Amor sem Fronteiras III
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por Camila Costa
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Capítulo 20 — A Verdade Cruel
O quarto principal da mansão dos Fontes, com suas cortinas pesadas e móveis de mogno escuro, parecia um palco sombrio para a revelação que se anunciava. Verona, sentada em uma poltrona antiga, o tornozelo enfaixado, parecia mais vulnerável do que Clara jamais a vira. Mas a vulnerabilidade em seus olhos dava lugar a uma determinação fria e calculista. Miguel estava ao seu lado, a tensão visível em cada fibra do seu ser, enquanto Clara observava tudo de um canto, sentindo-se uma espectadora relutante em um drama que a envolvia cada vez mais.
“Você quer me contar a verdade, Verona?”, Miguel perguntou, a voz baixa, mas firme. “A verdade sobre o quê, exatamente?”
Verona deu um pequeno sorriso, um sorriso que não alcançava seus olhos. “A verdade sobre quem nós somos, Miguel. Sobre o legado da nossa família. E sobre o quanto o nosso pai era mais sombrio do que você jamais imaginou.”
Ela fez uma pausa, seus olhos fixos nos de Miguel. “Você sempre pensou que ele era um homem de negócios sério, correto? Que ele trabalhava duro para nos dar tudo o que tínhamos? Mas a verdade é que o império dele foi construído sobre mentiras e… e muito mais.”
Miguel franziu a testa, a apreensão crescendo. “Eu não entendo, Verona. O que você quer dizer?”
“Eu quero dizer que o nosso pai não era apenas um empresário. Ele era um homem que transitava por caminhos perigosos. E o envolvimento dele com o submundo… era mais profundo do que qualquer um de nós imaginava.” Verona se inclinou para frente, sua voz assumindo um tom confidencial. “Ele usava a fachada da sua empresa para lavar dinheiro. Dinheiro de atividades ilícitas. E ele tinha… sócios. Pessoas que não eram nada gentis.”
Clara sentiu um arrepio. A imagem do pai de Miguel, um homem que ela só conhecera através das histórias de Miguel, um homem de negócios respeitável, desmoronava diante de seus ouvidos.
“Isso não é verdade, Verona”, Miguel disse, a voz tingida de choque e incredulidade. “Papai nunca faria algo assim.”
“Oh, ele faria, Miguel. Ele faria tudo para manter o nome da família no topo. E ele nos usava como escudo. A mamãe, você, eu… todos nós éramos peças no jogo dele.” Verona suspirou, como se o peso daquelas palavras a esmagasse. “E eu fui a primeira a descobrir. Quando era mais jovem, eu… eu me envolvi com as pessoas erradas. E descobri o quão sujo era o nosso próprio nome.”
Ela olhou para Clara. “Eu tentei te alertar, Clara. Tentei te mostrar que o Miguel não era perfeito. Que ele carregava um legado sombrio. Mas você não quis ouvir. Preferiu se iludir com o conto de fadas.”
Clara sentiu o rosto queimar. A verdade era dolorosa, mas a maneira como Verona a apresentava, como uma arma contra ela e Miguel, a deixava ainda mais apreensiva.
“O que você quer, Verona?”, Miguel perguntou, a voz um sussurro rouco. “O que você realmente quer?”
“Eu quero a minha parte, Miguel”, Verona disse, seus olhos brilhando com uma mistura de ambição e ressentimento. “Eu quero o que me foi negado. A minha vida de volta. E o meu nome limpo, mesmo que o nome da família esteja manchado para sempre.”
Ela pegou a caixa de veludo azul, abrindo-a. O colar de safira repousava ali, brilhando sob a luz fraca. “Este colar… foi um presente do nosso pai. Não da mamãe. Ele me deu antes de… antes de tudo desmoronar. Ele me disse que era para me proteger. Para me lembrar que, não importa o quão sujo fosse o mundo, havia sempre alguém cuidando de mim.”
Miguel olhou para o colar, a memória daquele momento, daquele presente, agora com um significado totalmente novo e perturbador. “Papai me disse que deu para você algo parecido, mas que foi a mamãe que escolheu. Ele nunca me falou desse colar.”
“Claro que não”, Verona riu. “Ele não queria que você soubesse de nada. Ele te mantinha na ignorância, protegido da verdade. Enquanto eu… eu era quem ele mandava para os campos de batalha. Quem ele ensinava a se defender. Quem ele transformava na arma que ele precisava.”
Ela estendeu o colar para Miguel. “Pegue. Ele é seu agora. Ou melhor, é da sua nova ‘protegida’. Mas lembre-se, Miguel. As coisas que parecem brilhantes e bonitas, muitas vezes escondem uma escuridão profunda. E o legado da nossa família… é justamente isso.”
Miguel pegou o colar com as mãos trêmulas, olhando para ele com uma mistura de repulsa e confusão. Ele sabia que Verona estava mentindo sobre algumas coisas, manipulando os fatos para seu próprio benefício. Mas a revelação sobre o pai… aquilo o abalou profundamente.
“Eu preciso de tempo para processar tudo isso, Verona”, Miguel disse, a voz embargada.
“Tome o seu tempo, irmão”, Verona respondeu, um sorriso sombrio em seus lábios. “Mas não demore muito. Porque a nossa família tem um passado a acertar. E o tempo está correndo.”
Ela se levantou da poltrona, apoiando-se em Miguel. “Eu vou descansar agora. E você, Clara… pense bem. Pense se você realmente quer se envolver com um homem que carrega um legado tão pesado. Pense se o seu amor é forte o suficiente para enfrentar a verdade cruel.”
Verona saiu do quarto, deixando Miguel e Clara em um silêncio ensurdecedor. Clara olhou para Miguel, vendo a dor e a confusão em seus olhos. Aquele homem que ela amava, que ela via como seu porto seguro, estava envolvido em uma teia de segredos e mentiras que ela nunca imaginara.
“Miguel… eu…” Clara começou, mas as palavras falharam em sua garganta.
Miguel se virou para ela, o colar ainda em sua mão. “Clara, o que a Verona disse sobre o nosso pai… eu não sei se é verdade. Mas o que ela disse sobre mim… sobre o meu passado… talvez haja um pouco de verdade nisso. Eu sempre tentei te proteger. Mas talvez eu tenha te mantido longe demais da verdade. E isso não é justo com você.”
Ele estendeu o colar para ela. “Este colar… ele é um símbolo do meu amor por você. E eu não vou deixar que ninguém, nem mesmo a Verona, distorça isso. Eu te amo, Clara. E o nosso futuro… ele será construído sobre a verdade. Não importa o quão cruel ela seja.”
Clara pegou o colar, sentindo o metal frio em sua mão. Ela olhou para Miguel, vendo a sinceridade em seus olhos. A verdade sobre a família dele era sombria, a ameaça de Verona era real, mas o amor que ela sentia por Miguel, e o amor que ele demonstrava por ela, era real também. A batalha estava longe de acabar, e a verdade cruel que Verona desenterrou traria novas tempestades, mas Clara estava disposta a enfrentá-las. Ao lado de Miguel. Juntos.