O Ladrão do meu Coração II
Capítulo 7 — O Refúgio nas Memórias
por Valentina Oliveira
Capítulo 7 — O Refúgio nas Memórias
Marina correu pelas ruas molhadas, a chuva agora uma amiga que a escondia do mundo. Cada gota que batia em seu rosto era um lembrete do beijo, daquele instante roubado na tempestade que a fez questionar tudo. O que ela sentira? Desejo? Raiva? Ou a velha e teimosa chama de um amor que se recusava a morrer?
Ao chegar em seu modesto apartamento, a solidão a abraçou como um manto familiar. O cheiro de mofo, o mobiliário desgastado, tudo era um contraste gritante com o luxo que ela vira na vida de Leonardo. Sentou-se no sofá puído, as mãos tremendo enquanto tentava acender um cigarro. A fumaça subia, um véu efêmero que parecia carregar seus pensamentos confusos.
O beijo. Era impossível esquecê-lo. Aquele toque, a eletricidade que percorreu seu corpo, a familiaridade dos lábios dele… Era como se o tempo tivesse parado, e ela estivesse de volta aos braços do homem que jurara amar para sempre. Mas o que ele sentira? Um momento de fraqueza? Uma saudade passageira? Ou algo mais profundo, algo que o fizesse questionar a vida que construíra com Clara?
As perguntas a atormentavam, girando em sua mente como um carrossel sem fim. Ela revivia cada detalhe do encontro na chuva. O olhar de Clara, a expressão de Leonardo. Havia culpa em seus olhos? Arrependimento?
Marina pegou uma caixa empoeirada de um canto do quarto. Era sua caixa de memórias, cheia de cartas, fotos e pequenos objetos que guardavam os fragmentos de seu passado com Leonardo. Com as mãos trêmulas, abriu a caixa e deixou que as lembranças a inundassem.
A primeira foto que pegou era deles na praia, sorrindo, jovens e cheios de esperança. O cabelo de Leonardo estava despenteado pelo vento, e os olhos dele brilhavam de um jeito que Marina só via quando ele a olhava. Ela tocou a foto, sentindo a textura do papel como se pudesse tocar o tempo.
Em seguida, uma carta amarelada. A caligrafia dele, elegante e apaixonada, contava sobre seus sonhos, sobre o futuro que planejavam juntos. “Meu amor, meu futuro, minha única certeza”, dizia uma passagem. Marina sentiu um aperto no peito. A certeza dele havia se desfeito como fumaça?
Ela folheou mais fotos: eles em um piquenique no parque, em um show de rock, abraçados em uma noite fria. Cada imagem era um pedaço de seu coração que ela pensara ter perdido para sempre. E agora, Leonardo estava ali, vivo, com outra mulher, mas com um beijo que reacendera as brasas da paixão.
“Por que você fez isso?”, ela sussurrou para a foto deles no parque. A pergunta ecoava em seu silêncio, sem resposta.
O apartamento parecia pequeno, sufocante. Marina precisava de ar, de um lugar onde pudesse pensar sem ser invadida pelas memórias. Decidiu ir até o velho mirante que costumavam frequentar, um lugar isolado, com uma vista espetacular da cidade.
Ao chegar, a noite já estava avançada. As luzes da cidade brilhavam como diamantes espalhados sobre um veludo escuro. O vento soprava forte, mas era um alívio para sua alma agitada. Sentou-se em um banco de pedra, observando a imensidão à sua frente.
Ela se lembrou da primeira vez que estiveram ali. Leonardo a trouxera para ver o nascer do sol. Ele a abraçou, prometendo que o amor deles seria tão eterno quanto aquele horizonte. Marina fechou os olhos, tentando reviver a sensação daquele abraço, daquela promessa.
“Por que você se afastou, Leonardo?”, ela se perguntou em voz alta, a voz levada pelo vento. “Por que você me deixou?”
A falência de sua família fora o golpe final. A perda do negócio dos pais, a dívida que se acumulava, a humilhação de ver tudo desmoronar. Leonardo, que sempre fora seu porto seguro, seu cúmplice em todos os planos, desapareceu. Ou melhor, ele a abandonou. Ele escolheu outro caminho, um caminho de conforto e segurança, longe da tempestade que ela enfrentava.
Na época, ela o procurara. Tentara entender. Mas ele fora evasivo, frio. Dizia que era melhor assim, que não poderia mais arcar com o peso de suas responsabilidades. Marina sentiu como se o mundo tivesse desabado pela segunda vez. O homem que a amava, o homem que jurara protegê-la, a deixara sozinha em seu pior momento.
E agora, anos depois, ele reaparecia. E a beijara. Aquele beijo na chuva era um convite para reviver o passado? Ou uma despedida definitiva?
Marina tirou um pequeno caderno e uma caneta do bolso. Ela sempre escrevera seus sentimentos, suas dores, seus amores. Era seu refúgio.
“Querido diário”, ela começou a escrever, a mão tremendo um pouco. “Hoje, a chuva me trouxe de volta a ele. O homem que roubou meu coração e o devolveu em mil pedaços. Vi Leonardo hoje. Com Clara. E ele me beijou. Aquele beijo… parecia um eco de um tempo que não volta mais. Aquele tempo em que éramos felizes. Em que éramos nós.”
Ela continuou escrevendo, despejando toda a confusão, toda a dor, toda a esperança que a invadia. As palavras fluíam, liberando um pouco da pressão em seu peito.
“Sinto falta daquele tempo, diário. Sinto falta dele. Mas o que ele fez foi imperdoável. Ele me abandonou quando eu mais precisei. Ele escolheu o caminho mais fácil, o caminho sem dor. E eu fiquei aqui, lutando sozinha.”
A caneta parou. Marina olhou para a paisagem iluminada. Havia beleza ali, uma beleza que contrastava com a escuridão em sua alma.
“O beijo de hoje… o que ele significa? É um convite para um novo começo? Ou apenas um último adeus? Não sei. Mas uma coisa eu sei: o homem que eu amava ainda existe em algum lugar dentro dele. E talvez, apenas talvez, uma parte de mim ainda o ame também.”
Ela fechou o caderno, sentindo um leve alívio. O mirante, com sua vista e seu vento, era um lugar de cura. Era um lugar onde ela podia se reconectar consigo mesma, com seus sentimentos mais profundos.
Ao se levantar para ir embora, ela olhou uma última vez para a cidade. As luzes pareciam mais brilhantes agora, como se a esperança tivesse encontrado uma fresta para entrar em seu coração. A dúvida permanecia, mas a certeza de que precisava de respostas era mais forte. Ela voltaria a procurá-lo? Ou deixaria o passado descansar em paz? O futuro era incerto, mas uma coisa era clara: Leonardo, o ladrão de seu coração, ainda ocupava um espaço significativo em sua vida, mesmo que apenas em suas memórias.