Amor Impossível II
Amor Impossível II
por Ana Clara Ferreira
Amor Impossível II
Autor: Ana Clara Ferreira
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Capítulo 16 — A Fuga Sob a Lua de Sangue
O ar da noite era denso, pesado com a umidade da floresta e o cheiro acre de pólvora que ainda pairava no ar. A lua, tingida de um vermelho doentio, espreitava entre as nuvens esfarrapadas, lançando sombras longas e distorcidas que dançavam como espectros. Debaixo dela, em meio aos destroços da última batalha, encontravam-se os últimos remanescentes da esperança de Clara. Os olhos dela, outrora vibrantes como esmeraldas, agora eram poços fundos de dor e desespero. Ao seu lado, Elias, com o corpo exausto e a alma ferida, segurava a mão dela com uma força que parecia a única coisa real naquele mundo desmoronado. A traição de Rodrigo, a perda de aliados valiosos, a humilhação pública… tudo pesava sobre seus ombros como uma rocha.
“Não podemos ficar aqui, Clara”, Elias sussurrou, a voz rouca de fadiga. “Eles virão atrás de nós. Precisamos sumir.”
Clara assentiu, um tremor percorrendo seu corpo. A imagem do sorriso frio de Rodrigo, a forma como ele a olhou como a um mero objeto a ser possuído e depois descartado, a assombrava. A liberdade que ela pensava ter conquistado, a dignidade que acreditava ter recuperado, tudo se revelou uma ilusória armadilha.
“Para onde, Elias?”, a voz dela era um fio de esperança prestes a se romper. “Rodrigo sabe de cada passo que damos. Ele tem olhos em todos os lugares. E Sofia… Sofia não vai descansar até nos destruir completamente.”
Elias apertou a mão dela com mais força. “Não podemos pensar em Rodrigo agora. Precisamos pensar em nós. Há um lugar… um antigo refúgio que meu avô me mostrou, nas montanhas. Um lugar esquecido pelo tempo, onde as trilhas são perigosas e raramente trilhadas. Ele o chamava de ‘O Ninho da Águia’.”
Um vislumbre de algo que se assemelhava à esperança cintilou nos olhos de Clara. “Montanhas… Um lugar para nos escondermos?”
“Sim. Um lugar para respirarmos, para curarmos nossas feridas, para planejarmos o próximo passo. Mas a jornada será longa e perigosa. Precisamos ser rápidos e silenciosos.”
Eles se levantaram com dificuldade, cada movimento uma agonia. A armadura de Elias estava manchada de sangue e terra, suas vestes rasgadas. Clara, com o vestido de seda agora em farrapos, sentia o frio da noite penetrar até os ossos, mas o calor da mão de Elias era um consolo tênue.
“E os outros?”, Clara perguntou, a voz embargada. A menção aos sobreviventes da batalha a atingiu como um golpe. Aquele grupo unido, que lutou com bravura e fé, agora estava disperso, abatido, alguns provavelmente mortos.
Elias suspirou, a dor estampada em seu rosto. “Alguns se dispersaram… tentaram fugir em direções diferentes. Outros… outros não resistiram. O que pudemos, ajudamos a se esconder. Mas a prioridade agora somos nós dois, Clara. Se não nos protegermos, não poderemos fazer nada por ninguém.”
Ele a ajudou a montar em um dos cavalos mais resistentes que encontraram, um animal ferido mas ainda com força para a fuga. Elias montou em outro, o silêncio sendo sua única linguagem. A floresta parecia conspirar contra eles. Galhos secos estalavam sob os cascos dos cavalos, o vento uivava entre as árvores como um presságio funesto. Cada ruído, cada sombra, parecia a aproximação de Rodrigo e seus homens.
“Precisamos ir para o norte”, Elias guiou. “Seguir o curso do rio até que ele se curve para o oeste. As montanhas estão naquela direção. A floresta aqui é densa demais, podemos nos perder facilmente.”
Clara se agarrou à crina do cavalo, o rosto voltado para o céu escarlate. A lua sangrenta era um espelho de sua própria alma, dilacerada e em sofrimento. Ela pensava em sua família, em sua honra, em tudo o que Rodrigo havia profanado. A vingança era um fogo que ardia em seu peito, mas por ora, a sobrevivência era o imperativo mais urgente.
“Você acha que conseguiremos, Elias?”, ela perguntou, a voz quase inaudível.
Ele olhou para ela, os olhos encontrando os dela na penumbra. “Precisamos, Clara. A luta não acabou. Apenas mudou de campo.”
A jornada foi um pesadelo. A noite se arrastava, implacável. A chuva começou a cair, fina e fria, encharcando-os e tornando o caminho ainda mais traiçoeiro. Os cavalos escorregavam em terrenos lamacentos, as árvores pareciam se fechar sobre eles, impedindo a passagem. Clara sentia o corpo protestar, a exaustão tomando conta, mas a adrenalina da fuga e a determinação de Elias a impulsionavam.
Eles cruzaram riachos gelados, atravessaram clareiras assombradas por animais noturnos. A cada momento, Clara sentia a presença de Rodrigo, como um predador à espreita. Ela se lembrava das palavras de Sofia, da sua promessa de destruí-la. O medo era real, palpável, mas a resiliência que sempre habitou sua alma começava a se manifestar, temperada pela dor e pela perda.
Ao amanhecer, a chuva diminuiu, mas o céu continuava nublado. A paisagem começava a mudar, as árvores se tornando mais esparsas, dando lugar a um terreno acidentado que anunciava a proximidade das montanhas. Elias parou o cavalo, apontando para um caminho estreito e sinuoso que se perdia entre rochas íngremes.
“É ali”, ele disse. “O Ninho da Águia fica no topo. A subida é difícil, mas quem nos procura não esperará que subamos por ali.”
Clara olhou para a imensidão rochosa, um desafio imponente. Mas ali, naquele local remoto, talvez encontrassem um respiro. Talvez ali pudessem se reerguer. A fuga sob a lua de sangue fora apenas o primeiro ato de uma nova e árdua jornada. A batalha das sombras havia terminado, mas a guerra pela liberdade e pela verdade estava apenas começando. O que os esperava no topo da montanha, Elias não sabia dizer, mas sabia que enfrentariam juntos. A união deles, forjada no fogo da adversidade, era agora seu único escudo.