangue gelar. A prova. Ela havia se esquecido dela na correria e no pânico. Era um documento antigo, um contrato que comprovaria uma transação ilegal feita anos atrás, uma transação que poderia arruinar a reputação da família Montenegro, e que Bruno usava como alavanca para seus planos atuais. Ela sabia que pegar aquele documento seria arriscado, mas sabia também que não tinha outra opção.
"Eu… eu vou tentar," ela gaguejou.
"Tentar não é suficiente, Sofia," Bruno advertiu, a voz perdendo a suavidade. "Você não quer que eu tome medidas mais drásticas, não é? Especialmente agora que Rafael está tão perto de descobrir meus planos. Um escândalo envolvendo você, talvez com um amante secreto, poderia ser bastante prejudicial para a imagem dele, não acha? Especialmente se esse amante tiver ligações duvidosas."
A ameaça era clara. Bruno estava disposto a usar a intimidade de Sofia para atingi-la, para destruí-la, e por extensão, a Rafael. Sofia sentiu uma onda de desespero. Ela estava presa em uma teia de aranha cada vez mais apertada, e a cada movimento, os fios se enrolavam em seu corpo, sufocando-a.
Mais tarde naquela noite, enquanto Rafael estava imerso em relatórios financeiros, Sofia agiu. O cofre do escritório de Rafael era um labirinto de códigos e senhas. Ela sabia a combinação geral, mas Bruno havia lhe dito que havia um compartimento secreto, acessível apenas com uma chave específica que ele possuía. Ela nunca havia visto essa chave.
Ela esperou até ter certeza de que Rafael estava ocupado. Com o coração disparado, ela foi até o escritório dele. A porta estava entreaberta. Ela espiou. Ele estava sentado à mesa, concentrado. Ela precisava de uma distração.
Ela desceu para a cozinha e preparou uma bandeja com um café especial para Rafael, adicionando uma dose extra de tranquilizante que Bruno havia lhe dado, sob o pretexto de ser um "remédio para as enxaquecas dele". Ela sabia que era errado, mas a imagem de Rafael sofrer, a imagem de tudo desmoronar, a impelia.
Com a bandeja em mãos, ela voltou ao escritório. Rafael aceitou o café com um sorriso fraco. "Obrigado, Sofia. Você não precisava se incomodar."
"Eu me incomodo," ela disse, a voz suave. Ela observou enquanto ele bebia o café. Poucos minutos depois, ele começou a parecer sonolento. Seus olhos pesaram, e ele esfregou o rosto.
"Estou… estou com um pouco de sono," ele murmurou.
"Descanse um pouco, Rafael," Sofia disse, a voz tensa. "Eu ficarei aqui."
Ela o observou adormecer na cadeira, a respiração lenta e profunda. O sentimento de culpa a consumiu, mas a necessidade de proteger a todos, de se livrar do jugo de Bruno, era maior. Ela sabia que a chave estaria em algum lugar, escondida por Bruno, para ser usada quando o momento fosse oportuno. Onde ele a esconderia?
Ela começou a vasculhar o escritório. Vasculhou gavetas, prateleiras, a mesa de Rafael. Nada. O desespero começou a tomar conta. E se Bruno tivesse mentido sobre a chave? E se tudo fosse uma farsa para ela se expor, para cometer um erro maior?
De repente, seus olhos pousaram em um quadro antigo na parede, um retrato do avô de Rafael. Havia algo fora do lugar. Ela se aproximou e notou uma pequena marca na moldura. Com as mãos trêmulas, ela pressionou a marca. Um clique suave soou, e um pequeno compartimento secreto se abriu na lateral do quadro. Lá dentro, brilhava uma pequena chave dourada. A chave de Bruno.
Com a chave em mãos, Sofia se dirigiu ao cofre. A combinação geral abriu a porta principal. Ela procurou pelo compartimento secreto que Bruno mencionara. Com a chave, ela o abriu. Lá estava. O contrato. A prova que Bruno queria.
Ela pegou o documento, sentindo o peso de seu futuro em suas mãos. Ao fechar o compartimento e o cofre, ela ouviu um barulho na porta. Rafael estava acordando. O tranquilizante não havia sido tão forte quanto ela esperava.
O pânico tomou conta dela. Ela sabia que não podia ser pega. Não ali, não agora. A rede de Bruno se apertava, e ela sentia que estava prestes a ser esmagada.