Amor sem Fronteiras III
---
por Camila Costa
---
Capítulo 19 — O Passado Revelado
O silêncio que se seguiu à saída de Verona era denso, pesado, carregado de acusações não ditas e de verdades incômodas. Clara permaneceu imóvel no meio da sala de estar, o colar em seu pescoço parecendo queimar sua pele. Ela olhava para Miguel, buscando em seus olhos a resposta para as perguntas que a atormentavam. A revelação sobre o colar, a insinuação de Verona de que Miguel a comparava com a irmã, tudo isso a atingiu como um golpe baixo.
Miguel se aproximou dela, a expressão de angústia estampada em seu rosto. “Clara, por favor, me escute. O que a Verona disse… não é verdade. Ela está tentando distorcer tudo, criar confusão.”
Clara balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo livremente. “Mas o colar, Miguel… ele é idêntico. E ela disse que era dela. Que você a deu. Como isso é possível?”
Miguel suspirou, passando as mãos pelos cabelos, um gesto de puro desespero. “Sim, eu dei um colar parecido para ela. Há muitos anos. Quando éramos crianças, quase adolescentes. Era o aniversário dela, e eu quis dar algo especial. Algo que mostrasse o quanto eu me importava com ela, o quanto eu queria protegê-la. Mamãe me ajudou a escolher. E era aquele modelo, com a safira.”
Ele fez uma pausa, a voz embargada pela memória. “Na época, eu não tinha muito dinheiro. E o colar que eu dei para Verona era… uma réplica. De boa qualidade, mas uma réplica. Eu não podia arcar com uma joia original. E a mamãe sempre se certificou de que eu soubesse disso. Que eu era apenas uma cópia do que a família realmente merecia.”
Clara o ouvia atentamente, o coração apertado pela dor que ele parecia sentir ao reviver aquelas memórias. “E o meu colar? Como é que é igual?”
“O meu presente para você, Clara… foi um presente do meu coração. Eu me esforcei muito para conseguir. O dinheiro que eu recebi do meu trabalho… eu guardei cada centavo. E quando eu pude finalmente comprar algo que representasse o amor que eu sentia por você, eu escolhi aquele modelo. Era uma forma de te dar algo realmente especial. Algo que eu sabia que você adoraria. E que… por algum motivo… me fez pensar em Verona. Em querer te dar o que eu nunca pude dar a ela. Amor. Segurança. Um presente que valesse a pena.”
Ele segurou o rosto de Clara entre as mãos, seus olhos suplicantes. “Eu nunca te comparei com ela, Clara. Nunca. Eu te amo por quem você é. E o colar é apenas um símbolo disso. Um símbolo do meu amor por você. Não do meu passado.”
As palavras de Miguel a tocaram, mas a desconfiança plantada por Verona ainda residia em seu peito. “Mas ela disse que você tem culpa… que você se sente culpado por ela.”
Miguel se afastou um pouco, a postura tensa novamente. “Verona tem um dom para manipular as pessoas. Para usar as fraquezas alheias a seu favor. Sim, eu me sinto culpado pelo que aconteceu com ela. Eu me sinto culpado por não ter sido mais forte. Por não ter conseguido protegê-la de si mesma. Mas isso não significa que eu a ame mais do que você. Ou que eu te use para compensar algo.”
Ele se sentou no sofá, a cabeça entre as mãos. “Verona era a minha irmã mais velha. E eu a amava muito. Mas ela se perdeu. Se envolveu com pessoas perigosas, drogas, vícios. E eu vi tudo isso acontecer. Eu tentei intervir, mas ela sempre me afastava. Dizia que eu não entendia. Que eu era um garoto privilegiado que não sabia nada da vida real.”
“E a sua mãe?”, Clara perguntou, lembrando-se das palavras de Miguel sobre a rejeição de Verona.
“Mamãe nunca a aceitou completamente. Ela a via como um erro. Um fantasma do passado que arruinava a imagem da família. E Verona sentia isso. Ela sentia que nunca seria boa o suficiente. Que sempre seria a filha indesejada. E isso a corroía por dentro.” Miguel olhou para o vazio, os olhos perdidos em memórias dolorosas. “Houve um período em que ela desapareceu. Por meses. Achávamos que ela estava morta. E eu… eu me culpei por não ter feito mais. Por não ter sido mais insistente. Por não ter… a salvado.”
Clara se sentou ao lado dele, colocando a mão em seu ombro. Ela sentia a dor dele, a profundidade do sofrimento que ele carregava. “Miguel, você não podia ter salvado ela de si mesma. Ninguém pode. Só ela mesma poderia ter lutado. E agora, ela está aqui. Ela escolheu voltar.”
“Sim. Ela escolheu voltar. E eu não sei por quê. Não sei o que ela quer. Mas sei que não posso deixar que ela nos destrua, Clara. Não posso deixar que ela destrua você.” Ele a abraçou com força, apertando-a contra si. “Eu te amo. E você é a minha prioridade. Sempre será.”
Naquele momento, Clara acreditou nele. Acreditou na sinceridade de suas palavras, na profundidade do seu amor. Mas a imagem de Verona, com seu sorriso cruel e seu olhar calculista, pairava em sua mente. Ela sabia que Verona não desistiria facilmente.
De repente, um barulho vindo do andar de cima chamou a atenção deles. Um estrondo alto, seguido por um grito abafado. Miguel e Clara se entreolharam, a preocupação estampada em seus rostos.
“O que foi isso?”, Clara perguntou, levantando-se rapidamente.
“Verona”, Miguel respondeu, a voz tensa. Ele correu em direção às escadas, Clara logo atrás dele.
Ao chegarem ao topo da escada, viram Verona caída no chão do corredor, perto de uma porta. Ela segurava o braço com uma expressão de dor intensa. A caixa de veludo azul, contendo o colar de safira, estava aberta ao seu lado.
“Verona! O que aconteceu?”, Miguel perguntou, correndo até ela.
Verona gemeu de dor. “Eu… eu tropecei. Aquele tapete velho. Eu não o vi.”
Mas Clara notou algo diferente. O tapete estava um pouco torto, como se tivesse sido propositalmente desarrumado. E os olhos de Verona, embora cheios de dor, também continham um brilho de astúcia.
“Você está bem?”, Clara perguntou, se aproximando com cautela.
Verona a olhou com um misto de raiva e surpresa. “Você se importa?”
“Sim, eu me importo”, Clara respondeu, mantendo a calma. “Eu não quero que nada de ruim aconteça com você.”
Verona hesitou por um instante, como se estivesse avaliando a sinceridade de Clara. “Eu acho que torci o tornozelo. E talvez tenha batido a cabeça.”
Miguel a ajudou a se levantar. “Precisamos te levar para um hospital.”
“Não!”, Verona recusou prontamente. “Eu não quero ir a um hospital. Eu quero apenas descansar. E depois… depois vamos conversar. Miguel, eu tenho coisas para te contar. Coisas que você precisa saber sobre o nosso passado. Sobre o nosso pai. E sobre o que ele realmente fez.”
O tom de Verona era sério, e a menção ao pai, um homem que sempre se manteve distante e misterioso, causou um arrepio em Miguel.
“O que você quer dizer com isso, Verona?”, Miguel perguntou, a preocupação aumentando.
“Eu quero dizer que a nossa família não é o que parece, Miguel. E que você tem muito a descobrir. E eu sou a única que pode te contar a verdade.” Verona se apoiou em Miguel, e juntos eles caminharam em direção a um dos quartos. Clara os seguiu, sentindo que a noite ainda guardava muitos segredos, e que a revelação do passado de Verona estava apenas começando. A teia de intrigas se adensava, e Clara temia que, ao descobrir a verdade, ela pudesse perder Miguel para sempre.
---