Amor sem Retorno II
Capítulo 22 — A Armadilha de Bruno
por Camila Costa
Capítulo 22 — A Armadilha de Bruno
O Café do Forte, com sua vista privilegiada para a Fortaleza de Copacabana, fervilhava de turistas e locais em busca de um café da manhã ou um brunch. A brisa do mar trazia consigo o cheiro salgado e a promessa de um dia ensolarado, um contraste gritante com a tensão que envolvia Bruno. Ele sentou-se em uma mesa afastada, pedindo um café expresso, seus olhos perscrutando a multidão, procurando qualquer sinal do remetente da mensagem anônima.
Cada pessoa que se aproximava, cada olhar que cruzava o seu, o deixava mais apreensivo. Quem seria? Um funcionário descontente de Ricardo? Alguém que Bruno conhecia? A incerteza o corroía, mas a vontade de desmascarar Ricardo, de provar a Helena que ele não era o único culpado, era ainda maior. Ele sentia que, se pudesse apresentar a Helena provas concretas da desonestidade de Ricardo, ela veria a verdade, entenderia sua própria dor e o perdoaria. Ele se agarrava a essa esperança como um náufrago a uma tábua.
O garçom trouxe seu café, e Bruno agradeceu com um aceno de cabeça, sem tirar os olhos da entrada do café. O tempo passava lentamente, cada minuto se arrastando como uma eternidade. Ele revivia o confronto com Helena, a dor em seus olhos quando ela confessou o beijo com Ricardo. Aquilo o destruíra. Ele se sentia impotente, humilhado. E Bruno Costa não suportava ser impotente.
De repente, um homem de meia-idade, com um terno discreto e um olhar penetrante, aproximou-se de sua mesa. Ele não se parecia com ninguém que Bruno conhecesse.
“Senhor Costa?”, perguntou o homem, a voz rouca e confiante.
Bruno assentiu, a guarda elevada. “É você?”
O homem sentou-se sem ser convidado, com uma desenvoltura que incomodou Bruno. “Em partes. Digamos que eu sou o mensageiro. O meu chefe me enviou para lhe entregar isso.”
Ele retirou um envelope grosso de dentro do paletó e o colocou sobre a mesa. Bruno pegou o envelope, sentindo seu peso. Parecia conter documentos.
“Seu chefe? Quem é o seu chefe?”, perguntou Bruno, a voz tensa.
O homem deu um sorriso que não alcançou seus olhos. “Alguém que tem um interesse mútuo em ver os negócios de Ricardo Vargas limpos. Ou, pelo menos, expostos.”
Bruno abriu o envelope. Lá dentro, havia cópias de contratos, extratos bancários e documentos que pareciam comprovar transações ilícitas, esquemas de lavagem de dinheiro e acordos obscuros. As informações eram detalhadas, chocantes. Era a prova irrefutável que ele precisava.
“Isso é… isso é impressionante”, disse Bruno, a admiração misturada com o ódio. “Como você conseguiu isso?”
“Como eu disse, meu chefe tem seus métodos. E nós acreditamos que você, com seus próprios motivos, também estaria interessado em usar essa informação. Especialmente para reconquistar a mulher que ama, não é?”
As palavras do homem atingiram Bruno em cheio. Ele estava sendo manipulado, usado. Mas, naquele momento, a manipulação pouco importava. O que importava era a chance de virar o jogo.
“Eu não amo Helena”, disse Bruno, tentando soar frio, mas falhando. “Eu apenas… não tolero ser enganado.”
O homem riu, um som seco. “Entendo. Bem, a decisão é sua. O que fazer com essas informações. Mas um conselho: use-as com sabedoria. Ricardo Vargas é um homem perigoso, e ele não hesitará em retaliar se sentir que está sendo ameaçado.”
O homem levantou-se, lançando um último olhar para Bruno. “Boa sorte, Senhor Costa.” E desapareceu na multidão tão subitamente quanto aparecera.
Bruno ficou sozinho com os documentos e a bebida. Ele folheou as páginas novamente, a adrenalina correndo em suas veias. Era o fim de Ricardo. E, com o fim de Ricardo, talvez fosse o recomeço para ele e Helena. Ele imaginou o momento em que apresentaria as provas a ela, o choque em seus olhos, a redenção em seu sorriso.
No entanto, uma sombra de dúvida pairava em sua mente. A mensagem anônima, o homem misterioso… quem estava realmente por trás disso? E por que eles estavam ajudando-o? Havia algo mais, algo que ele não estava vendo? A armadilha poderia ser dele.
Ele decidiu que não esperaria mais. Precisava confrontar Helena, mostrar a ela que ele não era o monstro que ela pensava, e que Ricardo era o verdadeiro vilão. Ele pegou o celular e discou o número de Helena. A chamada caiu na caixa postal.
“Helena, por favor, me escute”, disse ele, a voz embargada pela emoção contida. “Eu sei que tudo parece terrível agora, mas eu tenho provas. Provas sobre Ricardo. Provas que vão mudar tudo. Por favor, me dê uma chance de explicar. Me encontre. Por favor.”
Ele desligou, sentindo um nó na garganta. A urgência era palpável. Ele precisava agir rápido. Ele sabia que Bruno adorava frequentar o Terraço Itália para reuniões de negócios. Era um local discreto e luxuoso, perfeito para um homem como ele.
Enquanto isso, no elegante restaurante Terraço Itália, Bruno se preparava para encontrar Ricardo. A reunião, que ele mesmo solicitara, era uma audácia, um blefe. Ele não tinha a menor intenção de discutir colaboração. Sua única meta era confrontar Ricardo, pressioná-lo, talvez até mesmo arrancar uma confissão. E, com os documentos que agora possuía, ele se sentia mais confiante do que nunca.
Ao sentar-se à mesa reservada, Bruno viu Ricardo chegar, impecável em seu terno escuro, um sorriso confiante no rosto.
“Bruno, meu caro. Que surpresa agradável. Achei que tínhamos ultrapassado a fase das reuniões secretas”, disse Ricardo, sentando-se à sua frente.
“Ricardo, não perca seu tempo com rodeios. Eu sei o que você anda fazendo. Eu sei sobre os seus negócios sujos, sobre suas manipulações. E eu tenho provas.” Bruno deixou a frase pairar no ar, observando a reação de Ricardo.
Ricardo ergueu uma sobrancelha, mas seu sorriso não vacilou. “Provas, Bruno? Que interessante. E o que exatamente você acha que tem?”
“O suficiente para acabar com você. O suficiente para expor a sua verdadeira face para todos. Incluindo Helena.”
A menção de Helena fez algo mudar nos olhos de Ricardo. Uma sombra de preocupação, rápida e quase imperceptível, passou por seu olhar.
“Helena não tem nada a ver com isso, Bruno. Você não vai envolvê-la em suas loucuras.”
“Loucuras? Loucura é o que você fez com ela, com a minha noiva! E agora, com meus negócios! Você achou que podia me destruir, roubar tudo o que é meu?” A voz de Bruno estava carregada de fúria.
Ricardo inclinou-se para a frente, o tom de voz mudando para um sussurro perigoso. “Você é quem está louco, Bruno. Você traiu Helena, a humilhou. E agora, está obcecado em me culpar. Você é o único responsável pelo seu próprio desespero.”
“Mentira! Você armou tudo! Você a seduziu!” Bruno bateu a mão na mesa, atraindo alguns olhares curiosos.
“Eu não seduzi ninguém, Bruno. Helena é uma mulher adulta, ela faz suas próprias escolhas. E se ela escolheu se afastar de você, talvez seja porque ela finalmente abriu os olhos.”
A cada palavra de Ricardo, Bruno sentia a raiva crescer. Ele não podia acreditar que Ricardo estava tão calmo, tão confiante. Parecia que ele não tinha medo algum.
“Você se acha esperto, não é? Acha que pode me manipular, usar os outros para seus próprios fins. Mas eu não sou idiota, Ricardo. Eu sei quem você é. E agora, todos saberão.” Bruno pegou a pasta com os documentos, pronto para abri-la.
Ricardo apenas o observou, um sorriso enigmático nos lábios. “Seja lá o que você tem aí, Bruno, duvido que seja suficiente. Ou que você tenha coragem de usá-lo. Você é um covarde. Sempre foi.”
Bruno se levantou abruptamente, a pasta em mãos. “Vamos ver quem é o covarde, Ricardo.” Ele saiu do restaurante, deixando Ricardo sozinho à mesa, a expressão de Ricardo agora transformada em um calculismo frio.
Bruno saiu do Terraço Itália com a mente em polvorosa. Ele tinha a prova definitiva contra Ricardo, mas as palavras do rival o deixaram inquieto. Era possível que ele tivesse caído em uma armadilha? Que os documentos que ele recebeu fossem falsos, ou que houvesse algo mais por trás de tudo isso? Ele sabia que precisava ser cauteloso. A batalha estava longe de terminar, e cada movimento deveria ser calculado. Ele decidiu que iria a casa de Helena imediatamente. Precisava contar a ela tudo o que sabia, e a verdade, por mais dolorosa que fosse, era a única coisa que restava para salvá-la.