Amores que Doem II

Amores que Doem II

por Isabela Santos

Amores que Doem II

Por Isabela Santos

Capítulo 1 — O Retorno Inesperado

O ar em Ipanema parecia mais denso, carregado de uma eletricidade silenciosa que precede as tempestades. O sol da tarde, em sua derradeira tentativa de aquecer o asfalto da Avenida Vieira Souto, pintava o céu de tons alaranjados e rosados, um espetáculo que, outrora, seria a tela perfeita para a tranquilidade de Sofia. Mas hoje, a beleza efêmera do pôr do sol apenas acentuava a inquietude que a consumia. Sentada em sua varanda, a brisa salgada acariciando seus cabelos castanhos rebeldes, ela observava o vaivém da praia, cada movimento uma pontada em sua alma. Havia algo no ar, um prenúncio de mudança que a deixava em alerta.

Seis anos. Seis longos anos haviam se passado desde que o mundo de Sofia desmoronara em um turbilhão de mentiras e desilusões. Seis anos tentando reconstruir os pedaços, um por um, com a resiliência que a vida, cruel e generosa em suas lições, lhe ensinara. A boutique de moda que administrava, um sonho que nutria desde a adolescência, era hoje um sucesso. As vitórias profissionais, no entanto, não conseguiam preencher o vazio deixado por um amor que a moldara e a quebrara em igual medida.

O burburinho da rua chegou aos seus ouvidos, misturado ao som das ondas quebrando na areia. Um carro de luxo, diferente dos habituais, parou em frente ao seu prédio. Um homem desceu. Alto, impecavelmente vestido em um terno escuro que contrastava com a leveza do clima carioca. Seus cabelos, antes escuros como a noite, agora ostentavam fios prateados nas têmporas, mas o porte, a postura, a aura de autoridade inegável, eram os mesmos. O coração de Sofia deu um salto traiçoeiro, um soco no estômago que a deixou sem ar. Era ele. Eduardo.

Os anos haviam sido gentis com ele. Ou talvez cruéis. Aos poucos, as rugas de expressão que ela se lembrava haviam se aprofundado, marcando um rosto antes jovial com a experiência da vida. Mas seus olhos, aqueles olhos azuis penetrantes, ainda possuíam a mesma intensidade, a mesma capacidade de ler a alma de quem quer que ousasse encará-los. Sofia sentiu o sangue gelar e, ao mesmo tempo, um calor estranho percorrer suas veias. A surpresa era avassaladora, a presença dele ali, naquele momento, era um golpe direto em sua fachada de fortaleza que ela levara tanto tempo para construir.

Ele olhou para cima, como se sentisse o peso do seu olhar, e seus olhos encontraram os dela. Um instante congelado no tempo. Um silêncio ensurdecedor pairou entre eles, carregado de memórias, de dor, de um amor que um dia pareceu eterno e que se provou ser apenas uma chama passageira, mas que queimara com intensidade devastadora. Um leve sorriso, quase imperceptível, surgiu nos lábios de Eduardo. Um sorriso que continha mais perguntas do que respostas.

Sofia desviou o olhar, incapaz de sustentar a intensidade do seu. Levantou-se abruptamente, a taça de vinho esquecida em sua mão. O tremor em seus dedos era evidente. “Não”, murmurou para si mesma. “Não agora. Não assim.” Ela precisava de ar, precisava fugir daquele fantasma que acabara de materializar-se em sua porta.

Desceu correndo as escadas, ignorando a campainha que já soava insistentemente. Precisava de um momento, apenas um momento para processar aquela aparição que parecia ter saído de seus pesadelos mais sombrios e, paradoxalmente, de seus sonhos mais secretos. Ao chegar à rua, viu Eduardo parado em frente ao prédio, a figura imponente atraindo olhares curiosos. Ele a viu. Seus olhos fixaram-se nela, e por um instante, o tempo pareceu parar novamente.

“Sofia?”, sua voz, grave e familiar, rompeu o silêncio. Era a mesma voz que ela ouvira em seus pesadelos, a mesma que a fizera suspirar de amor e chorar de desespero.

Ela hesitou, o corpo paralisado pela emoção. Mas a determinação que a levara a superar tantas adversidades falou mais alto. Respirou fundo, endireitou os ombros e caminhou em sua direção. A cada passo, o coração batia mais forte, um tambor descompassado ecoando em seu peito.

“Eduardo”, sua voz saiu um pouco trêmula, mas firme. Era a primeira vez que pronunciava o nome dele em seis anos. A sensação era ao mesmo tempo estranha e dolorosa.

Ele se aproximou, seus olhos percorrendo-a de cima a baixo. Havia uma mistura de surpresa e algo mais que Sofia não conseguia decifrar em seu olhar. “Você… você não mudou nada”, disse ele, a voz carregada de uma emoção contida.

“E você, Eduardo, mudou bastante”, ela respondeu, um tom de ironia sutil em sua voz. A verdade era que ele mudara. Havia uma maturidade em seu rosto, uma profundidade em seus olhos que antes não existia. Mas a essência, a aura que o cercava, essa permanecia inalterada, como um imã que a atraía e a repelia ao mesmo tempo.

Ele riu, um som rouco e inesperado. “O tempo é implacável, não é? Mas você parece ter encontrado a fonte da juventude. Continua linda, Sofia.”

A gentileza inesperada em suas palavras a desarmou. Ela desviou o olhar, sentindo o rubor subir por seu pescoço. “O que você está fazendo aqui, Eduardo?” A pergunta era direta, sem rodeios. Ela precisava saber.

Seus olhos voltaram a encontrar os dela, e o olhar dele tornou-se sério. “Eu voltei, Sofia. Voltei para o Rio. Para ficar.”

A notícia a atingiu como um raio. Voltou? Para ficar? O Rio, a cidade que um dia compartilharam, que guardava tantos segredos e tantas dores entre eles, agora seria palco de um reencontro que ela nunca imaginara. Um arrepio percorreu sua espinha. A tranquilidade que ela tanto lutara para conquistar parecia prestes a ser abalada. A tempestade anunciada pelo ar denso de Ipanema finalmente chegara. E ela tinha um nome: Eduardo.

Ela tentou mascarar a surpresa, manter a compostura. “Voltou?” Repetiu, a voz agora fria. “E o que te traz de volta depois de tanto tempo? A saudade da sua terra?”

Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Sofia sentiu o perfume familiar dele, um misto de especiarias e sofisticação, que a transportou para um passado que ela jurara ter enterrado. “Eu voltei para resolver algumas coisas. E para… te ver.”

A última frase pairou no ar como uma promessa perigosa. Sofia sentiu um nó se formar em sua garganta. Aquele homem à sua frente era o responsável por alguns dos capítulos mais dolorosos de sua vida, mas também, ela precisava admitir, pelos mais intensos. O passado, que ela pensava ter selado em um baú trancado a sete chaves, agora batia à sua porta, exigindo ser reaberto.

“Me ver?”, repetiu ela, a voz quase um sussurro. “Por quê?”

Ele a encarou, seus olhos azuis fixos nos dela, buscando alguma resposta, alguma concessão. “Porque eu sinto que… que ainda temos muito o que conversar, Sofia.”

Conversar. A palavra soava insignificante diante da magnitude do que havia entre eles. Conversar? Como se fosse um simples mal-entendido, uma discordância trivial. O que eles tinham ido muito além de uma simples conversa. Era uma história de paixão avassaladora, de confiança traída, de um amor que se transformara em ressentimento.

Sofia negou com a cabeça, um gesto lento e deliberado. “Não, Eduardo. Não temos mais nada a conversar.” Ela deu um passo para trás, afastando-se dele, como se a proximidade dele pudesse incendiar sua alma. “O que havia entre nós acabou há muito tempo. E eu sigo em frente.”

O olhar dele endureceu. A máscara de gentileza se desfez, revelando a determinação que sempre a fascinara e a assustara. “Você pode tentar seguir em frente, Sofia, mas eu não vim para ser ignorado. Eu voltei, e desta vez, vou ficar.”

As palavras dele ecoaram em sua mente, um prenúncio de que aquela noite em Ipanema seria apenas o começo de um turbilhão. A tempestade estava apenas começando a se formar. E Sofia sabia, com uma certeza arrepiante, que Eduardo era a personificação dela.

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