Amor sem Retorno II
Amor sem Retorno II
por Camila Costa
Amor sem Retorno II
Autor: Camila Costa
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Capítulo 21 — O Silêncio da Traição
O sol da manhã parecia zombar da escuridão que pairava sobre o apartamento de Helena. As cortinas grossas, geralmente abertas para receber a luz vibrante do Rio de Janeiro, permaneciam fechadas, como se quisessem aprisionar a realidade que se desdobrava. Helena, de pé diante da janela, os olhos fixos em um ponto invisível na penumbra, sentia o peso de cada palavra dita na noite anterior. O confronto com Bruno, a revelação de sua traição, o beijo ardente com Ricardo – tudo ecoava em sua mente como um trovão distante, mas implacável.
Seu corpo tremia, não de frio, mas de uma mistura avassaladora de raiva, decepção e uma dor que parecia se instalar em cada fibra de seu ser. As lembranças dos últimos meses, de sua confiança em Bruno, de seus planos para o futuro, agora pareciam fragmentos de um sonho cruel que ela acordara abruptamente. O homem com quem ela construíra uma vida, que jurara amor eterno, era capaz de tal perfídia. E o pior: ela, Helena, sucumbira ao desejo proibido de Ricardo, um homem que, até pouco tempo, era o inimigo de seu noivo.
“Como pude ser tão cega?”, murmurou para si mesma, a voz embargada. A imagem de Bruno, com o rosto contorcido de dor ao vê-la com Ricardo, ainda a assombrava. Ele a acusara de ser fria, calculista, de ter planejado tudo para machucá-lo. Mas ela sabia, com a certeza que dilacerava sua alma, que a verdade era mais complexa e dolorosa. Ele a traíra primeiro, e o beijo com Ricardo foi uma reação desesperada, um grito mudo de sua alma ferida.
Um toque suave em seu braço a fez sobressaltar. Era Sofia, com o rosto preocupado, trazendo uma bandeja com um café fumegante e algumas frutas. Ela sabia que Helena não saíra do quarto desde a noite anterior, quando Bruno, furioso e humilhado, saíra batendo a porta, deixando um rastro de destruição emocional.
“Helena, você precisa comer alguma coisa”, disse Sofia, a voz baixa e reconfortante. “E precisa falar. Guardar isso aí dentro só vai te machucar mais.”
Helena virou-se para a irmã, os olhos marejados. Por um instante, a fachada de força que ela tentava manter desmoronou. As lágrimas rolaram livremente, molhando o rosto que até então parecia esculpido em mármore. Sofia a abraçou forte, sentindo os soluços que sacudiam o corpo da irmã.
“Ele… ele me destruiu, Sofia”, sussurrou Helena, a voz sufocada. “Como ele pôde? Eu confiei nele. Eu o amei!”
“Eu sei, irmã. Eu sei que dói. Mas você não é a culpada disso tudo. Bruno escolheu o caminho dele. E você… você também tem o direito de escolher o seu.”
A menção à escolha fez Helena se encolher. A escolha entre Bruno e Ricardo era um dilema insuportável. Bruno, o amor de sua juventude, o futuro planejado, mas agora manchado pela traição. Ricardo, a paixão avassaladora, o homem que a via, a entendia de uma forma que Bruno nunca conseguiu, mas com um passado nebuloso e uma conexão perigosa.
“Eu não sei mais o que pensar, Sofia. A cabeça está a mil, e o coração… o coração está em pedaços. Eu não sei quem eu sou mais. Eu não sei o que eu quero.”
“Dê um tempo para você mesma, Helena. Para respirar, para sentir. Não tome nenhuma decisão agora. Apenas sinta. E lembre-se de quem você é. Uma mulher forte, resiliente.”
Sofia a ajudou a se sentar à mesa, servindo o café. O aroma amargo contrastava com a doçura das frutas, um reflexo da própria vida de Helena naquele momento. Ela tomou um gole de café, sentindo o calor familiar descer pela garganta, mas incapaz de afastar o frio que a consumia. Olhou para Sofia, a gratidão em seus olhos evidente. Sua irmã sempre fora seu porto seguro, a rocha inabalável em meio às tempestades da vida.
Enquanto isso, em seu luxuoso apartamento com vista para a enseada de Botafogo, Bruno se afogava em uma ressaca não apenas de álcool, mas de amargura e orgulho ferido. A noite anterior fora um turbilhão de raiva. Ver Helena nos braços de Ricardo fora como um golpe físico. Ele tentara se convencer de que era uma armação, que Helena estava apenas provocando-o para se vingar. Mas no fundo de sua alma, ele sabia a verdade. A forma como Helena olhava para Ricardo, a intensidade que emanava dela, não era encenação. Era desejo. E isso o consumia.
Ele se levantou da cama, sentindo a cabeça latejar. A imagem de Helena, tão linda quanto cruel, com um sorriso que ele não via há meses, dançava em sua mente. Ele a amava, ou achava que amava. Mas o que era esse amor se ela era capaz de tal traição? Ele se sentia traído, sim, mas também humilhado. Ricardo, o empresário rival, o homem que ele desprezava, agora tinha um trunfo contra ele.
Uma notificação em seu celular o tirou de seus pensamentos. Era uma mensagem de texto de uma conta anônima: “Se você quer saber a verdade sobre Ricardo e seus negócios, me encontre hoje ao meio-dia no Café do Forte. Sozinho.”
Bruno franziu a testa. Quem seria? E que verdade seria essa? A curiosidade e a sede de vingança misturaram-se em seu peito. Talvez essa fosse a oportunidade que ele precisava para virar o jogo. Talvez essa fosse a chance de provar que Helena estava errada, que ele não era o vilão da história. Ele precisava de respostas. Precisava de provas. E se alguém estivesse disposto a lhe dar, ele estaria disposto a ouvir.
Ele se dirigiu ao banheiro, ligou o chuveiro e deixou a água quente cair sobre seu corpo, tentando lavar não apenas o suor da noite, mas a mágoa que o corroía. Ele não podia deixar Helena pensar que ele era o único culpado. Ele precisava desenterrar as verdades, por mais obscuras que fossem. E estava determinado a fazer isso, custasse o que custasse. A batalha por Helena, e por sua própria honra, estava longe de terminar.
Enquanto isso, Ricardo, alheio à tormenta que assolava Helena, observava o nascer do sol da varanda de seu apartamento em Ipanema. A noite anterior fora intensa, carregada de emoções que ele não sentia há anos. O beijo com Helena, tão inesperado quanto avassalador, reavivara nele a chama de um desejo adormecido. Ele sabia que estava brincando com fogo, que Helena era noiva de seu principal concorrente e que essa paixão poderia ter consequências desastrosas. Mas algo em Helena o atraía de forma irresistível. A força por trás de sua aparente fragilidade, a inteligência em seus olhos, a paixão que ela tentava reprimir.
Ele tomou um gole de uísque, o gosto amargo descendo pela garganta. Ele não era um homem de se apegar, de se envolver em relacionamentos duradouros. Sua vida sempre fora sobre negócios, sobre poder, sobre a conquista. Mas Helena era diferente. Ela o desafiava, o intrigava. E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentia algo que se assemelhava a um desejo genuíno de protegê-la.
Um som suave de notificação em seu celular o tirou de seus devaneios. Era uma mensagem de sua secretária: “Sr. Ricardo, o Sr. Bruno Costa solicitou uma reunião de emergência para hoje ao meio-dia. Ele quer discutir os termos de uma possível colaboração.”
Ricardo sorriu ironicamente. Bruno Costa querendo colaborar? Essa era uma novidade e tanto. Ele sabia que Bruno era arrogante e orgulhoso, incapaz de admitir uma derrota. Provavelmente, ele estava tentando uma cartada final, uma tentativa desesperada de salvar sua imagem e, quem sabe, reconquistar Helena.
“Colaboração, é?”, murmurou para si mesmo. “Vamos ver quem tem a melhor estratégia, Bruno.”
Ele sabia que a noite anterior com Helena, o beijo, a possível aproximação deles, tudo isso era um golpe direto no orgulho de Bruno. E Bruno, ele sabia, não tolerava ser humilhado. A reunião seria interessante. Talvez ele pudesse usar isso a seu favor. Talvez ele pudesse, finalmente, desmascarar a verdadeira face de Bruno para Helena. A batalha estava se tornando mais interessante a cada dia. E Ricardo estava pronto para jogar.
Ele olhou novamente para o mar, sentindo a brisa fresca em seu rosto. A cidade acordava lá fora, alheia às intrigas e paixões que fervilhavam em seus corações. Helena, Bruno, Ricardo – três almas presas em um emaranhado de desejo, traição e ambição. O silêncio da traição pairava sobre eles, mas todos sabiam que em breve, as palavras voltariam a ecoar, e a verdade, por mais dolorosa que fosse, viria à tona.