Amores que Doem II
Capítulo 5 — O Jogo de Sombras e a Tentação do Passado
por Isabela Santos
Capítulo 5 — O Jogo de Sombras e a Tentação do Passado
O sol da tarde em Ipanema, antes um convite à serenidade, agora parecia um holofote implacável, revelando as rachaduras na fachada de fortaleza que Sofia tanto lutara para erguer. O encontro na suíte do Copacabana Palace deixara um rastro de incerteza e uma série de perguntas sem resposta. Eduardo havia desferido um golpe certeiro em seu coração, não com a dor da traição passada, mas com a dor da dúvida sobre a memória de seu pai.
“Eu vou pensar nisso”, ela havia dito, a frase ecoando em sua mente como um mantra de hesitação. Pensar em quê? Em confiar novamente naquele que a quebrara? Em desenterrar segredos que poderiam manchar a imagem de seu pai, o homem que ela sempre vira como um farol de integridade? A ideia era angustiante.
De volta ao seu apartamento, o silêncio parecia ensurdecedor. Ela caminhou pela sala, os olhos fixos na vista para o mar, as ondas quebrando na areia como um lembrete constante da passagem do tempo e das incertezas que ele trazia. Marina, sua amiga e confidente, estava a um telefonema de distância, mas Sofia sabia que precisava processar aquilo sozinha. A decisão de se envolver naquela teia de intrigas era dela, e apenas dela.
Ela se sentou no sofá, a mente em turbilhão. As palavras de Eduardo ressoavam em sua cabeça: “Meu pai desconfiava de Valente e de um funcionário da empresa que agia de forma suspeita. Ele descreve esse funcionário como alguém que se dizia leal, mas que na verdade trabalhava contra ele.”
Seu pai. O homem que ela amava incondicionalmente. Seria possível que ele tivesse um lado sombrio, um segredo guardado a sete chaves? A ideia era repulsiva. Seu pai era um homem de princípios, que sempre valorizou a honestidade acima de tudo. Ele jamais se envolveria em algo tão escuso.
Mas e se…? E se houvesse uma explicação? Uma explicação que Eduardo, com sua ambição e seu desejo de poder, estivesse distorcendo para se beneficiar? Ou, pior, e se seu pai, em sua busca por justiça, tivesse se comprometido de alguma forma?
Sofia pegou seu celular e discou o número de Marina. “Mari, preciso de você. Agora.”
Marina chegou em poucos minutos, o olhar preocupado. “Sofia, o que está acontecendo? Você está pálida.”
“Eduardo voltou, Mari. E ele tem uma história… uma história sobre meu pai.” Sofia contou a Marina sobre o encontro, sobre os documentos, sobre a acusação velada que pairava sobre a memória de seu pai.
Marina a ouviu com atenção, o rosto pálido. “Isso é loucura, Sofia. Seu pai jamais faria algo assim. Ele era um homem de ouro.”
“Eu sei. Mas Eduardo… ele parece tão seguro. E o Ricardo Alencar está envolvido. Ele quer a Monteiro Holdings. E se meu pai descobriu algo sobre o esquema de Valente e Alencar, e tentou se proteger ou proteger a empresa de alguma forma que saiu pela culatra…?”
“Não, Sofia. Não pense nisso. Eduardo é um manipulador. Ele te fez sofrer muito. Não caia no jogo dele de novo.”
“Mas e se ele estiver certo, Mari? E se meu pai estiver envolvido? Eu não posso deixar essa dúvida me consumir.” Sofia sentiu os olhos marejarem. “Eu preciso saber a verdade. Por ele. Por mim.”
Marina a abraçou com força. “Eu estou aqui para você, amiga. O que você decidir, eu estarei do seu lado. Mas seja cautelosa. Eduardo é perigoso.”
Naquela tarde, Sofia tomou uma decisão. Ela não podia ignorar a possibilidade, por mais dolorosa que fosse. Ela precisava investigar. Precisava conversar com pessoas do passado, desenterrar memórias esquecidas.
Ela começou com o que tinha. A nota amassada que Eduardo lhe dera. O nome do ex-gerente financeiro. Ela o reconheceu vagamente. Um homem chamado Carlos Andrade, que trabalhou na Monteiro Holdings por muitos anos, e que se aposentou logo após a saída de Valente.
Sofia decidiu que precisava contatar Carlos Andrade. Uma busca rápida na internet revelou que ele ainda residia no Rio, em um bairro mais afastado.
“Eu vou até ele”, Sofia disse a Marina, determinada. “Eu preciso falar com alguém que esteve lá, que viu tudo. Talvez ele possa me dar alguma luz.”
Marina tentou dissuadi-la, mas Sofia estava irredutível. Ela vestiu um vestido discreto, mas elegante, e dirigiu até o endereço de Carlos Andrade. A casa era simples, um sobrado modesto em uma rua tranquila. O coração de Sofia batia forte em seu peito enquanto ela apertava a campainha.
A porta se abriu, revelando um senhor de cabelos grisalhos e um olhar cansado. Era Carlos Andrade.
“Senhor Andrade?”, Sofia perguntou, a voz um pouco trêmula. “Eu sou Sofia Mendes, filha do Sr. Mendes. Nós precisamos conversar.”
O rosto de Carlos Andrade se contraiu em uma expressão de surpresa e, talvez, de desconforto. “Sofia Mendes? Sua filha? Faz tanto tempo…”
“Eu sei. Mas é urgente. Preciso falar sobre o passado. Sobre a Monteiro Holdings. Sobre a época em que o Sr. Valente e o Sr. Eduardo Monteiro trabalhavam lá.”
Carlos Andrade hesitou por um momento, como se avaliasse a situação. Finalmente, ele cedeu. “Entre, minha jovem. Entre.”
Dentro da casa, o ambiente era acolhedor, mas carregado de uma melancolia antiga. Sofia explicou a situação, a preocupação com a memória de seu pai, as suspeitas de Eduardo. Carlos Andrade a ouviu atentamente, o rosto impassível.
Quando ela terminou, ele suspirou. “Seu pai era um homem bom, Sofia. Um dos melhores. Eu o admirava muito. Ele era um exemplo de integridade.”
Aquelas palavras trouxeram um alívio momentâneo para Sofia. “Então o senhor acredita que ele não estaria envolvido em nada de errado?”
Carlos Andrade olhou para ela, um olhar que parecia carregar o peso de muitos segredos. “Olha, Sofia, naquele tempo, as coisas eram… complicadas. O Sr. Monteiro, o pai de Eduardo, era um homem justo, mas ambicioso. E o Sr. Valente… ele era um lobo em pele de cordeiro. Ele tinha uma influência terrível sobre o Sr. Eduardo naquela época. E eu… eu vi muitas coisas.”
Ele fez uma pausa, reunindo coragem. “Seu pai desconfiava de Valente. Ele sabia que algo estava errado. Ele tentou alertar o Sr. Monteiro, mas Valente era astuto. Ele sabia como manipular as pessoas. E eu… eu era apenas um funcionário. Eu via o que acontecia, mas tinha medo de falar. Medo de perder meu emprego, medo de me comprometer.”
“O que o senhor viu, Sr. Andrade?”, Sofia perguntou, a voz embargada.
“Vi transferências de dinheiro estranhas. Vi documentos sendo alterados. Vi o Sr. Valente pressionando o Sr. Eduardo, tentando colocá-lo contra o pai dele. E vi seu pai… seu pai, Sofia, ele tentou proteger o Sr. Monteiro. Ele tentou impedir Valente. Houve uma briga feia entre eles, pouco antes de Valente sumir.”
Sofia sentiu um aperto no peito. Seu pai, lutando contra Valente?
“E o senhor Eduardo?”, ela perguntou, a voz tensa. “O que ele fazia?”
Carlos Andrade balançou a cabeça lentamente. “O jovem Eduardo… ele era muito influenciável. Valente o manipulava com facilidade. Ele o fazia acreditar que o pai dele estava tentando controlá-lo, que ele era o único que entendia o verdadeiro potencial da empresa. Seu pai o amava, mas não sabia como lidar com a ambição do filho, com a influência de Valente.”
As palavras de Carlos Andrade pintavam um quadro sombrio e complexo. Um jogo de sombras onde seu pai, o homem íntegro, tentava proteger a todos, enquanto Eduardo, o jovem ambicioso, era manipulado.
“Mas o senhor disse que meu pai estava envolvido em desvios de dinheiro…”, Sofia questionou, a voz fraca.
Carlos Andrade a olhou com compaixão. “Eu não disse que ele estava envolvido em desvios. Eu disse que havia menções ao nome dele em documentos. Mas eu nunca vi seu pai desviar dinheiro. O que eu vi foi ele tentando descobrir a verdade. Ele estava investigando Valente. Ele estava reunindo provas. Ele me pediu para guardar alguns documentos importantes, por segurança. Documentos que ele acreditava que poderiam expor Valente e salvar a empresa. Ele temia que Valente pudesse incriminá-lo, caso ele descobrisse as fraudes.”
Um raio de esperança surgiu em Sofia. Seu pai não era um cúmplice. Ele era um herói.
“Esses documentos… o senhor ainda os tem?”, Sofia perguntou, a voz cheia de expectativa.
Carlos Andrade hesitou, o olhar pairando em algum lugar distante. “Eu os guardei. Por segurança. Para o caso de algo acontecer com seu pai. Mas depois que Valente sumiu, e o Sr. Eduardo se afastou… eu achei que tudo tinha acabado. Que a verdade estava enterrada.”
O coração de Sofia disparou. A chave para tudo estava ali, com Carlos Andrade. A verdade que Eduardo buscava, a prova da inocência de seu pai.
“Senhor Andrade, por favor. Eu preciso desses documentos. Eles podem provar a inocência do meu pai. E podem expor o que realmente aconteceu.”
Carlos Andrade a encarou por um longo momento, como se ponderasse a decisão. Finalmente, ele assentiu. “Eu vou buscá-los. Mas com uma condição. Você precisa prometer que usará essa informação com sabedoria. Que a verdade virá à tona, mas que a memória do seu pai será honrada.”
Sofia assentiu com veemência. “Eu prometo.”
Enquanto Carlos Andrade se dirigia a um cômodo nos fundos da casa, Sofia sentiu uma mistura de alívio e apreensão. A verdade estava perto. Mas ela sabia que o jogo de sombras estava longe de acabar. Eduardo, com seus próprios objetivos, Ricardo Alencar, com sua ambição voraz. E ela, no centro de tudo, com a difícil tarefa de desvendar a verdade e proteger a memória de seu pai. O passado, que ela tanto tentara enterrar, voltara para assombrá-la, e a tentação de se entregar à dor e ao ressentimento era forte. Mas a esperança de redenção, a esperança de justiça, a impulsionava a seguir em frente. O jogo de sombras havia apenas começado.