Amores que Doem II
Capítulo 4 — O Encontro com o Passado e a Sombra da Suspeita
por Isabela Santos
Capítulo 4 — O Encontro com o Passado e a Sombra da Suspeita
O sol da manhã banhava a Cidade Maravilhosa com sua luz dourada, mas para Sofia, o dia amanhecera carregado de nuvens escuras. A conversa com Marina, ao longo da noite, fora um misto de choque, incredulidade e um crescente pavor. Marina, sempre pragmática, a aconselhou a se afastar de Eduardo, a não se deixar envolver em seus jogos. Mas o nome do pai de Sofia estava em jogo, e isso era algo que ela não podia ignorar.
“Você tem certeza, Sofia?”, Marina perguntou, a voz ainda embargada de sono, mas firme. “Ele te magoou profundamente. E agora ele volta com uma história dessas? Parece muito conveniente, não acha?”
Sofia suspirou, esfregando as têmporas. “Eu sei, Mari. Eu sei. Mas e se for verdade? E se meu pai realmente estiver envolvido? Você sabe como ele era ético, mas também era teimoso. Se ele descobriu algo sobre Valente e Eduardo, e quis proteger a todos… pode ter agido de forma imprudente.”
“Imprudente? Sofia, seu pai era um homem de negócios brilhante e honrado. Ele não faria nada que comprometesse sua integridade. Talvez Eduardo esteja mentindo para te manipular. Ele sempre soube como jogar com as pessoas.”
“Eu sei, mas a Monteiro Holdings… o pai dele está doente. Eduardo assumiu o controle. Ele tem poder. E se ele estiver mesmo em perigo, e se meu pai estiver envolvido… eu preciso saber. Não posso viver com essa dúvida.”
“E você vai se encontrar com ele de novo?”, Marina perguntou, a voz tingida de preocupação.
“Eu preciso”, Sofia respondeu, a decisão tomada. “Eu vou até o hotel dele. Vou ouvir o que ele tem a dizer. Mas com os pés no chão. Sem ilusões.”
Vestindo um tailleur impecável, escolhido para transmitir confiança e profissionalismo, Sofia dirigiu até o Copacabana Palace. O luxo e a imponência do hotel eram um contraste gritante com a turbulência que sentia por dentro. Ela se sentia vulnerável, exposta, como se estivesse entrando em um campo minado.
Ao chegar à recepção, anunciou seu nome e o motivo de sua visita. A recepcionista a guiou por corredores opulentos até uma suíte de luxo com vista para o mar. A porta se abriu, revelando Eduardo, impecavelmente vestido, como sempre. Ele estava de pé, perto da janela, observando a praia.
Seu olhar se voltou para ela, e um sorriso discreto surgiu em seus lábios. “Sofia. Pensei que não viria.”
“Eu disse que precisava pensar”, ela respondeu, entrando na suíte. O aroma de seu perfume pairava no ar, familiar e perturbador. “Mas não posso deixar meu pai ser acusado sem que eu saiba a verdade.”
Ele se aproximou, mas manteve uma distância respeitosa. “Fico feliz que tenha vindo. Por favor, sente-se.” Ele apontou para um sofá elegante.
Sofia sentou-se, a postura ereta, os olhos fixos nele. Ela não ia se deixar abalar por sua presença, por seu charme.
“Explique-me tudo, Eduardo. Desde o início. Sem rodeios.”
Eduardo sentou-se em uma poltrona próxima, o olhar sério. “Quando meu pai adoeceu gravemente, ele me entregou a gestão da empresa. E junto com ela, uma caixa antiga, com documentos de anos atrás. Ele me disse que havia um segredo guardado ali, um que poderia salvar a Monteiro Holdings de um grande perigo que se aproximava.”
Ele fez uma pausa, como se relembrasse. “Eu, na época, estava focado em expandir os negócios, em novos mercados. Achei que meu pai estava sendo paranoico. Mas quando recebi a notícia da morte do Sr. Valente e a cláusula em seu testamento, entendi que ele tinha razão. Havia algo podre no reino da Monteiro Holdings.”
Ele pegou uma pasta de couro que repousava sobre a mesinha de centro e a abriu. “Esses são alguns dos documentos que meu pai me deixou. Cartas, extratos bancários, anotações. Eles apontam para desvios de dinheiro, para transferências para contas offshore na época em que Valente era sócio. E em alguns desses documentos, há menções a um intermediário, alguém que facilitava essas transferências. Alguém que operava em conjunto com Valente.”
Ele tirou um pedaço de papel amassado da pasta e o estendeu para Sofia. Era uma nota, escrita à mão, com algumas cifras e um nome. “O nome que aparece aqui é o de um ex-gerente financeiro da Monteiro Holdings, que trabalhou em estreita colaboração com meu pai e Valente naquela época. E esse nome… é o do seu pai, Sofia.”
Sofia pegou o papel, as mãos tremendo. A caligrafia era desconhecida, mas a menção ao seu pai a fez sentir um nó na garganta. “Isso não prova nada. Pode ser qualquer um.”
“Eu sei”, Eduardo concordou. “Mas há mais. Uma carta de meu pai, escrita anos atrás, para um colega de confiança, falando sobre suas suspeitas em relação a Valente e a um funcionário da empresa que agia de forma suspeita. Ele descreve esse funcionário como alguém que se dizia leal, mas que na verdade trabalhava contra ele. Ele não menciona o nome, mas a descrição… bate com o seu pai, Sofia.”
Sofia sentiu um nó no estômago. A descrição do seu pai, um homem que sempre fora conhecido por sua lealdade e integridade, agora parecia ter um lado sombrio que ela desconhecia.
“Meu pai jamais faria isso”, ela repetiu, a voz embargada. “Ele era um homem justo.”
“Eu quero acreditar em você, Sofia. De verdade. Mas meu pai estava apavorado. Ele sentia que havia uma conspiração. E ele desconfiava de todos que estavam próximos a Valente.” Eduardo a encarou, a urgência em seus olhos mais intensa do que nunca. “Ele me pediu para investigar. Para encontrar a verdade, custasse o que custasse. E você é a chave para isso. Você é a única que pode me ajudar a entender o que aconteceu. Você era próxima do seu pai. Você o conhecia. Você pode me dizer se essa história faz sentido, se meu pai estava certo em suas desconfianças.”
Sofia fechou os olhos por um instante, tentando processar tudo. A imagem de seu pai, um homem gentil e amoroso, lutava contra a possibilidade de que ele estivesse envolvido em algo tão sombrio. Era demais.
“Eu preciso de tempo para pensar”, ela disse, a voz baixa. “Eu preciso de tempo para processar tudo isso. E para… para não acreditar em tudo que você está me dizendo. Você me magoou profundamente, Eduardo. Você destruiu minha confiança. Como posso confiar em você agora?”
Eduardo suspirou, um som de resignação. “Eu entendo. E eu não espero que você confie em mim cegamente. Mas a verdade precisa ser descoberta. E se a verdade implicar seu pai, é melhor que seja você a descobrir, não eu. E eu estarei aqui para te apoiar, para te ajudar a lidar com isso.”
Ele se levantou e caminhou até uma pequena mesa, onde havia uma garrafa de água e um copo. Serviu-se e ofereceu a ela. Sofia recusou com um aceno de cabeça.
“A Monteiro Holdings está enfrentando um risco iminente”, Eduardo continuou, a voz tensa. “Esses documentos mostram que a fraude de Valente não foi um incidente isolado. Parece que ele estava construindo um esquema para tomar o controle da empresa. E o Sr. Valente, em seu testamento, deixou uma armadilha para mim. Se eu não provar a fraude, as ações que ele me deixou, que são essenciais para a minha maioria no conselho, irão para outro acionista. Alguém que, coincidentemente, tem interesse em ver a Monteiro Holdings em dificuldades.”
Sofia o encarou, a confusão ainda presente, mas a preocupação começando a se instalar. “Quem é essa pessoa?”
Eduardo hesitou por um momento, como se relutasse em pronunciar o nome. “Ricardo Alencar.”
O nome atingiu Sofia como um soco. Ricardo Alencar. Um empresário ambicioso, conhecido por suas jogadas de mercado agressivas e por sua rivalidade histórica com a família Monteiro. Ele era um tubarão no mundo dos negócios, e Sofia sabia que ele não mediria esforços para conseguir o que queria.
“Ricardo Alencar?”, ela repetiu, incrédula. “Mas… ele é um rival da sua família.”
“Exatamente. E ele sabe que meu pai estava investigando Valente. Ele provavelmente sabia da existência dessas ações e do plano de Valente para me enfraquecer. Ele quer a Monteiro Holdings, Sofia. E ele não vai hesitar em usar qualquer meio para conseguir isso.”
A gravidade da situação começou a pesar sobre Sofia. O retorno de Eduardo não era apenas um drama pessoal, era uma questão de negócios, de poder, e talvez, de justiça.
“O que você quer que eu faça, Eduardo?”, ela perguntou, a voz baixa. “Eu não tenho acesso aos documentos do meu pai. Não tenho como provar ou refutar suas alegações.”
“Eu quero que você converse com pessoas do passado. Com ex-funcionários do seu pai. Com pessoas que trabalharam na Monteiro Holdings naquela época. Alguém que possa ter visto algo, ouvido algo. Você conhece o seu pai melhor do que ninguém. Você pode sentir se algo está errado, se ele estaria envolvido nisso. Eu preciso da sua intuição, Sofia. Preciso da sua lealdade ao seu pai.”
Sofia se levantou, sentindo o peso daquele pedido. Era uma tarefa hercúlea, que a forçaria a reviver memórias dolorosas e a confrontar a possibilidade de que o homem que ela amava e admirava pudesse ter um lado sombrio.
“Eu vou pensar nisso, Eduardo”, ela disse, a voz firme. “Mas eu preciso ter certeza. Certeza de que você está sendo honesto. Certeza de que você não está me usando.”
Ele a acompanhou até a porta, seus olhos azuis encontrando os dela. “A verdade é a única coisa que importa agora, Sofia. E eu acredito que você e eu, juntos, podemos encontrá-la.”
Ao sair da suíte, Sofia sentiu o peso do mundo sobre seus ombros. O fantasma do passado havia retornado, e agora trazia consigo a sombra da suspeita sobre a memória de seu pai. E, para seu próprio desespero, ela sabia que teria que se aproximar dele, do homem que a ferira, para desvendar a verdade.