Amores que Doem II
Amores que Doem II
por Isabela Santos
Amores que Doem II
Autor: Isabela Santos
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Capítulo 6 — O Beijo Roubado e a Verdade Inconveniente
O ar da sala de estar de Clara parecia ter engordado, denso com a tensão silenciosa que se instalara entre ela e Eduardo. As palavras de Sofia ainda ecoavam em sua mente, um veneno sutil que questionava a solidez de tudo o que ela acreditava ser verdade. Cada olhar de Eduardo, cada gesto seu, agora parecia tingido por uma nova camada de incerteza. Ele se aproximou, o perfume amadeirado que ela tanto conhecia e amava pairando no ar.
“Clara… o que está acontecendo?” A voz dele era um sussurro rouco, carregado de uma preocupação genuína que, por um instante, acalmou o turbilhão dentro dela.
Ela se virou, os olhos verdes, antes tão límpidos, agora turvos por uma tempestade de emoções conflitantes. “Acontece, Eduardo, que eu acabei de descobrir que o homem que eu achava que era meu pai… não era.” A confissão saiu em um sopro, quase inaudível, mas o peso das palavras carregava a força de um trovão.
O rosto de Eduardo se contraiu em confusão. Ele deu mais um passo, a mão se estendendo hesitantemente, como se temesse que ela pudesse se desintegrar a qualquer toque. “Como assim? Do que você está falando, meu amor?”
Clara riu, um som seco e desprovido de alegria. “Sofia me contou tudo. A verdade sobre a minha mãe, sobre o Ricardo… e sobre você.” A última frase saiu com uma amargura que ela não conseguiu disfarçar.
Eduardo a fitou, os olhos azuis arregalados, um misto de choque e incredulidade estampado em seu semblante. “Sofia? Mas… o que ela disse?” Ele parecia perdido, como um marinheiro em mar revolto.
“Ela disse que o meu pai biológico não é o senhor Antônio. E que você, Eduardo, sabia disso. E sabia quem era o meu pai de verdade desde o início.” A voz dela tremia, cada palavra uma facada em seu próprio coração. Ela não queria acreditar, mas a forma como Sofia apresentara tudo… com um tom de quem revelava um segredo guardado a sete chaves por anos.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eduardo deu um passo para trás, como se as palavras de Clara tivessem o empurrado fisicamente. Ele passou as mãos pelo cabelo, o desespero evidente em seus movimentos. “Clara, isso… isso não é verdade. Não do jeito que você está pensando.”
“Ah, não? E qual é o jeito certo, Eduardo? Me explique! Me diga que a Sofia está mentindo! Me diga que você não sabia que eu era filha do Ricardo!” As lágrimas finalmente rolaram, quentes e salgadas, traçando caminhos em seu rosto.
Ele a olhou, os olhos marejados, a dor refletida nas profundezas de seus orbes azuis. “Eu… eu sabia. Eu soube por volta da época em que a sua mãe… partiu.” A confissão saiu com dificuldade, cada sílaba pesada como uma pedra. “Ela me contou. Ela estava sofrendo, Clara. E eu… eu jurei a ela que a protegeria, que protegeria você de toda aquela dor. Eu achei que era o certo a fazer.”
Clara engasgou, a respiração presa na garganta. “Proteger? Você achou que mentir para mim, deixar que eu crescesse acreditando em uma mentira, era proteger?” A raiva e a mágoa se misturavam em um coquetel explosivo dentro dela.
“Na época, parecia o único jeito. Sua mãe estava tão frágil… e o Ricardo era um homem complicado. Ela temia que ele quisesse te levar para longe, que você sofresse as consequências daquele turbilhão que era a vida dele. Ela me implorou, Clara. Me implorou para não contar a ninguém. Para deixar que você vivesse uma vida normal, longe de tudo aquilo.” A voz de Eduardo embargava, a culpa evidente em cada palavra.
“E você, como um bom amigo, cumpriu o desejo dela? Sem pensar em mim? Sem pensar que um dia eu teria o direito de saber a verdade sobre mim mesma?” Ela apertou os punhos, as unhas cravando na palma das mãos.
“Eu pensei em você! Pensei em como seria doloroso. E eu estava lá. Sempre estive. Eu te amei desde o primeiro dia, Clara. E se eu pude te poupar de uma dor a mais… eu fiz isso.” Ele tentou se aproximar novamente, mas Clara recuou, o corpo tenso.
“Poupar? Você me roubou a verdade, Eduardo! Você permitiu que eu carregasse um fardo de desinformação por toda a minha vida! E agora… agora eu olho para você e não sei mais em quem confiar!” A voz dela subiu, um grito de dor e desespero.
“Clara, por favor…”
Ela se virou bruscamente, a silhueta esguia tremendo. “Não me diga ‘por favor’! Não venha com suas desculpas! Eu preciso de ar. Preciso pensar.” Ela correu para a porta da sala, abrindo-a com violência e saindo para a varanda, deixando Eduardo sozinho na sala, a escuridão da noite parecendo refletir a escuridão que se abatera sobre o coração dele.
O vento frio da noite acariciou o rosto de Clara, mas não conseguiu apagar o calor da mágoa. Ela se agarrou à grade da varanda, o olhar perdido no jardim escuro. As estrelas pareciam distantes, frias, indiferentes à sua dor. Ela sempre vira Eduardo como um porto seguro, um amigo leal que a conhecia melhor do que ninguém. E agora, esse porto havia se revelado um mar de segredos.
O beijo… o beijo que eles haviam trocado naquela tarde, sob o sol morno da primavera, parecia agora uma traição. Um beijo roubado, não apenas de sua inocência, mas de sua própria identidade. Ela se sentia como uma peça de um quebra-cabeça que finalmente se revelara, mas cujas peças não se encaixavam mais.
Eduardo saiu para a varanda, parando a uma distância respeitosa. Ele a observou por um longo momento, o rosto marcado pela angústia. “Eu nunca quis te machucar, Clara. Nunca. O meu amor por você… é real. Sempre foi.”
Ela não se virou. “Amor? Como pode ser amor, Eduardo, se é construído sobre uma mentira?”
Ele suspirou, a voz carregada de resignação. “Talvez o amor precise de verdades… mas também precisa de compaixão. E de escolhas difíceis.” Ele hesitou, então continuou, a voz mais firme. “O que eu fiz, eu fiz para proteger. E eu assumo a responsabilidade por isso. Mas o que sinto por você… isso é a única verdade que eu tenho para te oferecer.”
Clara fechou os olhos, a imagem de seu pai, o senhor Antônio, o homem que a criou com tanto amor, invadindo sua mente. E depois, a lembrança de sua mãe, a mulher de beleza etérea e olhar melancólico, que sempre guardou um segredo nos olhos. E agora, Ricardo. O nome dele soava estranho em sua boca, um eco de algo que ela nunca conheceu, mas que a definia.
O beijo. Aquele beijo inesperado e arrebatador. Tinha sido tão… certo. Tão natural. E agora, sabia ela, era um beijo com um fantasma. Um beijo que ela, em sua inocência, havia aceitado sem saber as complicações que ele carregava.
Ela finalmente se virou, o rosto banhado em lágrimas, mas os olhos encontrando os dele com uma força renovada. “Eu não sei o que sentir, Eduardo. Eu não sei o que pensar. Você me amou? Ou você apenas me protegeu de uma forma equivocada?”
“Eu amei você. E amo. E se eu pudesse voltar atrás, talvez eu fizesse diferente. Mas eu não posso. Só posso seguir em frente, com você, se você me deixar.” A súplica em sua voz era palpável.
Clara deu um passo para trás, a decisão ainda não tomada, a alma dilacerada. “Eu preciso de tempo, Eduardo. Tempo para processar tudo isso. Tempo para entender quem eu sou, agora que sei quem eu não sou.” Ela saiu da varanda, deixando Eduardo sob o céu estrelado, o peso dos segredos pairando entre eles como uma nuvem densa. A verdade, como sempre, trazia consigo não a libertação, mas um novo fardo de dores.