Amor sem Retorno II

Capítulo 2 — Sombras no Passado, Fogo no Presente

por Camila Costa

Capítulo 2 — Sombras no Passado, Fogo no Presente

A noite avançava, e Isabella dirigia pelas ruas desertas de São Paulo, o silêncio do carro amplificando o turbilhão em sua mente. A visão de Ricardo na galeria de arte fora como um soco no estômago, uma lembrança cruel e vívida de tudo o que ela havia perdido e, pior, de como fora traída. As palavras de Mariana ecoavam em sua cabeça: "Você não pode deixar que isso te consuma." Mas como? Como apagar a imagem dele, o sorriso dele, a traição dele, que se repetia em loop em sua memória?

Ela parou o carro em frente ao seu prédio, um edifício moderno e imponente no bairro nobre, um reflexo da vida que ela construíra antes de Ricardo. Subiu para o apartamento, a solidão pesando sobre seus ombros. A casa, antes um refúgio de amor e cumplicidade, agora parecia fria e vazia, assombrada por memórias que se recusavam a desaparecer.

Dona Irene, a fiel governanta, já havia se recolhido para seu quarto nos fundos, mas Isabella sabia que ela estaria atenta a qualquer chamado. A mulher era mais do que uma empregada; era uma segunda mãe, uma guardiã silenciosa de seus segredos e tristezas.

Isabella caminhou até a sala de estar, a luz fraca do abajur iluminando apenas um canto do cômodo. Sentou-se no sofá de couro, o mesmo onde tantas vezes se aconchegara com Ricardo, sentindo o peso de sua ausência como uma presença física. A taça de vinho que ela pegou em seguida parecia amarga em sua boca, mas ela a bebeu, uma tentativa fútil de anestesiar a dor.

Ela se lembrou do dia em que Ricardo a pediu em casamento. Foi em Paris, sob a Torre Eiffel iluminada, um cenário digno de um conto de fadas. Ele se ajoelhou, tirou um anel deslumbrante de diamantes e disse as palavras que ela sonhara em ouvir: "Isabella, você aceita ser minha esposa?" Naquele momento, ela se sentiu a mulher mais feliz do mundo, certa de que encontrara o amor de sua vida. Como ela pôde estar tão enganada?

O encontro na galeria a desestabilizou completamente. Não era apenas a presença dele, mas a forma como ele a olhou. Havia algo ali, algo que a fez questionar se ele realmente a tinha esquecido. Ou pior, se ele se arrependia do que fizera. Mas ela sabia que não podia se iludir. Ricardo era um homem de ambições, e Sofia, com sua influência e conexões, provavelmente representava um passo em sua carreira que ele não estava disposto a perder.

Os dias que se seguiram foram um borrão de trabalho e insônia. Isabella tentava se concentrar em seus projetos na agência de publicidade, mas sua mente divagava constantemente. Os olhares de seus colegas, a preocupação nos olhos de Mariana, tudo parecia amplificado pela sua própria fragilidade.

Uma tarde, enquanto revisava um material de campanha, seu celular vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido.

"Podemos conversar? É importante."

O coração de Isabella disparou. Ela sabia quem era, mesmo sem ter o nome salvo. Ricardo. A necessidade de saber o que ele queria se misturava ao pânico de reabrirem feridas. Depois de uma longa hesitação, ela digitou uma resposta curta e fria:

"Não tenho nada para conversar com você, Ricardo."

A resposta veio quase instantaneamente:

"Por favor, Isabella. Uma vez. Por tudo o que tivemos."

A menção de "tudo o que tivemos" a atingiu em cheio. Era um golpe baixo, uma tentativa clara de manipular seus sentimentos. Mas, ao mesmo tempo, uma parte dela, a parte que ainda amava o homem que ele fora, sentiu uma pontada de curiosidade, talvez até de necessidade de fechamento. Ela precisava saber por quê.

Decidiu marcar um local público e discreto, longe de olhares curiosos. Um café pequeno e charmoso no centro da cidade, frequentado por poucos clientes. Marcara para o final da tarde do dia seguinte.

Ao se aproximar do café, Isabella sentiu um frio na barriga. Ela se sentia vulnerável, exposta. Olhou ao redor antes de entrar, certificando-se de que não havia ninguém conhecido. Sentou-se em uma mesa no canto, pedindo um chá.

Não demorou muito para que a porta se abrisse e Ricardo entrasse. Ele parecia diferente, mais sério, menos o homem confiante e sorridente que ela conheceu. Seus olhos verdes, antes cheios de brilho, agora carregavam uma sombra de arrependimento. Ele a viu, aproximou-se da mesa e sentou-se à sua frente, sem pedir licença.

"Obrigado por vir, Isabella." Sua voz era baixa, rouca.

"Eu não disse que viria para conversar, Ricardo. Apenas para saber o que você quer." A frieza em sua voz era uma armadura que ela tentava manter.

Ele suspirou, olhando para suas mãos sobre a mesa. "Eu sei que você está com raiva. E com razão. Eu errei, Isabella. Errei feio."

"Errou?", Isabella riu sem humor. "Você não 'errou', Ricardo. Você me traiu. Com a minha prima. Destruiu tudo o que tínhamos, tudo em que eu acreditava."

"Eu sei que parece que foi por maldade, mas..."

"Mas o quê, Ricardo? Que foi um impulso? Que você não resistiu? Você escolheu, Ricardo. Você fez suas escolhas." As palavras saíam em um fluxo de dor reprimida.

"Eu estava confuso. Pressionado."

"Pressionado? Pressionado por quem? Pela Sofia? Pela carreira que ela poderia te dar? Você sempre soube o que queria, Ricardo. E eu não era parte disso."

Ele a olhou nos olhos, e por um instante, Isabella viu a sinceridade em seu olhar. "Eu te amei, Isabella. Amo você."

Aquelas palavras, ditas com tanta convicção, a atingiram como um raio. Ela o amou? E se amou, por que fez aquilo?

"Se você me amava, como pôde fazer isso?", a voz dela falhou.

"Eu não sei. Foi um momento de fraqueza, de vaidade. Sofia estava ali, oferecendo... algo que eu não sabia que estava buscando. E eu fui fraco." Ele estendeu a mão por cima da mesa, como se quisesse tocá-la, mas parou no ar. "Eu me arrependo todos os dias, Isabella. Todos os dias eu penso em você, no que eu perdi."

Isabella recuou a mão, seu coração batendo descompassado. As palavras dele a confundiam. Ela queria acreditar nele, queria que tudo aquilo fosse um grande mal-entendido, mas a imagem de Sofia, com seu sorriso traiçoeiro, não saía de sua mente.

"Você está com ela agora, não está?", Isabella perguntou, a voz embargada.

Ricardo hesitou. "Não estamos mais juntos."

"O quê?" Isabella ficou surpresa.

"Terminamos há algumas semanas. Foi um erro, desde o começo. Eu percebi que o que eu tinha com você era real. Era amor. E o que eu tive com Sofia... foi apenas uma distração, uma ilusão."

Isabella olhava para ele, tentando absorver aquelas informações. Ele estava dizendo a verdade? Ou era mais uma manipulação? A ideia de Ricardo livre, de ele estar arrependido, era tentadora. Mas o medo da decepção era maior.

"E o que você quer de mim agora, Ricardo? Que eu te perdoe? Que a gente volte como se nada tivesse acontecido?"

"Eu sei que seria pedir demais. Mas eu queria que você soubesse que eu sinto muito. E... eu queria saber se existe alguma chance de sermos amigos. De, quem sabe, um dia..."

"Um dia o quê, Ricardo? Um dia você me pede em casamento de novo? E eu, boba que sou, acredito em você mais uma vez?" A amargura voltou com força total.

"Não é isso, Isabella. Eu só... eu sinto sua falta."

A confissão dele a desarmou. Ela se lembrou de todos os momentos bons que compartilharam, das risadas, das conversas profundas, da cumplicidade. Era difícil acreditar que tudo aquilo havia se perdido.

"Eu também sinto sua falta, Ricardo", Isabella confessou, em um sussurro. "Mas o que você fez não tem perdão. A confiança foi quebrada. E a confiança é a base de tudo."

Ricardo abaixou a cabeça. "Eu sei. Eu só queria que você soubesse que eu me arrependo. E que, se você mudar de ideia, eu estarei aqui."

Ele se levantou, deixou o dinheiro na mesa e saiu, sem olhar para trás. Isabella ficou sentada, o chá intocado, o coração em pedaços novamente. As palavras dele eram um convite perigoso, uma brecha na muralha que ela construíra em torno de seu coração.

Enquanto dirigia de volta para casa, Isabella se sentia mais confusa do que nunca. Ricardo estava arrependido. Ele não estava mais com Sofia. Seria possível que ele realmente a amasse? Seria possível que eles tivessem uma segunda chance?

Ao chegar em casa, encontrou Mariana na sala, lendo um livro. A expressão da irmã mudou ao vê-la, notando a tristeza em seus olhos.

"O que aconteceu, Bella?"

Isabella sentou-se ao lado dela, a voz trêmula. "Eu encontrei o Ricardo."

Mariana fechou o livro, a preocupação estampada em seu rosto. "E o que ele queria?"

"Ele disse que se arrepende. Que me amava. Que não está mais com a Sofia."

Mariana a abraçou. "Oh, Bella. Eu sinto muito que você tenha passado por isso de novo. Mas não caia nessa, por favor."

"Eu não sei o que fazer, Mari. Eu ainda o amo. E ele disse que me ama."

"Amor não é só sentimento, Isabella. É confiança. É respeito. E ele quebrou tudo isso. Por mais que doa, você precisa se proteger."

Isabella se deixou ser abraçada pela irmã, sentindo o conforto de sua presença. Mas, no fundo de seu coração, uma pequena chama de esperança, perigosa e sedutora, começava a arder. A chama de um amor que se recusava a morrer, mesmo diante da traição. O fogo no presente, alimentado pelas sombras do passado.

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