Coração em Chamas III
Capítulo 8 — O Segredo da Abadia Esquecida
por Camila Costa
Capítulo 8 — O Segredo da Abadia Esquecida
A viagem de trem para a Suíça foi um alívio agridoce para Helena. A paisagem alpina, com seus picos nevados e vales verdejantes, oferecia um contraste chocante com a agitação e os segredos de Veneza. No entanto, a paz exterior não conseguia acalmar a turbulência em seu interior. As palavras de Marco e a aparição do homem misterioso em Veneza a deixavam apreensiva, com a sensação constante de estar sendo observada. Ela se sentia acuada, como um animal encurralado, e a abadia escondida nos Alpes parecia um refúgio, um lugar onde talvez pudesse encontrar um pouco de sossego e respostas.
Isabella, sempre otimista, tentava animá-la, contando histórias engraçadas sobre suas aventuras na Itália e fazendo planos para as próximas semanas. "Quando voltarmos para Paris, você precisa conhecer aquele novo café que abriu perto do Louvre. Dizem que os doces são de outro mundo!", ela exclamou, um sorriso radiante no rosto.
Helena sorriu de volta, mas sua mente estava longe. Ela se perguntava se Marco viria com elas para a Suíça, se ele continuaria a ser uma presença em sua vida, apesar da revelação que havia abalado os alicerces de sua confiança. Ele havia prometido que estaria lá para apoiá-la, mas cada vez que ela pensava nele, uma mistura de raiva e uma estranha, persistente atração a dominava.
Ao chegarem à pequena e pitoresca vila alpina, o ar fresco e puro revigorou Helena. A abadia, que abrigava o restante da coleção de arte de seu pai, erguia-se majestosamente em uma colina, com a fachada de pedra envelhecida e as torres góticas apontando para o céu. Era um lugar de beleza austera e silenciosa, um santuário para a arte e para os segredos do passado.
O zelador da abadia, um senhor idoso de barba branca e olhos gentis chamado Père Antoine, os recebeu com um sorriso caloroso. Ele conhecera o pai de Helena e parecia ter um carinho especial pelas memórias do artista.
"Bem-vindas, senhoritas", disse Père Antoine, a voz suave e acolhedora. "É uma honra receber a filha do estimado Sr. Valença em nossa humilde morada. Ele deixou aqui um legado de beleza que ainda inspira a todos nós."
Enquanto Père Antoine os guiava pelos corredores silenciosos da abadia, Helena sentiu uma paz crescente. A luz do sol entrava pelas janelas altas, iluminando as obras de arte com um brilho etéreo. Havia pinturas, esculturas e objetos que ela nunca vira antes, cada um contando uma história silenciosa.
"Seu pai tinha um gosto impecável, Srta. Valença", disse Père Antoine, apontando para um grande retrato a óleo. "Esta é uma de suas obras-primas, um retrato de uma mulher misteriosa. Ele nunca revelou sua identidade, mas sempre dizia que ela o inspirou profundamente."
Helena se aproximou do retrato. A mulher na pintura tinha um olhar penetrante, uma beleza melancólica que a cativou. Algo naquele rosto parecia familiar, mas ela não conseguia identificar a conexão. Havia um anel em seu dedo, um símbolo que ela reconheceu de uma antiga fotografia. Era o mesmo símbolo que ela vira no broche de sua mãe, que fora guardado em uma caixa trancada em seu antigo apartamento.
"Quem é ela?", Helena perguntou, a voz embargada.
Père Antoine deu de ombros. "Ninguém sabe ao certo. Seu pai era um homem reservado sobre sua vida pessoal. Mas ele sempre guardou esta pintura com especial carinho. Ele a chamava de 'Minha Musa Escondida'."
Helena sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Poderia ser sua mãe? A mulher que ela mal se lembrava, cuja imagem estava tão desbotada em suas memórias? A ideia era avassaladora.
Enquanto exploravam a abadia, Helena notou um pequeno e discreto cofre embutido em uma das paredes da biblioteca. A curiosidade a consumiu. "Père Antoine, o que é isto?", ela perguntou, apontando para o cofre.
O zelador sorriu. "Ah, isso. Seu pai o instalou anos atrás. Ele disse que guardava ali coisas de grande valor sentimental. Ele me deu a chave, mas nunca me pediu para abri-lo. Disse que seria para o momento certo." Ele então, com um gesto cuidadoso, tirou uma pequena chave de um compartimento secreto em sua mesa. "Creio que o momento certo chegou."
Com as mãos trêmulas, Helena pegou a chave. O metal frio parecia vibrar com a energia de segredos antigos. Ela inseriu a chave na fechadura e, com um clique suave, o cofre se abriu. Lá dentro, repousavam cartas antigas, um pequeno diário e um broche deslumbrante adornado com uma pedra verde vibrante.
O broche era idêntico ao que ela vira na pintura da mulher misteriosa. Seu coração disparou. Ela pegou o diário. As páginas, amareladas pelo tempo, estavam preenchidas com a caligrafia elegante de seu pai. Ao folhear as primeiras páginas, ela encontrou uma dedicatória: "Para minha amada Helena, minha eterna musa e minha maior inspiração."
Helena sentiu as lágrimas inundarem seus olhos. Ela estava lendo as palavras de seu pai, dirigidas a ela, décadas antes. O diário contava a história de seu pai, não apenas como um artista, mas como um homem apaixonado, um homem que amava profundamente sua esposa e sua filha. E, entre as páginas, ela encontrou referências a um amor proibido, a uma paixão que quase o levou à ruína.
Um nome surgiu repetidamente nas páginas: "Sofia". Ele descrevia Sofia com uma devoção avassaladora, falando de seus encontros secretos, de seu amor intenso e da dor de ter que mantê-lo escondido do mundo. Helena percebeu, com um misto de choque e admiração, que Sofia não era outra senão sua mãe. E a mulher no retrato… era ela mesma, em sua juventude.
As cartas, escritas por sua mãe, revelavam um amor profundo e uma dor lancinante pela separação. Sua mãe, uma mulher de origem humilde, mas de uma beleza e inteligência raras, havia se apaixonado perdidamente por seu pai. Mas o casamento não fora aprovado pela família Visconti, que considerava Sofia inadequada para o futuro herdeiro.
"Seu pai lutou por você, Helena", disse Père Antoine, vendo as lágrimas escorrerem pelo rosto de Helena. "Ele a amava mais do que tudo. Mas as pressões da família eram imensas. Ele teve que tomar uma decisão difícil."
Helena sentiu seu coração se partir. A história que lhe fora contada sobre a morte de seu pai, sobre um acidente trágico, agora parecia uma máscara para encobrir uma verdade muito mais dolorosa. As cartas e o diário de seu pai pintavam um quadro de desespero, de um homem forçado a sacrificar seu amor e sua felicidade por causa de obrigações familiares.
Mas havia algo mais. Em uma das últimas cartas de sua mãe, ela mencionava um encontro em um local específico, uma antiga abadia em uma região remota da França, e falava de um plano para fugir juntos. A carta terminava com uma nota de urgência e medo, indicando que alguém estava interferindo em seus planos.
Helena sentiu um arrepio gelado percorrer sua espinha. A abadia em França… seria essa a abadia onde ela e Isabella haviam passado alguns dias no início de sua viagem, a abadia onde ela encontrara a pintura de sua mãe? Ela se lembrou do homem com o chapéu panamá que a havia seguido até lá. Seria ele alguém ligado a essa história, alguém que tentara impedir a fuga de seus pais?
A peça do quebra-cabeça parecia se encaixar, mas a imagem completa ainda era assustadora. A morte de seu pai não fora um acidente. Havia sido orquestrada. E a família Visconti, a família que ela conhecera como rica e influente, poderia ser a responsável por destruir a felicidade de seus pais e encobrir a verdade por décadas. A verdade sobre a morte de seu pai, a verdade sobre a origem de sua mãe, tudo estava entrelaçado em uma teia de segredos que a família Visconti tentava desesperadamente manter oculta.