Amores que Doem II
Capítulo 3 — Segredos Revelados e Consequências Sombrias
por Isabela Santos
Capítulo 3 — Segredos Revelados e Consequências Sombrias
O toque de Eduardo em seu braço foi um choque, uma faísca que acendeu uma reação em cadeia em seu corpo adormecido. Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha, a pele formigando sob o calor de sua mão. Por um instante, ela ficou paralisada, os olhos fixos nos dele, tentando decifrar a avalanche de emoções que ali se debruçavam. Medo, desespero, uma centelha de esperança talvez? Ou apenas a manipulação calculada de um homem que sabia exatamente como jogá-la.
Ela puxou o braço suavemente, afastando-se dele como se estivesse se afastando de uma brasa viva. A necessidade de fugir, de se proteger daquele furacão que ele representava, era avassaladora. Mas a persistência em seu olhar, a urgência em sua voz, a mencionada ligação com a Monteiro Holdings e, acima de tudo, a lembrança de uma conversa obscurecida pelo tempo, a fizeram hesitar.
“O que você quer que eu me lembre, Eduardo?”, ela perguntou, a voz tensa, mas contida. Ela precisava de respostas. Precisava entender o que o trazia de volta, o que ele acreditava que ela sabia e que poderia salvar seu império.
Ele soltou um suspiro de alívio contido, como se tivesse tirado um peso dos ombros. “Senta, Sofia. Por favor. Só mais um pouco.”
Relutantemente, ela cedeu, sentando-se novamente à mesa. A caipirinha intocada servia de testemunha silenciosa daquele reencontro inesperado. O barulho ambiente parecia ter diminuído, substituído pelo som de seus corações batendo em um ritmo descompassado.
“Lembra-se de quando você me contou sobre o seu pai?”, Eduardo começou, a voz baixa e séria. “Sobre as preocupações dele com a Monteiro Holdings? Sobre aquele sócio antigo, o Sr. Valente?”
Sofia assentiu lentamente, a memória voltando em fragmentos vívidos. Seu pai, um homem de negócios honesto e trabalhador, sempre fora reservado sobre os detalhes de seus primeiros empreendimentos. Mas ele mencionara, em momentos de preocupação, a influência obscura de um antigo sócio, um homem chamado Valente, cujas práticas eram questionáveis e que parecia ter desaparecido do mapa. Sofia, em sua ingenuidade juvenil, havia compartilhado essas preocupações com Eduardo, em um momento de intimidade após uma discussão sobre os rumos da Monteiro Holdings.
“Você disse que seu pai desconfiava de algo que ele via nos livros, nos números. Algo que não batia. Ele suspeitava que Valente estava desviando dinheiro, mas não tinha provas. E depois, Valente sumiu, e seu pai nunca mais o viu.”
“E então você partiu”, Sofia completou, a voz embargada. “E eu nunca mais pensei nisso. Até agora.”
“O pai do Sr. Valente faleceu há poucas semanas”, Eduardo explicou, os olhos fixos nos dela. “E em seu testamento, ele deixou uma cláusula peculiar. Uma que nos liga diretamente. Um pacote de ações da Monteiro Holdings, que pertencia a ele, foi deixado para… para mim. Sob a condição de que eu fosse capaz de provar a fraude que ele mesmo cometeu contra a empresa anos atrás.”
Sofia o encarou, a mandíbula travada. Fraude?
“Eu não entendo”, ela disse. “Ele quer que você prove a fraude que ele cometeu?”
“Exatamente. É uma jogada arriscada, eu sei. Mas faz parte do plano dele. Ele me deixou um conjunto de documentos, pistas. E uma delas aponta para um ex-funcionário do meu pai, alguém que trabalhava na contabilidade na época em que Valente era sócio. Alguém que poderia ter sido cúmplice.” Eduardo fez uma pausa, sua expressão carregada de angústia. “E eu suspeito que esse cúmplice pode ser o seu pai, Sofia.”
O ar faltou nos pulmões de Sofia. Seu pai? Cúmplice de Valente? A ideia era absurda. Seu pai era a personificação da integridade.
“Não”, ela disse, com veemência. “Meu pai jamais faria algo assim. Ele era um homem de princípios.”
“Eu sei que você pensa isso. E eu quero acreditar nisso”, Eduardo respondeu, sua voz suave, mas firme. “Mas os documentos que recebi… eles apontam para ele. E a única pessoa que poderia me ajudar a entender o que aconteceu, a única que sabia das desconfianças do seu pai, era você. O seu pai nunca falou diretamente comigo sobre isso. Mas ele confiou em você. Ele te contou os detalhes.”
Sofia sentiu uma vertigem. As palavras de Eduardo eram como dardos venenosos atingindo seu coração. Seu pai, um homem que ela idolatrava, envolvido em uma fraude? E Eduardo, o homem que a destruiu, agora a acusava de algo que afetava a memória de seu pai.
“Você está mentindo”, ela sussurrou, a voz trêmula. “Você está tentando me manipular. Você quer me usar para conseguir as ações, para fortalecer seu poder na empresa. É isso?”
Ele balançou a cabeça, a decepção estampada em seu rosto. “Sofia, por que você acha que eu voltei? Para te ver? Para reviver o passado? Sim, eu senti sua falta. Sim, eu me arrependi de muitas coisas. Mas eu voltei porque a Monteiro Holdings está em perigo. E a verdade sobre o passado do meu pai pode destruir tudo o que ele construiu. E se o seu pai estiver envolvido… isso pode destruir você também.”
A menção ao seu pai, à sua reputação, à sua memória, foi um golpe baixo. Sofia sentiu a raiva se misturar à confusão e ao medo.
“Você não tem o direito de falar do meu pai assim”, ela disse, a voz trêmula. “Você não sabe nada sobre ele.”
“E é por isso que preciso da sua ajuda, Sofia”, Eduardo insistiu. “Eu não quero acreditar que seu pai seja culpado. Mas as evidências são fortes. Preciso que você me ajude a descobrir a verdade. Se ele for inocente, quero provar isso. E se ele não for… precisamos lidar com isso antes que seja tarde demais.”
Sofia olhou para ele, para a intensidade em seus olhos, para a angústia que parecia consumi-lo. Ela o odiava. O odiava por ter voltado, por ter trazido com ele o espectro de suas dores e agora, o espectro da culpa de seu pai. Mas ela também o conhecia. Conhecia sua ambição, sua determinação. E, em algum lugar profundo, uma pequena voz lhe dizia que ele não estava mentindo sobre o perigo.
“E se eu não quiser te ajudar?”, ela perguntou, desafiadora.
Eduardo suspirou, um som de derrota. “Então eu terei que seguir sozinho. E as consequências podem ser devastadoras. Para todos nós.” Ele se levantou, o terno escuro destacando-se contra a luz suave do bar. “Pense nisso, Sofia. Eu estarei no meu hotel, no Copacabana Palace. Se você decidir que a verdade vale a pena, me procure.”
Ele se virou e saiu, deixando Sofia sozinha em sua mesa, a caipirinha esquecida, o coração em pedaços. A noite, que começara com a surpresa perturbadora de seu retorno, agora se transformara em um pesadelo. Seu pai. Uma fraude. Eduardo. A Monteiro Holdings. Tudo se misturava em um turbilhão de incertezas e perigos.
Ela ficou ali sentada por um longo tempo, o barulho do bar se tornando um zumbido distante. A imagem de seu pai, o homem justo e honesto que ela conhecia, lutava contra as palavras de Eduardo, as pistas, os documentos. Seria possível que ela estivesse errada sobre ele?
Sofia pegou o celular. Marina. Ela precisava falar com Marina. Marina, que conhecia seu pai, que a ajudara a reconstruir sua vida. Marina, que a alertaria sobre os perigos de Eduardo.
“Mari, desculpa incomodar a essa hora”, ela disse, a voz embargada. “Mas eu preciso te contar uma coisa. É… é sobre o Eduardo. E sobre o meu pai.”
Do outro lado da linha, a voz de Marina soou preocupada. “Sofia? O que aconteceu? Você está bem?”
Sofia respirou fundo. Era hora de enfrentar a tempestade. “Não, Mari. Não estou bem. O Eduardo voltou. E ele voltou com uma história que pode abalar o mundo todo.”
Enquanto falava, Sofia sentiu o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros. Ela não sabia se podia confiar em Eduardo, mas sabia que não podia ignorar a possibilidade de que algo sombrio estivesse pairando sobre a memória de seu pai. A verdade, por mais dolorosa que fosse, precisava vir à tona. E ela, Sofia, estava agora no centro desse redemoinho.