Coração em Chamas III
Coração em Chamas III
por Camila Costa
Coração em Chamas III
Por Camila Costa
---
Capítulo 1 — O Eco de um Passado Incendiado
O sol da tarde banhava o Rio de Janeiro em um ouro líquido, mas para Helena Vargas, a luz parecia ter perdido seu brilho habitual. Sentada na varanda do seu luxuoso apartamento em Ipanema, o vento salgado que trazia o cheiro de mar e flores tropicais era um contraponto cruel à tempestade que assolava seu interior. A taça de vinho branco, ainda intocada, repousava sobre a mesinha de centro, um espelho pálido da sua própria estagnação. Há dois anos, a tragédia a havia atingido com a força de um furacão, ceifando o homem que amava, seu eterno amor, seu Eduardo. E desde então, a vida de Helena se resumia a um lento e doloroso desdobramento.
Ela fechou os olhos, tentando afastar as memórias que teimavam em invadir sua mente, tão vívidas que a faziam sentir o calor do abraço dele, o som da sua risada rouca, o gosto dos seus beijos que a incendiavam. Eduardo. O nome era um suspiro, uma prece, uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar. Era um empresário respeitado, um homem de visão e, acima de tudo, o porto seguro de Helena. A notícia da sua morte em um acidente de helicóptero, perto das montanhas que um dia visitaram juntos, a desmoronou. O mundo de cores vibrantes se transformou em um borrão cinzento.
Seu advogado, Dr. Almeida, um homem pragmático e de poucas palavras, havia se tornado uma presença constante em sua vida nos últimos meses. Ele era o guardião dos negócios deixados por Eduardo, e Helena, por mais que tentasse, não conseguia se dedicar a eles. A Boutique "Aurora", o império de moda que ela ergueu com paixão e que Eduardo sempre admirou, agora parecia um fardo. As vitórias no mundo dos negócios não a consolavam, as manchetes sobre o sucesso da "Aurora" soavam vazias. Tudo o que importava, tudo o que a fazia vibrar, se fora com Eduardo.
Um toque no interfone a tirou de seu devaneio. Era a portaria anunciando a chegada de Sofia. Sofia era sua melhor amiga, sua confidente, a rocha que a mantinha minimamente ancorada. Sofia, com seu jeito direto e seu coração de ouro, tentava incansavelmente trazer Helena de volta à vida.
"Helena? Você está me ouvindo?", a voz de Sofia soou pelo interfone, vibrante e cheia de vida, um contraste gritante com o silêncio que habitava o apartamento.
"Estou sim, Sofia. Pode subir." Helena tentou soar o mais animada possível, mas a voz saiu fraca, como um fio de seda prestes a arrebentar.
A porta se abriu e Sofia entrou, carregando uma sacola de compras e um sorriso preocupado. Ela era o oposto de Helena: cabelos negros e cacheados, olhos castanhos intensos e um corpo curvilíneo que exalava confiança. Vestia um jeans e uma camiseta estampada, um visual casual que contrastava com a elegância discreta de Helena, que usava um vestido de seda azul marinho.
"Amiga! Que cara é essa? Parece que viu um fantasma", Sofia disse, depositando a sacola na mesa e abraçando Helena com força. "Trouxe seu wrap favorito daquela lanchonete chique que você adora. Achei que a gente podia comer juntas, te fazer companhia."
Helena retribuiu o abraço, sentindo um alívio temporário. A presença de Sofia era um bálsamo. "Obrigada, amiga. Você é um anjo. É só... mais um dia difícil."
"Eu sei, meu bem. E vai continuar sendo difícil enquanto você se deixar afundar nesse poço de tristeza. Eduardo não ia querer te ver assim", Sofia falou, sentando-se na poltrona em frente a Helena. Seus olhos, porém, não escondiam a preocupação.
Helena pegou a taça de vinho, finalmente, e tomou um gole longo. O frescor do vinho não era o suficiente para apagar o calor da saudade que a consumia. "Eu sei, Sofia. Mas é mais forte que eu. Cada canto aqui me lembra dele. Cada música no rádio, cada pôr do sol na praia..." Ela fez uma pausa, a voz embargada. "É como se eu estivesse presa num tempo que parou no dia que ele se foi."
Sofia suspirou, olhando para a vista deslumbrante da praia. "Eu entendo, Helena. De verdade. Mas a vida continua, e você tem uma vida inteira pela frente. Uma vida que você construiu com ele, sim, mas que agora precisa reconstruir para você. Sua mãe está preocupada. Seus pais também. Eles não entendem por que você se isolou tanto."
"Meus pais se acostumaram com a minha ausência nas reuniões de família há anos, Sofia. Desde que eu e Eduardo decidimos morar juntos, eles se sentiram um pouco deixados de lado. Agora, com ele se indo... é ainda mais difícil. Eles não entendem o vazio que ele deixou." Helena sentiu uma pontada de culpa. Seus pais, Dona Clara e Seu Antônio, eram pessoas maravilhosas, mas a intensidade do seu amor por Eduardo, e a dor da sua perda, pareciam distanciá-la de todos.
"Mas você não está sozinha, Helena. Eu estou aqui. A sua equipe na Aurora está aqui. O Dr. Almeida está fazendo um trabalho incrível para manter tudo funcionando. Você tem um império para comandar! Eduardo confiou em você para isso."
"Eu não consigo, Sofia. A papelada, as reuniões, as decisões... tudo me parece insignificante. O que adianta ter sucesso se não tenho com quem compartilhar? Se a pessoa que me inspirava, que me dava força, não está mais aqui?" Lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Helena, silenciosas e amargas.
Sofia se levantou e foi até Helena, ajoelhando-se ao seu lado. Colocou uma mão em seu ombro. "Ele estaria orgulhoso de você, Helena. Orgulhoso da mulher forte e determinada que você sempre foi. Eduardo te amava por quem você é, não apenas pelas suas conquistas. Ele te amava pela sua paixão, pela sua alma. E essa paixão não morreu com ele, está só adormecida."
Helena olhou para Sofia, os olhos marejados. A sinceridade na voz da amiga era palpável. "Adormecida? Parece mais morta para mim, Sofia."
"Não fale assim. Vamos fazer algo. Vamos sair. Que tal aquela exposição de arte nova que abriu no Centro Cultural? Ou um jantar, podemos chamar o pessoal da sua equipe mais próxima. Algo para te tirar desse casulo."
Helena balançou a cabeça. "Não estou com vontade, amiga. Talvez outro dia."
Sofia suspirou novamente, mas não insistiu. Ela sabia que forçar Helena não adiantaria. "Tudo bem. Mas eu vou te visitar todos os dias. E se você não abrir a porta, eu pulo pela janela. Você me conhece." Um leve sorriso surgiu nos lábios de Helena.
"Você é louca", ela murmurou.
"Louca por você, minha querida. Agora come esse wrap. Está esfriando. E depois, vamos conversar sobre a Aurora. Dr. Almeida me ligou mais cedo. Ele tem algumas propostas importantes para você. Coisas que vão exigir sua atenção. Talvez isso seja bom. Um novo desafio."
Helena olhou para a sacola de comida. A fome, que ela nem sequer sentia, pareceu dar um leve sinal de vida. Comer algo, talvez, pudesse ser um pequeno passo. Um pequeno passo para sair do abismo. Ela pegou o wrap e deu uma mordida. O sabor, embora familiar, parecia distante. Mas era um começo. Um começo tímido, quase imperceptível, mas um começo.
Enquanto comia, Helena sentiu um aperto no peito. A lembrança de Eduardo invadiu sua mente de novo. Ele amava vê-la trabalhando na sua boutique, a paixão que ela colocava em cada detalhe, o sorriso que iluminava seu rosto quando ela criava algo novo. Ele dizia que ela tinha o dom de transformar tecidos em sonhos. E agora, os sonhos pareciam ter se esvaído.
"Sofia", Helena disse, a voz um pouco mais firme. "Ligue para o Dr. Almeida. Diga que quero vê-lo amanhã. Preciso entender o que ele tem para mim."
Sofia sorriu, um sorriso genuíno e esperançoso. "Claro, Helena. Já estou ligando."
Enquanto Sofia discava o número em seu celular, Helena olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr, pintando o céu de tons alaranjados e rosados. Era um espetáculo que Eduardo adorava assistir. Ela fechou os olhos, imaginando seu rosto iluminado pela luz dourada, sentindo o calor do seu abraço. O eco do passado ainda era alto, mas talvez, apenas talvez, ela estivesse começando a ouvir uma nova melodia. Uma melodia que trazia a promessa de um futuro, ainda que incerto, mas um futuro que ela precisava enfrentar. O eco das chamas que um dia incendiaram seu coração ainda ressoava, mas Helena sentia uma brasa pequena, quase imperceptível, que teimava em não se apagar.