O CEO e a Secretária
Capítulo 13 — As Sombras do Passado de Isabella
por Camila Costa
Capítulo 13 — As Sombras do Passado de Isabella
O regresso à sua vida cotidiana foi um choque para Isabella. A rotina no escritório da Sterling Corp, antes monótona, agora parecia um refúgio seguro, um lugar onde ela podia se esconder da tempestade emocional que a assolava. Cada olhar de Victor, mesmo que casual, a fazia sentir um arrepio. A memória do beijo, e das palavras dele chamando-o de "fraqueza", ainda a assombravam. Ela se mantinha distante, profissional, guardando para si a confusão e a raiva que borbulhavam em seu interior.
Victor, por sua vez, agia como se nada tivesse acontecido. Era a personificação da indiferença calculada. Seus olhares azuis a varriam com a mesma eficiência de sempre, mas sem o calor, sem a intensidade que ela, tola, começara a acreditar ser genuína. Ele estava mais focado do que nunca em seus negócios, as reuniões se sucediam, os contratos eram assinados, e a Sterling Corp parecia avançar em direção a um império ainda maior.
Enquanto Victor se aprofundava em seus impérios de aço e vidro, Isabella se viu imersa em suas próprias memórias. A conversa com a mãe, Elena, e as revelações sobre a infância distante de seu pai, pairavam em sua mente como nuvens escuras. A ideia de que sua vida, seus laços familiares, podiam ser mais complexos do que ela imaginava, a perturbava profundamente.
Uma tarde, enquanto organizava alguns documentos antigos em sua mesa, encontrou uma fotografia desbotada. Era dela, criança, ao lado de um homem que ela vagamente lembrava. Um homem com um sorriso gentil e olhos que pareciam carregar uma tristeza antiga. Aquele era seu pai, o homem que Elena sempre descreveu como um sonhador irresponsável, que a abandonara quando Isabella era muito pequena. Mas a foto… o olhar daquele homem parecia diferente da descrição de sua mãe.
Impulsionada por uma necessidade súbita, Isabella decidiu revisitar algumas caixas de recordações que estavam guardadas no sótão de casa. Passou horas vasculhando cartas antigas, diários empoeirados, e mais fotografias. Encontrou uma carta amarelada, escrita com uma caligrafia elegante e firme. Era do seu pai.
A carta, datada de muitos anos atrás, falava de um amor profundo por Elena e por Isabella. Descrevia seus planos de criar um futuro melhor para elas, de um projeto inovador que ele estava desenvolvendo, algo que o levaria para longe por um tempo, mas que lhe traria segurança financeira. Ele expressava a esperança de que, ao retornar, Elena e Isabella estivessem esperando por ele. Ele mencionava um local específico, um pequeno refúgio na serra, onde ele costumava ir para pensar.
A cada linha lida, Isabella sentia o chão se abrir sob seus pés. A narrativa de sua mãe sobre um pai ausente e irresponsável parecia cada vez mais incompleta, talvez até deliberadamente distorcida. Por que Elena esconderia algo assim? Por que pintaria uma imagem tão negativa de um homem que, pelas suas próprias palavras, amava a família?
A menção ao refúgio na serra ecoou em sua mente. Era o mesmo lugar que Victor mencionara uma vez, aquele lugar onde ele se sentia em paz, longe do mundo. Uma coincidência estranha, que a fez sentir um arrepio.
Decidiu que precisava saber mais. Precisava confrontar Elena. Naquela noite, foi até a casa da mãe, o coração pesado com a antecipação. Elena a recebeu com o sorriso caloroso de sempre, mas Isabella sentiu uma tensão diferente no ar.
"Mãe", Isabella começou, sentando-se à mesa da cozinha, a fotografia e a carta sobre a toalha xadrez. "Eu encontrei isso."
Elena olhou para os objetos, seu rosto empalidecendo visivelmente. A cor sumiu de suas bochechas, e seus olhos, antes vibrantes, agora pareciam opacos e assustados.
"Onde você achou isso, Isabella?", sua voz era um sussurro trêmulo.
"No sótão. Naquelas caixas antigas. Eu não entendia, mãe. Por que você nunca me contou sobre isso? Sobre o quanto ele te amava? Sobre os planos dele?" A voz de Isabella era carregada de mágoa e confusão.
Elena desviou o olhar, incapaz de encarar a filha. As mãos tremiam enquanto ela pegava a carta, as unhas arranhando o papel amarelado. "Sua mãe… eu cometi muitos erros, Isabella. Escolhas que fiz em desespero."
"Que escolhas, mãe? Você me fez acreditar que meu pai era um monstro, um covarde. Mas essa carta… ele parecia querer apenas o melhor para nós."
Elena suspirou, um som profundo e cheio de dor. "Ele era um idealista, Isabella. Um sonhador. E eu… eu era jovem e assustada. Quando ele disse que iria para longe para construir um futuro, eu senti como se ele estivesse me abandonando. O projeto dele… ele o levou a um caminho perigoso. Pessoas erradas se interessaram."
"Pessoas erradas? Que pessoas?", Isabella insistiu, sentindo o drama se adensar.
"Pessoas que queriam roubar as ideias dele. Ele estava sendo ameaçado. Um dia, ele veio me dizer que precisava desaparecer por um tempo, para nos proteger. Mas eu estava tão… quebrada. Tão consumida pelo medo de ser deixada para trás, de perder tudo. Eu o mandei embora, Isabella. Eu disse que não o queria mais. Eu o afastei. E depois… depois eu nunca mais ouvi falar dele."
As lágrimas finalmente rolaram pelo rosto de Elena. A dor que emanava dela era palpável. Isabella ficou chocada. A mãe, a mulher forte e resiliente que ela sempre conheceu, era também uma mulher atormentada por arrependimentos.
"Mas a carta… ele parecia tão confiante, tão esperançoso."
"Ele era. E eu… eu destruí tudo. Eu o rejeitei. E com o tempo, o medo se tornou raiva, e a raiva se tornou uma história que eu contei a mim mesma, e a você, para justificar a minha covardia. Para fazer parecer que ele era o culpado, e não eu." Elena cobriu o rosto com as mãos, soluçando. "Eu sinto muito, minha filha. Eu sinto muito por ter te privado da verdade."
Isabella sentiu uma mistura de compaixão e uma raiva latente. As peças começavam a se encaixar, mas de uma forma que a deixou ainda mais confusa. Seu pai não era um monstro. Ele era uma vítima de suas próprias circunstâncias, e talvez, das escolhas de sua mãe. E Victor? O que Victor Sterling tinha a ver com tudo isso? A menção ao refúgio, as pesquisas que ele fazia sobre a Vênus Enterprises…
De repente, uma nova peça se encaixou no quebra-cabeça. A Sterling Corp estava interessada em adquirir a Vênus Enterprises. A Vênus Enterprises… era o nome do projeto inovador de seu pai. Seria possível? Seria Victor Sterling, o CEO implacável, o homem que a beijara e depois a descartara, o homem que parecia ter tanto controle sobre tudo, na verdade, buscando algo que um dia pertenceu ao seu pai?
As sombras do passado de Isabella haviam se revelado, trazendo consigo um turbilhão de emoções e uma nova e perigosa suspeita. Victor Sterling não era apenas o homem que jogava com seus sentimentos. Ele parecia estar ligado ao mistério de seu pai, e essa conexão era algo que Isabella não podia mais ignorar.