Amores que Doem II

Capítulo 2 — O Fantasma do Passado

por Isabela Santos

Capítulo 2 — O Fantasma do Passado

A brisa marinha, antes um sopro de alívio, agora parecia carregar o peso de uma verdade incômoda. Sofia entrou em seu apartamento, fechando a porta com um clique que, para ela, soou como um ponto final definitivo. Mas o eco da voz de Eduardo, “Eu voltei, e desta vez, vou ficar”, ressoava em sua mente, desfazendo qualquer pretensão de paz. Ela se encostou na porta, os olhos fechados, tentando afastar a imagem dele, a presença dele que, mesmo à distância, parecia permear cada canto do seu lar.

Seis anos de esforço, de autocontrole, de construir uma vida onde ele não existia. Uma vida de sucesso profissional, de amizades sinceras, de um vazio preenchido pela satisfação de suas próprias conquistas. Ela havia se tornado uma mulher forte, independente, dona de si. E agora, ele reaparecia, como um fantasma do passado, vindo para desestabilizar tudo.

Ela caminhou até a sala, o olhar perdido nas obras de arte contemporâneas que adornavam as paredes. Cada objeto, cada móvel, contava uma história de sua jornada solo. Mas em meio a tudo aquilo, a memória de Eduardo era um espectro incômodo, uma sombra que ela se esforçava para ignorar.

“Ficar”, ela repetiu em voz baixa, o amargor tomando conta de sua garganta. “Ele acha que pode simplesmente reaparecer e dizer que vai ficar?” A audácia dele a deixava perplexa. A facilidade com que ele parecia ter esquecido a dor que causara, a forma como ele simplesmente partira sem explicações, sem despedidas.

Sofia foi até a cozinha, onde a taça de vinho ainda repousava sobre o balcão. A bebida, antes um convite à contemplação do pôr do sol, agora parecia sem graça. Ela a pegou, deu um gole longo e amargo, como se tentasse engolir a própria raiva.

Lembrou-se daquele dia. O dia em que tudo desmoronou. A descoberta das mentiras, a frieza nos olhos dele, a confissão dolorosa que ela jamais esqueceria. Ele a traíra. E não uma vez, mas de forma sistemática, descarada. A dor fora física, um aperto no peito que a deixara sem ar. Ela o amara com toda a força de sua alma, acreditara em cada palavra, em cada promessa. E tudo se revelara uma farsa.

Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto, aquecendo sua pele. Ela a enxugou rapidamente com o dorso da mão. Não. Não iria chorar. Não por ele. Não mais. A mulher forte que ela se tornara não se permitia mais ser refém de suas emoções, especialmente daquelas causadas por ele.

Ela se dirigiu ao quarto, a silhueta esguia e elegante, mas com os ombros levemente tensos. Abriu o guarda-roupa, a variedade de roupas de grife um testemunho de seu sucesso. Mas nada ali parecia capaz de apagar a imagem de Eduardo parado na rua, o olhar intenso que a desnorteou.

Uma notificação em seu celular chamou sua atenção. Era uma mensagem de Marina, sua melhor amiga e sócia.

Marina: Amiga, você sumiu! Onde você está? Preciso te contar uma novidade incrível sobre a coleção nova!

Sofia hesitou. Contar a Marina sobre Eduardo? Marina, que sempre esteve ao seu lado, que a viu sofrer e a ajudou a se reerguer. Marina, que odiava Eduardo com todas as forças.

Sofia: Oi, Mari! Desculpa, me distraí. Tô em casa. A novidade pode esperar até amanhã? Tô meio… pensativa hoje.

Marina: Pensativa? Por quê? Aconteceu alguma coisa? Você está bem?

Sofia suspirou. Era impossível esconder tudo de Marina. Mas por enquanto, ela precisava processar aquilo sozinha. “Tô bem, só um dia longo. A gente se fala amanhã, prometo.”

Ela deixou o celular de lado. Precisava de um plano. Como reagir a essa volta inesperada? Eduardo sempre fora um homem de ambições, de negócios, de conquistas. Ele não voltaria ao Rio sem um motivo forte. E o motivo, para ela, era óbvio, embora doloroso de admitir.

Ela se lembrou das palavras dele: “Eu voltei para resolver algumas coisas.” Que coisas? Ele havia deixado para trás um império em ascensão, um nome a zelar, e uma vida inteira. O que seria tão importante a ponto de trazê-lo de volta, especialmente sabendo que ela estaria aqui?

Uma onda de medo e raiva a invadiu. Ela não queria reviver o passado. Não queria ter que lidar com as lembranças, com a dor, com a tentação que ele sempre representara.

Sofia decidiu que precisava de uma distração. Pegou a bolsa, as chaves e saiu, decidida a não passar a noite em seu apartamento, revivendo memórias dolorosas. Ela dirigiu sem rumo, as luzes da cidade passando em borrões pela janela. Acabou em um barzinho charmoso em Laranjeiras, um lugar que frequentava com Marina para esquecer os problemas.

Pediu uma caipirinha e sentou-se em um canto, observando as pessoas. A música suave, a conversa baixa, o burburinho agradável. Tudo isso a ajudou a se acalmar um pouco. Ela pegou o celular novamente, desta vez para verificar as notícias. Um artigo chamou sua atenção: “Eduardo Monteiro assume a presidência da Monteiro Holdings após afastamento inesperado do pai.”

O coração de Sofia disparou. Monteiro Holdings. A empresa que era o orgulho de Eduardo, o império que ele construíra com tanto afinco. O pai dele estava afastado? Então era por isso. Ele voltara para assumir os negócios. Mas, ainda assim… a parte sobre “te ver” não saía de sua cabeça.

Ela estava tão absorta em seus pensamentos que não percebeu a figura que se aproximava de sua mesa.

“Sofia?”

Ela ergueu os olhos, o choque novamente tomando conta dela. Era Eduardo. Ele a encontrara. Como?

“O que você está fazendo aqui?” ela perguntou, a voz tensa.

Ele sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. “Eu sabia que você viria para cá. É um dos seus lugares favoritos, não é?” Ele se sentou sem ser convidado, tomando a cadeira à sua frente. “E eu realmente preciso conversar com você.”

Sofia sentiu uma pontada de desespero. Ela estava presa. “Eduardo, eu já disse que não temos nada para conversar.”

“Temos sim”, ele insistiu, o tom de voz mais sério. “Assuntos pendentes. Assuntos que não podem ser resolvidos com um aceno de cabeça na rua.” Ele olhou ao redor, como se verificasse se alguém os observava. “Assuntos que envolvem o nosso passado, Sofia. E o nosso futuro.”

O futuro. Aquela palavra, dita por ele, era uma ameaça velada. Ela sentiu o estômago revirar. “Nosso futuro não existe, Eduardo. Você fez questão de enterrar isso há seis anos.”

Ele meneou a cabeça lentamente. “Você pensa que me conhece, Sofia. Mas você não sabe metade do que aconteceu. Não sabe o que me levou a fazer o que fiz.”

Sofia riu, um riso seco e amargo. “E você acha que eu me importo? Eu segui em frente. Construí a minha vida. Eu não preciso das suas desculpas ou das suas justificativas. Eu só quero que você me deixe em paz.”

“Eu não posso te deixar em paz, Sofia”, ele disse, a voz baixa e intensa. “Não até que você me ouça.” Ele se inclinou para frente, os olhos azuis fixos nos dela. “Eu preciso que você saiba a verdade.”

A verdade. A palavra, dita por ele, era um gatilho perigoso. A verdade que ela pensava conhecer a destruíra. Seria essa outra verdade? Uma que a destruiria ainda mais?

“Que verdade, Eduardo? A verdade de que você me traiu? A verdade de que você partiu sem olhar para trás? Ou a verdade de que você agora quer me usar para algum jogo de interesses?” A raiva borbulhava em suas veias, a dor transformando-se em ressentimento.

Ele suspirou, parecendo cansado. “Nada disso. A verdade é mais complicada do que você imagina. E está ligada à Monteiro Holdings.”

Sofia o encarou, confusa e desconfiada. “O que a sua empresa tem a ver com a nossa história?”

“Tudo”, ele respondeu. “Tudo tem a ver com ela. E com você.” Ele fez uma pausa, como se reunisse forças. “Sofia, eu preciso da sua ajuda.”

A ajuda. Aquela palavra, vinda dele, era surreal. Sofia não conseguia acreditar no que estava ouvindo. O homem que a quebrara agora pedia sua ajuda?

“Minha ajuda?” ela repetiu, incrédula. “Você veio do exterior para assumir a sua empresa e agora precisa da minha ajuda? Que tipo de ajuda, exatamente?” Ela arqueou uma sobrancelha, o ceticismo evidente em seu rosto.

Eduardo olhou para ela, seus olhos azuis transmitindo uma urgência que ela não via há anos. “Uma ajuda que apenas você pode me dar. Algo relacionado ao passado. Algo que só você sabe.”

Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O passado. Era para lá que ele a queria levar? Para o inferno que ela tanto se esforçara para esquecer?

“Eu não sei do que você está falando”, ela mentiu, desviando o olhar.

“Eu sei que você sabe”, ele insistiu, a voz firme. “Aquela noite, antes de eu partir… você me disse algo. Algo que parecia insignificante na época, mas que agora… agora faz todo o sentido.”

Aquela noite. A noite em que ele a traíra. A noite em que ela descobriu tudo. O que ela poderia ter dito a ele naquela noite que agora era tão crucial? Sua mente vagou pelas memórias fragmentadas, as lágrimas, as acusações, a dor lancinante.

Ela se lembrou de ter falado sobre um antigo sócio do pai dele, um homem misterioso que sempre inspirara desconfiança em seu pai. Mas isso era há anos. Como isso poderia estar ligado à Monteiro Holdings?

“Eu não me lembro de ter dito nada importante”, ela mentiu novamente, tentando manter a compostura.

“Você se lembra, Sofia”, ele disse, a voz baixa e persuasiva. “E eu preciso que você se lembre agora. Porque o que está em jogo é maior do que nós dois. É maior do que a Monteiro Holdings.”

Sofia sentiu o peso daquelas palavras. A urgência em seus olhos, a seriedade em seu tom. Havia algo de diferente nele. Algo que a fazia questionar suas próprias convicções. Ele parecia desesperado. Mas ela sabia que não podia cair em seu jogo novamente.

“Eu sinto muito, Eduardo”, ela disse, levantando-se da cadeira. “Mas eu não posso te ajudar. E eu preciso ir.”

Ela se virou para sair, mas a mão dele a segurou suavemente pelo braço. O toque, embora leve, enviou uma corrente elétrica por seu corpo.

“Sofia, por favor”, ele disse, a voz carregada de súplica. “Não se vá. Não me deixe sozinho com isso. É importante. Para nós dois.”

Ela o encarou, seus olhos encontrando os dele. Aquele olhar intenso, cheio de segredos e de uma dor que ela conhecia bem. O fantasma do passado estava ali, na sua frente, pedindo uma chance. E, para seu próprio desespero, uma pequena parte dela estava disposta a ouvir.

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