Amor sem Retorno II
Capítulo 4 — O Preço da Verdade
por Camila Costa
Capítulo 4 — O Preço da Verdade
A incerteza que se instalou na alma de Isabella após o evento beneficente a consumia. O cartão de visitas de Ricardo, deixado sobre a mesa de centro da sala, era um lembrete constante de sua presença e de suas palavras ambíguas. "Sem segundas intenções", ele dissera, mas o olhar em seus olhos verdes contava outra história. A história de um homem que, talvez, estivesse realmente arrependido e buscando uma reconciliação.
Mariana, percebendo a angústia da irmã, tentou intervir. "Bella, por favor, não se iluda. Ele te machucou demais. Se ele quisesse realmente voltar, teria lutado por você antes. Não depois de ter te traído com a sua própria prima."
"Mas ele disse que se arrepende, Mari. E que não está mais com a Sofia", Isabella argumentou, com a voz embargada. Ela queria acreditar nele, queria encontrar uma saída para aquela dor que a consumia.
"E você vai acreditar nele? O mesmo homem que te mentiu e te enganou? Isabella, a Sofia é sua prima! Como ele pôde te fazer isso?" A voz de Mariana era carregada de indignação e preocupação.
"Eu sei, eu sei. Mas e se ele estiver dizendo a verdade? E se eles realmente terminaram, e ele se deu conta do erro?" Isabella sentia-se presa em um dilema torturante.
"O erro não se desfaz com palavras bonitas, Bella. O erro dele teve consequências devastadoras. E você não pode apagar o passado."
A verdade era que Isabella estava assustada. Assustada de se permitir acreditar novamente, de se abrir para a possibilidade de amor e, em seguida, ser esmagada pela realidade. O trauma da traição deixara cicatrizes profundas, e o medo de reviver aquela dor a paralisava.
Enquanto isso, a vida profissional de Isabella seguia seu curso. Ela era uma profissional dedicada e competente, e seus colegas a respeitavam por isso. No entanto, a agência de publicidade onde trabalhava passava por uma reestruturação. Rumores de demissões e fusões circulavam pelos corredores, gerando um clima de apreensão.
Um dia, o chefe de Isabella, Sr. Almeida, a chamou em seu escritório. O coração dela disparou. Ela temia o pior.
"Isabella", ele começou, com um tom sério, "tenho uma notícia para você. A agência foi vendida para um novo grupo de investidores. E, com essa fusão, alguns cargos serão reavaliados."
O estômago de Isabella gelou. "O que isso significa, Sr. Almeida?"
"Significa que haverá cortes. E, infelizmente, seu cargo está entre os que foram considerados redundantes."
As palavras do Sr. Almeida atingiram Isabella como um golpe. Perder o emprego, depois de tanto tempo de dedicação, era um baque. Mas, de alguma forma, uma parte dela se sentiu aliviada. Era uma distração, algo concreto em meio à confusão emocional que a cercava.
"Eu entendo", ela disse, tentando manter a voz firme. "Quais são os próximos passos?"
O Sr. Almeida explicou os detalhes da demissão, o pagamento das verbas rescisórias, o período de transição. Isabella saiu do escritório sentindo um misto de choque e resignação. Ela precisava de tempo para processar tudo aquilo.
Naquela noite, ela contou a Mariana sobre a demissão. A irmã a abraçou, oferecendo conforto e apoio.
"Não se preocupe, Bella. Você é muito talentosa. Vai encontrar algo melhor, eu tenho certeza."
"Eu espero que sim, Mari. Preciso de um recomeço."
No dia seguinte, Isabella recebeu uma ligação inesperada. Era Ricardo.
"Isabella? Sou eu, Ricardo." Sua voz soava apreensiva.
"Ricardo. O que você quer?" Isabella tentou manter um tom neutro.
"Ouvi dizer sobre a sua agência. Sinto muito. Sei que isso deve ser difícil para você."
Isabella ficou surpresa. Como ele sabia? Será que ele estava a seguindo? A desconfiança voltou com força total. "Como você soube?"
"Eu tenho amigos na área de comunicação. Um deles trabalha na agência que comprou a sua. Soube que você foi desligada." Houve uma pausa. "Eu queria saber se você precisa de alguma coisa. Se posso ajudar de alguma forma."
O coração de Isabella apertou. A oferta de ajuda dele, vinda naquele momento de vulnerabilidade, era tentadora. Mas ela sabia que não podia aceitar. Ceder à ajuda dele seria como abrir uma porta para que ele entrasse novamente em sua vida, e ela não estava pronta para isso.
"Não, Ricardo. Obrigada. Eu me resolvo."
"Tem certeza? Eu tenho contatos. Posso te indicar para outras agências, posso te ajudar a encontrar algo..."
"Eu disse que não, Ricardo. Por favor, respeite isso." A voz de Isabella estava mais firme agora. Ela precisava impor limites.
Ricardo suspirou. "Tudo bem. Mas saiba que estou aqui se precisar. De verdade."
A ligação terminou, deixando Isabella ainda mais confusa. Ricardo parecia genuinamente preocupado. Mas a desconfiança permanecia. Ela não conseguia se livrar da sensação de que havia algo mais por trás de suas ações.
Nos dias seguintes, Isabella se dedicou a buscar um novo emprego. Ela enviou currículos, fez entrevistas. O mercado estava competitivo, e a frustração começou a se instalar. A falta de emprego, somada à incerteza em relação a Ricardo, a deixava esgotada.
Uma tarde, enquanto revisava seus e-mails, ela encontrou uma mensagem de Clara. Era um convite para um jantar exclusivo, organizado por um grupo de empresários para discutir novas parcerias e investimentos no mercado de arte.
"Seria uma ótima oportunidade para você fazer contatos, Bella", Clara escreveu. "E quem sabe, conhecer pessoas influentes."
Isabella hesitou. Mais uma vez, o medo de se expor, de enfrentar o desconhecido, a assaltava. Mas ela sabia que precisava sair da sua zona de conforto. Ela precisava se reconectar com o mundo.
"Ok, Clara. Eu vou."
O jantar foi em um restaurante sofisticado, com um ambiente íntimo e elegante. Isabella se sentiu um pouco deslocada no início, mas Clara a apresentou a várias pessoas, facilitando sua integração. Ela conversou sobre arte, sobre seus planos de recomeço, e sentiu que, aos poucos, estava recuperando um pouco de sua confiança.
Foi então que ela viu. Sentado a uma mesa próxima, conversando com um grupo de homens, estava Ricardo. Ele parecia mais confiante do que nunca, suas palavras fluindo com a segurança de um homem acostumado a negociar. Isabella sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela não esperava encontrá-lo ali.
Ela tentou ignorá-lo, focar em suas conversas. Mas o olhar dele a encontrava com frequência, e um sorriso sutil brincava em seus lábios. Era como se ele soubesse que ela estava ali, como se a estivesse observando.
Durante uma pausa na conversa, Isabella se afastou para ir ao banheiro. Ao passar pela mesa de Ricardo, ele a chamou.
"Isabella? Que coincidência te encontrar aqui."
Ela parou, sem se virar completamente. "Ricardo. Sim, uma coincidência."
"Você está linda. E parece estar se saindo muito bem neste evento." Ele a elogiou, mas havia algo em seu tom que soava... calculista.
"Estou tentando, Ricardo."
Ele fez um gesto para que ela se aproximasse. "Venha, sente-se um pouco. Quero te apresentar a algumas pessoas."
Isabella hesitou. Ir até a mesa dele era cair na armadilha. Mas recusar seria alimentar a desconfiança dela. Ela decidiu ir, com a guarda alta.
"Isabella, estes são meus sócios, Sr. Vasconcelos e Sr. Andrade", Ricardo disse, apresentando-a aos homens. "E esta é Isabella Viana, uma profissional brilhante que vocês deveriam conhecer."
Os homens a cumprimentaram cordialmente, e a conversa fluiu. Isabella se surpreendeu ao perceber que eles se interessavam genuinamente por suas ideias sobre o mercado de arte e sua visão para o futuro. Ricardo observava tudo atentamente, um brilho de satisfação em seus olhos.
Quando finalmente conseguiu se desvencilhar, Isabella se sentiu exausta. O encontro com Ricardo havia sido intenso. Ela não conseguia desvendar suas reais intenções. Ele estava sendo um aliado genuíno, ou apenas manipulando a situação a seu favor?
De volta para casa, Isabella não conseguia dormir. A dúvida a consumia. Ela decidiu que precisava da verdade, custasse o que custasse. Na manhã seguinte, ela pegou o carro e dirigiu até o escritório de Ricardo. Ela sabia que era um risco, mas a necessidade de clareza era maior do que o medo.
Ao chegar, foi recebida pela secretária, que a olhou com surpresa. "Srta. Viana! O Dr. Ricardo não esperava a sua visita."
"Eu sei. Mas preciso falar com ele, é urgente."
Ricardo apareceu no corredor, seu rosto uma mistura de surpresa e cautela. "Isabella? O que você está fazendo aqui?"
"Eu preciso da verdade, Ricardo. De uma vez por todas." Seus olhos encontraram os dele, desafiadores. "Você está me ajudando porque se arrepende e quer me ver bem, ou porque tem algum plano para mim? Você está usando a minha situação para se aproximar de mim novamente?"
Ricardo a encarou por um longo momento, seu semblante sério. Então, ele suspirou. "Isabella, sente-se. Por favor."
Eles se sentaram em sua sala, o silêncio pesado entre eles. Isabella o encarava, esperando.
"Você tem razão em desconfiar", Ricardo finalmente disse, sua voz baixa. "Eu não fui completamente honesto com você."
O coração de Isabella gelou. Ela sabia.
"A oferta de ajuda não foi inteiramente altruísta. Eu sabia que você estava passando por um momento difícil, e... eu sabia que você tinha um talento incrível. O grupo que comprou a sua agência é um dos meus investidores. Eu poderia influenciar a decisão deles. E eu o fiz."
Isabella o olhava, sem conseguir falar.
"Eu te indiquei", Ricardo continuou. "Eles gostaram do seu perfil. Mas a verdade é que eu... eu queria ter uma forma de estar por perto. De te ajudar. Talvez de te reconquistar." Ele hesitou. "Eu te amo, Isabella. Eu sei que errei, e não há um dia em que eu não me arrependa. Mas eu não quero te perder para sempre."
As palavras dele caíram como pedras. A verdade era dolorosa. Ele a amava, sim, mas também a estava manipulando. O preço da verdade era amargo. Isabella se levantou, sentindo o chão sumir sob seus pés.
"Eu não posso, Ricardo. Eu não posso mais. Você me machucou demais."
"Isabella, por favor, me dê uma chance de provar..."
"Não há mais chances, Ricardo. Acabou."
Ela se virou e saiu da sala, deixando-o para trás. A verdade, por mais dolorosa que fosse, era libertadora. Ela sabia o que precisava fazer. Precisava se afastar, não apenas de Ricardo, mas de toda essa confusão. Precisava encontrar um novo caminho, um caminho onde a verdade fosse clara e o amor fosse puro. O preço da verdade era alto, mas Isabella estava disposta a pagá-lo.